1991: Screamadelica – Primal Scream

Screamadelica

Por: Marcelo Brandi

“Um Rolling Stones regado a ecstasy”. Talvez essa seja a melhor expressão para definir o que foi “Screamadelica” e o que ele representou naquele início de anos noventa. O ímpeto autodestrutivo do punk há muito já havia se esvaído. O acid house e a cultura rave se encontravam em seu ápice. Na contramão de todas as tendências, os escoceses do Primal Scream, uma banda não tão jovem, e com dois álbuns já lançados, mantinham vivo o sonho de construir uma carreira sólida no mundo do punk rock. Suas influências iam de New York Dolls até os próprios Stones. Mas, às vezes, é o acaso que muda tudo.

Os membros da banda já haviam sido introduzidos à cena do acid house em 1988 e, apesar de não demonstrarem, a princípio, grande interesse pelo gênero, eles rapidamente começaram a frequentar raves. Foi em uma delas que a banda conheceu o DJ Andrew Weatherall, que, posteriormente, resolveu remixar a canção “I’m Loosing More Than I’ll Ever Have”. O resultado foi “Loaded”. Desmontada e adornada com sons novos, ela converteu-se em um fenômeno. O som do Primal Scream não seria mais o mesmo. Eles entraram em estúdio e, dezoito meses após a edição de “Loaded”, “Screamadelica” era lançado.

O sucesso do álbum foi imediato, vendendo mais 60 mil cópias na primeira semana, e vencendo o almejado “Mercury Music Prize” do ano de 1992. “Screamadelica” pode ser considerado em muitos sentidos um convite a uma noite agitada, regada a muita diversão e, principalmente, ecstasy. O álbum inicia de forma magistral com “Movin’ On Up” que, com riffs certeiros, consegue impressionar e colocar pra dançar até um primeiro ouvinte. A canção apresenta os vocais de Bobby Gillespie juntamente um coro gospel, acompanhado por violão, guitarra e percussão. Gillespie disse certa vez que é difícil fazer um rock dançante. Ele estava certo. A festa havia começado.

A segunda faixa “Slip Inside This House” é uma versão da música lançada pelo 13th Floor Elevators em 1966, numa peça imponente dominada pelo baixo. Nela e na magnífica “Don’t Fight, Feel It” é que é possível perceber o impacto das remixagens de Weatherall e do acid house na sonoridade da banda. Nesta última, contou com a participação da cantora Denise Johnson que, posteriormente, integrou o Primal Scream em várias performances ao-vivo.

“Higher Than The Sun” é uma peça belíssima, na qual Gillespie, apesar de não ser um exímio cantor, consegue nos emocionar em uma ambientação densa e alucinógena. O transe persiste em “Inner Fight”, em um clima misterioso. Uma viagem espacial ou, porque não, visceral, rumo ao íntimo conhecimento de cada um de nós?

Após esse momento mais “introspectivo”, o álbum entra talvez em seu ponto mais alto. “Come Together” já havia sido lançado como single, mas seu arranjo foi totalmente reformulado na versão presente em “Screamadelica”. Com mais de dez minutos, a canção é uma comemoração da união humana de “We are Together”, além de ser uma mistura sensacional de ritmos, como rock, dub e soul. Em seguida surge “Loaded”, a canção talvez mais representativa do sentimento que corre nas veias do álbum. É o ponto de êxtase da noite: “Just what is it that you want to do? We wanna be free. We wanna be free to do what we wanna do. And we wanna get loaded, and we wanna have a good time”.

Um épico. A revista “Muzik” listou “Loaded” como um dos cinquenta registros de dança mais influentes de todos os tempos, descrevendo-a como “algo parecido com ‘Sympathy for the Devil’ para a geração X”.

“Damage” inicia uma parte mais tranquila e reflexiva do álbum, algo como um fim de festa. A sonoridade mais acústica persiste em “I’m Comin’ down”, que introduz um belo solo de sax. Antes do fim, “Higher Than The Sun (A Dub Symphony In Two Parts)” ainda nos brinda com um retorno ao ambiente de “Higher Than The Sun”, só que de maneira ainda mais sombria. Se “Movin’ On Up” era a faixa perfeita para se iniciar o álbum, “Shine Like Stars” cumpre bem papel para concluí-lo. Praticamente uma canção de ninar para pôr fim a uma noite como poucas.

É difícil encontrar álbuns que consigam captar um momento histórico de forma tão fidedigna como “Screamadelica”. Afinal, ele refletiu toda uma cultura musical que estava em voga no início dos anos noventa. Um trabalho que a todo o momento fez uma ponte entre passado e presente e com a cabeça voltada para o futuro. Um clássico imprescindível, que é digno de ser ouvido por todos.

NOTA: 9,6

Track List:

01. Movin’ on Up [03:47]

02. Slip Inside This House [05:14]

03. Don’t Fight It, Feel It [06:51]

04. Higher Than the Sun [03:36]

05. Inner Flight [05:00]

06. Come Together [10:21]

07. Loaded [07:01]

08. Damaged [05:37]

09. I’m Comin’ Down [05:59]

10. Higher Than the Sun (A Dub Symphony in Two Parts) [07:37]

11. Shine Like Stars [03:45]

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