2013: New – Paul McCartney

New

Por: Renan Pereira

É muito bom ver que o nosso velho Paul McCartney continua a produzir, tanto ao-vivo quanto em estúdio, em um ritmo invejável. Realizando turnês constantes e seu segundo álbum em dois anos, o compositor inglês parece querer ficar distante de qualquer acusação de preguiça, mostrando que, apesar de ser um músico consagrado há mais de quarenta anos, nunca lhe faltou a vontade de construir novos trabalhos. McCartney sabe a extrema importância da música que desenvolvera nos últimos cinquenta anos, e por isso, mesmo já alcançando a sua sétima década de vida, se esforça para continuar produzindo algo que não deixa dúvidas quanto à relevância. E o melhor de tudo é ver que, além da quantidade, o atual trabalho do ex-beatle não se distancia da qualidade que se espera de um dos maiores gênios da história da música.

E em seu novo álbum de estúdio, “New”, McCartney trilha um caminho esperado, mas que nem por isso deixa de se mostrar altamente recompensador. Em suma, o músico continua sendo quem ele sempre foi, um mestre dos rumos melódicos e das harmonias vocais, puxando de seu trabalho realizado nos Beatles e na banda Wings os principais elementos delineadores de sua música… Mas o título do álbum, que inspira novidade de forma proposital, já deixa claro que, mesmo valorizando os aspectos mais tradicionais de sua carreira, McCartney está atento ao cenário atual. Ao recrutar um quarteto de produtores respeitados pelo que têm feito nos últimos anos, ele propõe-se a construir um álbum de essência jovial, apto a conquistar não apenas seu velho público, mas também uma nova legião de ouvintes.

Podemos dizer que “New” é o lado oposto do empoeirado “Kisses on the Bottom”, bem como um “Memory Almost Full” às avessas. Se em seus últimos trabalhos McCartney tinha como intenção a prestação de homenagem a aspectos históricos da música (seja o jazz norte-americano ou a sua própria carreira), agora ele volta-se novamente ao mundo atual para mostrar que a acessibilidade de sua música continua intocada. Passam anos e décadas, e Paul McCartney não deixa de cativar o público com conceitos simples, mas extremamente assertivos. Pois “New” é um daqueles tradicionais trabalhos do músico, repleto de músicas agradáveis, melodias atraentes e harmonias impecáveis, sem envergonhar-se de soar pop. Há novos aspectos, é claro, mas felizmente incapazes de fazer com que o compositor se afaste de seu habitat natural.

Se a proposta do disco é fazer com que, em pleno ano de 2013, a música de Paul McCartney seja comercialmente acessível sem soar descartável (ou uma pura mesmice), nada melhor do que contar com o apelo pop do produtor Paul Epworth no tratamento da primeira faixa, “Save Us”. Explosiva, a canção se agarra a guitarras pesadas, uma construção melódica impecável e harmonias vocais que parecem trazer para os dias atuais as participações dos já falecidos John Lennon e George Harrison… Afinal, se os quatro integrantes dos Beatles ainda estivessem vivos e tocando juntos, pode ter certeza que deles sairia algo parecido à primeira faixa de “New”: um misto das tradições sessentistas com o sentimento pop dos dias de hoje.

Em “Alligator” há espaço para mais uma canção de conceito tradicional, semi-acústica, em que o jogo de riffs e (principalmente) os sintetizadores alocados pelo produtor Mark Ronson constroem um verdadeiro colchão para a alocação da melodia. A terceira faixa, “On My Way to Work”, desenha paisagens urbanas de forma deliciosa, refletindo o cotidiano com uma destreza que só os músicos mais experientes conseguem ter; é como Chico Buarque, que em seu último disco conseguiu transformar cenas banais do dia-a-dia em uma grande canção em “Querido Diário”. O início orquestrado da excitante “Queenie Eye” acaba se transformando em um instrumental de caráter moderno, que acaba casando-se competentemente com o senso composicional que vem acompanhando McCartney desde os anos sessenta.

Quando o ex-integrante dos Beatles consegue converter suas ideias em um irresistível acerto melódico, o que temos como resultado é, geralmente, algo de extrema agradabilidade. Paul McCartney já criou grandes hinos da música pop, arquitetou a evolução da música popular através da fase psicodélica dos Beatles, e tornou-se um impecável baladeiro na companhia da então esposa Linda McCartney no Wings, mas nem todos os êxitos alcançados em uma carreira tão inventiva foram necessários para blindar o músico de algumas críticas. O que dizer, afinal, de alguns falhos trabalhos lançados por ele nos anos oitenta? Mas se, naquela época, McCartney tentou alcançar o “novo” a todo custo, investindo em toda a farofa (e nos sintetizadores bregas) daquela década ao esquecer-se de tratar com capricho os rumos melódicos, a partir dos anos noventa a toada passou a ser diferente… Foi mesclando as novidades com suas antigas ideias que o músico encontrou um cenário sustentável para a continuação de sua carreira, gerando álbuns de grande qualidade, como “Flaming Pie” e “Chaos and Creation in the Backyard” – e agora “New”. A própria quinta faixa do disco, “Early Days”, parece ser uma releitura de “Flaming Pie” com um pé na produção setentista do compositor.

A faixa-título é um número pensado para as rádios, utilizando os rumos pop/melódicos do Wings para criar um single de bom potencial. Não há nada tão novo em “New” quanto à sétima faixa, “Appreciate”, com o produtor Giles Martin alocando Paul McCartney em uma estrutura moderna, em que uma bateria eletrônica e efeitos sintetizados desenham uma atmosfera obscura, com algo de Nine Inch Nails e até de hip-hop; em suma, uma grata surpresa. “Everybody Out There” é um pop-rock clássico, um número tradicional da carreira-solo de McCartney, em que a novidade mora no desfecho da faixa, com mais um turbilhão sonoro proposto por Giles Martin. Ethan Johns produz, com igual maestria, a nona faixa, “Hosanna”, em que o jogo acústico é temperado por uma fantástica sobreposição de efeitos sonoros.

“I Can Bet” é mais um pop-rock de tendência clássica, mas que através de sua bem pensada concepção de ruídos atinge um bom resultado quanto à aproximação das tendências atuais… Há ainda flertes com os sintetizadores que acabaram caracterizando os últimos trabalhos da discografia setentista de David Bowie, acrescentando ao disco uma “áurea conceitual” que, na realidade, serve apenas para dar um charme a mais: apesar do verdadeiro espetáculo proporcionado pelos produtores, não espere de “New” o mesmo teor experimental que Nigel Godrich havia inserido em “Chaos and Creation in the Backyard”. “New” é um disco pop, delineado através de um competente pensamento voltado à acessibilidade, mas que não deixa de bordar novas texturas à música de McCartney – como mostra muito bem o andamento minimista de “Looking at Her”, a penúltima faixa do álbum.

“Road” é um encerramento perfeito, que parece condensar todos os acertos do disco em uma só faixa: mais um perfeita concepção melódica preenchida por uma incrível explosão pop, capaz de alocar o velho Paul McCartney em uma base sonora moderna e de acabamento especialmente hermético. Há ainda a faixa escondida “Scared”, oferecendo mais alguns instantes de música para os ouvintes mais sedentos, e nos deixando com aquele sempre bem-vindo “sabor de quero mais”. Se um Paul McCartney atrelado às tradições e atento às novidades era o que todo mundo esperava, “New” provavelmente não decepcionará ninguém. É um trabalho que parece ter sido feito para agradar a todos, seja o ouvinte um antigo beatlemaníaco ou um adolescente que apenas agora está descobrindo os grandes nomes da música… “New” é, enfim, satisfação garantida: um disco capaz de agradar você e toda a sua família.

NOTA: 8,1

Track List:

01. Save Us [02:39]

02. Alligator [03:27]

03. On My Way to Work [03:43]

04. Queenie Eye [03:47]

05. Early Days [04:07]

06. New [02:56]

07. Appreciate [04:28]

08. Everybody Out There [03:21]

09. Hosanna [03:29]

10. I Can Bet [03:21]

11. Looking at Her [03:05]

12. Road | Scared [07:39]

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