1973: Greetings from Asbury Park, N.J. – Bruce Springsteen

Greetings from Asbury Park, N.J.

Por: Renan Pereira

É um pecado a ignorância coletiva que gira em torno do primeiro disco de Bruce Springsteen: o fato de não estar entre os mais famosos lançamentos do “The Boss” não deveria ser uma justificativa para o esquecimento de uma obra tão importante. Mas essa questão não é, de forma alguma, novidade quando se discute a carreira de Springsteen. Há quem determine sua importância apenas pelos êxitos comerciais de “Born in the U.S.A.”, ignorando a qualidade de uma discografia que se apresentou, muitas vezes, mais interessante que o tão famoso álbum de 1984. O que dizer da cobertura da imprensa sobre a passagem recente do músico pelo Brasil? Não foram poucos os informativos que apresentaram Springsteen como o “autor de ‘Born in the U.S.A.'”, jogando para escanteio todos os demais êxitos de um numeroso e brilhante catálogo de discos… É como se David Bowie tivesse sua carreira resumida a “Ziggy Stardust”, ou se “Highway 61 Revisited” pudesse rotular todo o senso artístico de Bob Dylan.

Realmente, a imprensa brasileira não conhece Bruce Springsteen. O tratam como mais um daqueles rock stars que ganharam fama a partir dos anos oitenta, algo que, além de um completo equívoco, consegue diminuir de forma considerável todo o incrível resultado alcançado pelo compositor ainda nos anos setenta… É nessa década que moram os mais geniais lançamentos de Springsteen, ignoram os mal-informados: tratando-se de relevância artística, “Born to Run” e “Darkness on the Edge of Town” mostram-se inegavelmente superiores ao mais famoso disco do compositor.

Outro erro imperdoável é rotular Bruce Springsteen simplesmente como “roqueiro”. Muitas vezes, sua música esteve muito mais atrelada à música folk do que propriamente ao rock n’ roll, e seu primeiro álbum, “Greetings from Asbury Park, N.J.”, é uma ótima demonstração disso. E é aqui que voltamos, enfim, à questão principal deste texto… Através da análise da estreia de Springsteen, podemos perceber que, mesmo ainda distante dos rumos épicos que permeariam os lançamentos seguintes, o primeiro disco do músico acabou cumprindo seu papel com maestria: apresentou um dos músicos mais promissores de sua época, em um exercício pleno de cativação.

“Greetings from Asbury Park” pode até ter sido deixado de lado pelo público, mas soube perfeitamente como conquistar os olhares da crítica: muitos até mesmo começaram a ver na figura de Bruce Springsteen um “novo Bob Dylan”. Mas às comparações à Dylan só são válidas quanto a interação entre as tradições do folk e as guitarras do rock, pois, no conceito, os rumos sonoros utilizados por Springsteen se diferenciavam largamente. As abordagens eram distintas: no fundo, nenhum outro artista de folk ou de rock havia mergulhado nos mesmos conceitos apresentados por “Greetings from Asbury Park”… Nem The Byrds, Neil Young, Simon & Garfunkel, ninguém havia feito um folk rock parecido com o de Springsteen.

E é nessa toada de novidade constante que o disco é delineado. A primeira faixa é a entusiasmante “Blinded by the Light”, construída sobre um base instrumental impecável, dinâmica, e composta por Springsteen a partir de um pedido da gravadora. Havia um sentimento geral de que “Greetings from Asbury Park” não teria nenhum single em potencial e, com isso, Springsteen acabou trabalhando em duas novas canções  – sendo que uma foi, de fato, a primeira faixa. Ironicamente, “Blinded by the Light” só faria sucesso três anos depois, com o conjunto de rock progressivo Manfred Mann’s Earth Band.

“Growin’ Up” é uma música fundamental do catálogo de Bruce Springsteen; falando sobre um anseios de um rebelde adolescente de New Jersey, a faixa derrama-se em três minutos de puro sentimento, amparada por um instrumental que, apesar de mais calmo, não deixa de apresentar a energia característica deste disco. Possivelmente intimista, a canção é descrita por alguns como uma representação da juventude do compositor – e não por acaso, quando a tocava em seus shows, o músico geralmente fazia um longo discurso sobre os problemas que havia enfrentado no relacionamento com o seu pai.

O momento mais “Dylanesco” do álbum está na terceira faixa, a acústica “Mary Queen of Arkansas”, cujo tema, apesar de obscuro, parece evocar a personalidade de uma drag queen. Esta não é a única composição do disco em que os detalhamentos líricos são abandonados em função de uma abordagem mais hermética, afinal, o jovem Bruce Springsteen estava ainda construindo o seu senso composicional. A primeira fase de sua carreira, especialmente, caracterizou-se muito mais pelas letras evocativas do que pelos rumos críticos. Há também o canto das tradições, o culto à terra-natal, como é perceptível em “Does This Bus Stop at 82nd Street?”, que transforma em música uma viagem de ônibus de New Jersey até Manhattan.

Sabe aquelas composições clássicas de Bruce Springsteen, doloridas e desesperadas, repletas de fortes emoções, com um pequeno vislumbre de esperança? A primeira delas é “Lost in the Flood”, retratando os sentimentos de uma classe que sempre teve a atenção do compositor: os veteranos de guerra dos Estados Unidos, geralmente tão maltratados por uma sociedade que não reconhece o seu valor. Eis aqui, na quinta faixa, o ponto máximo do disco, que conta com uma espetacular performance de Springsteen, próxima do incrível showman que ele se tornaria anos depois.

A sexta faixa, “The Angel”, foi considerada por Springsteen, na época do lançamento de “Greetings from Asbury Park, N.J.”, como a canção mais sofisticada do disco; construída sobre piano, a composição traz assertivas relações e alegorias à imagem do automóvel, que trabalham para contar os descaminhos de um motociclista fora-da-lei. Em mais uma letra evocativa, que constrói imagens de uma mulher que cometera suicídio, é que situa-se “For You”, outro número certeiro que agrega cada vez mais qualidade à estreia de Springsteen… É como se, ao visitar a vida de seus personagens, o compositor quisesse explanar os mais íntimos sentimentos. O grande diferencial da música de Springsteen, no caso, sempre foi tratar do íntimo sem necessariamente se prender à pessoa do músico; indubitavelmente, ele é um mestre em saber atingir em cheio as emoções do ouvinte. “Spirit in the Night”, a penúltima, é a canção mais estranha do disco, visivelmente se afastando do propósito das demais; foi a outra canção escrita por Springsteen sob a pressão da gravadora por singles de potencial, e que acabou gerando, mais uma vez, sucesso apenas para a Manfred Mann’s Earth Band, três anos depois.

Mas é com a sensacional “It’s Hard to Be a Saint in the City” que o álbum se encerra, utilizando de um assertivo tom arrogante e vaidoso para contar a estória de um garoto que cresceu nas ruas… É um número perfeito para encerrar um disco que, ao contrário das obras mais comerciais de Bruce Springsteen, prendem muito mais pelas palavras do que pela “áurea rock n’ roll”. Um registro importantíssimo da história da música dos Estados Unidos, e o nascimento de uma lenda, de um dos músicos que sempre mostrou ser um perfeito entendedor dos rumos do país e da sociedade. “Greetings from Asbury Park, N.J.” é um pequeno clássico perdido, em que os versos alegoricamente religiosos da última faixa são capazes de condensar todos os êxitos líricos de um jovem Bruce Springsteen: “O diabo apareceu como Jesus através do vapor na rua, me mostrando uma mão eu sabia que até mesmo a polícia não conseguiu bater. Eu senti sua respiração quente em meu pescoço enquanto mergulhava no calor… É tão difícil ser um santo quando você é apenas um garoto na rua”.

NOTA: 8,4

Track List:

01. Blinded by the Light [05:06]

02. Growin’ Up [03:05]

03. Mary Queen of Arkansas [05:21]

04. Does This Bus Stop at 82nd Street? [02:05]

05. Lost in the Flood [05:17]

06. The Angel [03:24]

07. For You [04:40]

08. Spirit in the Night [05:00]

09. It’s Hard to Be a Saint in the City [03:13]

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