1966: Fresh Cream – Cream

Fresh Cream

Por: Renan Pereira

Na segunda metade dos anos sessenta, as guitarras pegaram fogo. O formidável Eric Clapton, que pouco tempo antes havia recebido louvação em sua participação na banda de John Mayall, decidiu unir-se ao baterista Ginger Baker e ao baixista Jack Bruce para formar o primeiro supergrupo da história do rock: a banda Cream. Tratava-se de uma evolução natural para a carreira de Clapton, até porque, naquelas alturas, o guitarrista já era tido como a maior referência do blues da Inglaterra; ele necessitava de um lugar onde suas ideias pudessem ser exploradas com mais liberdade, e formar uma nova banda mostrou-se o caminho mais palpável para que sua carreira pudesse crescer.

Mas o Cream, é claro, não era só Eric Clapton. Um power trio formidável, encontrou sempre na divisão das responsabilidades o melhor caminho para arquitetar uma das mais influentes carreiras da história do rock: base para tudo o que posteriormente seria definido como “hard rock” ou “heavy metal”, os elementos sonoros da banda abrilhantaram os rumos do rock com uma concepção altamente clássica, mas que nem por isso deixava de se aventurar por novos caminhos. Flertando com o acid rock e abraçando o movimento psicodélico, o Cream acabou se tornando não apenas mais um atraente conjunto de blues, mas um dos pioneiros de um estilo que é explorado intensamente até os dias de hoje.

Em outubro de 1966, a banda, ainda em seus primeiros passos, teve a oportunidade de tocar com Jimi Hendrix, que era um admirador confesso da música de Clapton. Em seus primeiros shows, porém, o Cream resignava-se a performar antigos clássicos do blues, devido à falta de um material inédito… O primeiro conjunto de canções da banda seria lançado apenas no final daquele ano. Para tanto, foram mescladas composições de Baker e Bruce com alguns números antigos rearranjados, deixando em um patamar mínimo a participação composicional de Eric Clapton. Era visível a intenção de dividir a atenção do público entre os três integrantes, embora, mesmo distante da criação de versos, Clapton não deixasse de se destacar. No fundo, tudo girava em torno de sua guitarra.

Como o guitarrista considerava-se muito tímido para cantar, coube a Jack Bruce a responsabilidade pelo vocal da banda. Embora não fosse um vocalista de formação, o baixista acabou surpreendendo positivamente, se tornando um vocalista de visível habilidade. E a primeira faixa de “Fresh Cream”, “N.S.U.”, é uma música de sua autoria; extremamente poderosa, a canção faz com que o álbum inicie a sua jornada já com rotação máxima: uma linha de bateria absurdamente energética, um baixo deliciosamente grooveado e um jogo excitante de riffs velozes vão transferindo o ouvinte para o turbilhão sonoro proposto pelo trio. Propositalmente mais calma, e integrando seções sonoras ligadas à uma concepção mais clássica de blues, “Sleepy Time Time” mostra-se como a canção perfeita para a guitarra de Clapton chorar… Alguém é capaz de duvidar do sentimento que o guitarrista transferia para o seu instrumento?

A terceira, “Dreaming”, flerta sem parcimônia com os elementos do rock psicodélico, apresentando uma proposta atmosférica especialmente hermética, permeada por um fantástica concepção de harmonias vocais. Apesar de ser, notavelmente, um álbum de grandes instrumentações, não são poucas as vezes em que “Fresh Cream” mostra-se apto a surpreender através de belíssimas sobreposições de vozes; caso de “Sweet Wine”, cujo andamento tanto melódico quanto rítmico parece ir de encontro à obscura vertente do freakbeat… Entretanto, seria uma crueldade não citar o fantástico solo construído por Clapton para essa canção, transformando a sua guitarra em um meio de transporte capaz de levar o ouvinte a novas dimensões.

Em “Spoonfull” há mais uma impecável instrumentação, que constrói uma adaptação colossal de um grande clássico do blues… As regravações presentes no track list, apesar de diminuírem a força “inédita” imposta pelas canções compostas pelo Cream, ligam de forma perfeita a banda inglesa às raízes do blues, enterradas lá no outro lado do Atlântico; por mais que a banda se aventurasse pelos “novos” elementos do rock, ela nunca deixou de apresentar nas antigas texturas norte-americanas a base de seus conceitos sonoros. “Cat’s Squirrel” e “For Until Late”, a sexta e a sétima faixa, respectivamente, são mais duas dessas assertivas regravações – encontrando, porém, ares de novidade através de uma nova concepção de arranjos implementada pelo Cream. “For Until Late” foi, além disso, a única música do álbum a contar com Eric Clapton como vocalista principal.

Mas é na fantástica versão da banda para “Rollin’ and Tumblin'” em que todos os êxitos em regravar antigos clássicos do blues são condensados. A guitarra de Eric Clapton, em parceria com uma gaita tocada por Jack Bruce, alcançam uma concepção absurdamente energética, bem como surpreendentemente suja… É só ouvir Ginger Baker espancando sua bateria para perceber como o Cream conseguiu fazer desta regravação um número especialmente seu: a sua concepção poderosa de riffs jamais será igualada por qualquer versão desta canção.

Enquanto “I’m So Glad” converte seus acertos em uma abordagem inegavelmente pop, a última faixa, “Toad”, dá provas finais da genialidade presente no trio formado por Clapton, Bruce e Baker: um espetáculo instrumental inigualável, é capaz de destacar toda a criatividade dos três músicos em uma só canção. Há os excitantes riffs de Clapton, uma pulsante linha de baixo de Bruce e uma magnífica performance de percussão de Baker. Inovador, o baterista criou, na última faixa de “Fresh Cream”, o primeiro solo de bateria da história do rock, uma seção instrumental que influenciou praticamente todos os bateristas daquela época e das décadas posteriores.

Mas a última faixa é apenas uma das inúmeras demonstrações da influência do power trio. Servindo de base para todo o andamento do rock dito “pesado” nos anos seguintes, “Fresh Cream” não moldou apenas os conceitos sonoros do Cream… Sem o lançamento do disco, é provável que bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath sequer existiriam. Um marco fundamental, e um dos registro mais energéticos de todos os tempos, o disco ainda não demonstra o ápice criativo do Cream, mas se caracteriza como um dos principais capítulos da história da música popular. Sem “Fresh Cream”, os anos setenta como conhecemos jamais teria visto a luz do dia.

NOTA: 9,3

Track List:

01. N.S.U. (Bruce) [02:43]

02. Sleepy Time Time (Bruce/Godfrey) [04:20]

03. Dreaming (Bruce) [01:58]

04. Sweet Wine (Baker/Godfrey) [03:17]

05. Spoonful (Dixon) [06:30]

06. Cat’s Squirrel (traditional) [03:03]

07. For Until Late (Johnson) [02:07]

08. Rollin’ and Tumblin’ (traditional) [04:42]

09. I’m So Glad (James) [03:57]

10. Toad (Baker) [05:11]

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