2013: Reflektor – Arcade Fire

Reflektor

Por: Renan Pereira

Um dos maiores méritos do Arcade Fire é a sua incrível capacidade de se reinventar. Além de ser uma das pouquíssimas bandas que contém apenas ótimos exemplares em sua discografia, o grupo pode gabar-se de nunca ter estacionado no lugar-comum. Quem esperava, em 2007, que eles utilizassem as aclamadas bases de “Funeral” para construir a continuação de sua carreira, acabou se esbarrando em “Neon Bible”, um disco que parecia já deixar muito claros os conceitos pregados pelo coletivo canadense. O Arcade Fire não teme em percorrer novos caminhos, mesmo que isso signifique o abandono de fórmulas que deram, no passado, um ótimo resultado. E agora, depois de ganhar o Grammy de melhor álbum do ano de 2010 com “The Suburbs”, a banda investe mais uma vez na mutação ao percorrer uma epopeia dançante em “Reflektor”, o quarto disco de sua carreira.

O conceito do disco começou a ser construído, primeiramente, a partir de uma viagem realizada por Win Butler e Régine Chassagne ao Haiti, terra-natal da família da musicista. Considera por Butler como uma experiência que mudou a sua vida, a permanência do casal no país mais pobre das Américas abriu-lhes as mentes a uma visão de mundo que jamais haviam experimentado. Mergulhando sem temores na cultura daquele povo tão sofrido, tanto Butler quanto Chassagne encontraram, mesmo em meio a tantas dificuldades, uma tradição musical pautada na dança e na alegria. Se em seu trabalho anterior a banda havia ficado presa aos subúrbios onde seus membros cresceram, agora, com “Reflektor”, há o desgarramento das raízes para a conquista de uma percepção mais universal. Não faltam, portanto, toques tropicais e de descendência africana às bases do registro.

Mas como Win Butler já avisava tempos antes do lançamento do disco, “Reflektor” não é uma mostra do Arcade Fire tocando música haitiana. Há uma constante incorporação de elementos caribenhos, é verdade, mas estes flertes formam apenas uma parte do generoso quebra-cabeça de inspirações que fomenta o trabalho. Presença mais do que atuante durante os processos de gravação, o produtor James Murphy, do LCD Soundsystem, coligou de forma absolutamente assertiva seus rumos eletrônicos com a sonoridade característica da banda canadense. Ansiosos por elevar ao épico os toques sintéticos que permearam “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, a penúltima faixa de “The Suburbs”, os membros da banda não pouparam interesse no casamento do Arcade Fire com as pistas de dança.

Há também, no Arcade Fire atual, um imenso interesse no rock experimental da virada das décadas de setenta e oitenta. Não tem como não citar David Byrne e seu trabalho junto ao Talking Heads como uma grande influência à sonoridade de “Reflektor”, bem como o que David Bowie desenvolvera, junto a Brian Eno e Tony Visconti, na chamada “Berlin Trilogy”. A própria presença do Camaleão na faixa-título, que abre os caminhos do álbum, não deixa dúvidas quanto às inspirações: é como se o Arcade Fire quisesse reviver, da sua maneira, os rumos sonoros de discos como “Let’s Dance”, “Scary Monsters (and Super Creeps)” e seus antecessores. Liberada como primeiro single de “Reflektor”, a canção serviu não apenas para nos apresentar ao novo Arcade Fire, mas também para criar um incrível hype acerca do álbum. A grandiosa campanha de marketing preparada pelos agentes da banda, certamente, também muito contribuiu para que o disco chegasse a ser considerado como o lançamento mais aguardado de 2013.

Com seus rumos épico-dançantes definidos, o grupo sente-se à vontade para mergulhar nas pistas ao aproveitar ao máximo os toques de James Murphy. É admirável, por exemplo, como a atmosfera tradicional das músicas do Arcade Fire, repleta de indie rock, ganha um corpo mais proeminente ao alcançar as ideias da disco music em “We Exist”, a segunda faixa. É ao mesmo tempo estranha e normal a percepção de que, mesmo sendo uma banda constantemente mutável, o Arcade Fire continua a ter certas bases composicionais que o acompanham desde “Funeral”, seu disco de estreia: no caso, podemos citar as reflexões existencialistas, que sempre foram um prato cheio para os lirismos da banda, e agora voltam a aparecer. As letras, de certa forma, não conseguem alcançar o mesmo teor inédito da sonoridade, mas é fato que os “antigos” conceitos continuam a agradar.

Mesmo nas canções em que Murphy não surge como produtor, há uma completa inserção do Arcade Fire em sons que, até agora, não haviam sido explorados pela banda; caso de “Flashbulb Eyes”, que surge entre ruídos para depois se desenvolver em um sensível aspecto dançante, encontrando os costumes caribenhos em meio a batidas exóticas e uma concepção singela de teclados e riffs de guitarra. Dividido entre duas partes (ou duas “noites”), “Reflektor” vê em sua primeira metade um espírito mais alegre, agitado e coletivo, perfeitamente representado pela quarta faixa, “Here Comes the Night Time”. Uma verdadeira orquestra de percussão dá o ritmo da canção mais quente do disco, uma epopeia dançante cujos aspectos rítmicos e melódicos cativam naturalmente o ouvinte… É aqui, afinal, que “Reflektor” explode em uma extraordinária celebração.

Um sentimento mais “roqueiro”, com ares de arena, surge em “Normal Person”, que discute quem pode ser considerado dentro das convenções sociais da normalidade; para a construção da sonoridade da canção, uma guitarra pesada acaba se encontrando com as percussões quentes e os instrumentos de sopro que se derramam pelo disco, perfazendo, dessa forma, a perfeita união do novo com o velho Arcade Fire. A dança, porém, volta a ser o principal elemento da faixa seguinte, “We Already Know”, que parte em busca dos elementos setentistas da música disco sem se esquecer, porém, da atmosfera épica que sempre envolveu os caminhos sonoros da banda: a presença do velho colaborador Markus Dravs na co-produção do álbum traz, de forma natural, as orquestrações de “The Suburbs” às bases de “Reflektor”. Mas se anteriormente os rumos eruditos eram os que davam as ordens, agora eles são apenas mais um tempero de uma grande salada, perdido entre os grooves. É com o sentimento à flor da pele e a fantástica linha de baixo de “Joan of Arc” que a primeira parte do trabalho se encerra, representando um arriscado amor platônico que procura emendar-se, de propósito, à lenda grega de Orfeu e Eurídice; sobra espaço, ainda, para que Régine Chassagne dispare alguns versos em francês.

Falando em Orfeu e Eurídice, a segunda parte do disco é mais centrada no mito que inspirou o filme brasileiro “Orfeu Negro”, de 1959. Citado por Win Butler como uma de suas películas preferidas, o longa dirigido pelo francês Marcel Camus influenciou as letras de “Reflektor” principalmente no que tange a seus sentimentos de isolamento e morte. O cenário hermético de “Joan of Arc” já parecia ter dado a ordem, e a primeira faixa do segundo disco, “Here Comes the Night Time II”, esclarece que não só a noite mudou, como os sentimentos também… O coletivo acaba condensando-se no indivíduo, e a felicidade dá lugar a um clima obscuro. Como bem mostra “Awful Sound (Oh Eurydice)”, é nas sombras que agora se encontra a percussão tropical, envolvida nas orquestrações típicas de Makus Dravs que parecem realocar a banda nos cenários de seus dois álbuns anteriores: ou seja, a tristeza explanada em formidáveis rumos melódicos.

Segundo o filme de Marcel Camus (que, por sua vez, foi adaptado de uma peça de Vinícius de Moraes), Eurídice chega ao Rio de Janeiro fugida do sertão nordestino. Na cidade maravilhosa, onde vai morar em uma favela com a prima Serafina, a moça conhece o carnaval e o sambista Orfeu, com o qual acaba se apaixonando. Mas ele já é noivo da bela e sedutora Mira, que parte contra Eurídice em ataques de ciúme… Enquanto o amor proibido vai se desenvolvendo, um homem começa a perseguir a sertaneja. No último dia de carnaval, ao fugir de seu perseguidor, a jovem acaba entrando em um galpão velho e escuro. Ela tenta se esconder, mas quando o homem a acha, ela pula desesperada de um tablado e se segura em um fio de alta tensão. Nisso, Orfeu chega para tentar salvá-la… mas acaba ligando a tensão, e Eurídice morre eletrocutada. É o som terrível da morte acabando com um romance puro e inocente, como procura demonstrar a segunda faixa da segunda metade de “Reflektor”.

Após brigar com o perseguidor, o sambista fica inconsciente, dando-se conta do ocorrido apenas depois de acordar; só lhe resta o choro e a desolação na quarta-feira de cinzas. Guitarras climáticas e inspirações do R&B mostram, em “It’s Never Over (Hey Orpheus)”, o chamado desesperado de Eurídice, que implora ao seu amado para ir buscá-la. Nesse teor conceitual, o Arcade Fire vai alcançando outras temáticas líricas que, em outros discos, já haviam sido exploradas: é possível encontrar a tensão e a dissonância de “Neon Blible”, a magia e o mistério de “The Suburbs” e até a morte de “Funeral” – só que com tudo envolto em uma nova concepção… É o Arcade Fire conseguindo ser mutável ao mesmo em que é a mesma banda de sempre. A eletrônica e hermética “Porno” parece, de fato, enriquecer ainda mais essa dualidade.

Desesperado, Orfeu parte em busca de Eurídice nas terras do além: “Afterlife” é uma faixa chave, que constrói, com seus elementos emprestados da new wave oitentista, uma alternativa para a trágica história de amor. E o desfecho acaba ocorrendo quando, ao encontrar o corpo de Eurídice, Orfeu decide sequestrá-lo e levá-lo à favela. No fim, após uma briga com Mira, o sambista acaba caindo de uma ribanceira, caindo morto ao lado do corpo de Eurídice… “Supersymmetry”, a última faixa da epopeia, abraça a morte simultaneamente à celebração da pureza do amor. É como se os rumos sintéticos de “Reflektor” servissem para colher uma ideia que havia sido plantada no já longínquo ano de 2004, com a primeira canção de “Funeral”. Mesmo mudando tanto, aventurando-se entre tantas nuances e influências, a banda consegue manter intocável o seu ideal.

Surge ainda, no final do disco, um “resumo” de todo o turbilhão sonoro que envolvera o registro… Talvez para deixar ainda mais escancarados os méritos do Arcade Fire em misturar tantos elementos de uma forma capaz de construir um novo conceito. Mesclando disco music, David Bowie, Talking Heads, new wave, música e cultura haitiana, mitologia grega e cinema brasileiro aos seus próprios ideais, o Arcade Fire não conclui apenas o quarto álbum de sua discografia, mas mais um capítulo de sua constante transformação. Quem eles são, para onde eles vão? Se nem uma epopeia reflexiva pôde responder a esses questionamentos, talvez nem o tempo consiga. Mas quem realmente importa? Daqui três anos, todo mundo estará, novamente, ansioso para descobrir um novo disco de um novo Arcade Fire.

NOTA: 9,2

Track List:

CD 1:

01. Reflektor [07:34]

02. We Exist [05:44]

03. Flashbulb Eyes [02:42]

04. Here Comes the Night Time [06:31]

05. Normal Person [04:22]

06. You Already Know [03:59]

07. Joan of Arc [05:27]

CD 2:

01. Here Comes the Night Time II [02:52]

02. Awful Sound (Oh Eurydice) [06:14]

03. It’s Never Over (Hey Orpheus) [06:43]

04. Porno [06:03]

05. Afterlife [05:53]

06. Supersymmetry [11:17]

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