2013: Lightning Bolt – Pearl Jam

Lightning Bolt

Por: Renan Pereira

O Pearl Jam é um grupo que merece respeito. Se você pensar em todas aquelas bandas que ajudaram a tornar o grunge um fenômeno musical na primeira metade dos anos noventa, verá que a banda de Eddie Vedder é a única que se mantém entre as maiores do mundo. O Nirvana acabou, e grupos como Mudhoney, Soundgarden e Alice in Chains têm se tornado, cada vez mais, nomes irrelevantes no cenário internacional. Enquanto isso, o tempo parece não abalar as estruturas do Pearl Jam: o conjunto soube se reinventar, distanciando-se do grunge quando o gênero começou a se tornar peça de museu, abraçando novas ideias e criando uma boa quantidade de canções de sucesso. Porém, o maior acerto do Pearl Jam em toda sua carreira foi pensar sempre em seus seguidores, moldando seus álbuns para empolgantes espetáculos ao-vivo.

Não por acaso, registros de shows como os discos “North America 2000”, “North America 2003” e “Live at Bayanora Hall” acabaram sendo aclamados tanto pela crítica quanto pelo público. O Pearl Jam se tornou uma banda mais alinhada às turnês do que ao estúdio, e nem o mais fervoroso dos fãs consegue negar tal fato. Resultado de todo esse pensamento voltado aos palcos, “Lightning Bolt”, o décimo álbum de estúdio do grupo, tem seu conceito voltado à geração de hits: são canções feitas para grudar na mente, preencher o set list de uma nova turnê, mas incapazes de apresentar qualquer concepção realmente inédita. O que há de “novidade” no disco é, enfim, apenas uma revisitação dos mesmos conceitos que vem acompanhando a banda há algum tempo.

Há quem diga que a banda está mudando porque está investindo mais em baladas, canções de andamento mais lento e alguns números que tentam se agarrar ao universo folk proposto pela carreira-solo de Eddie Vedder. Um suposto “refino”, que na verdade não significa nada além de um mais-do-mesmo… É como se a banda procurasse reviver suas glórias investindo em “novas versões” de músicas que passaram não apenas por diferentes momentos da discografia do grupo, mas também pelo ainda pouco numeroso catálogo da carreira solitária de seu vocalista.

“Lightning Bolt” apresenta doze faixas bem tocadas, bem cantadas e com letras decentes, mas totalmente distantes de qualquer desejo de evolução. Há as bandas que acabam se complicando na tentativa de crescer, e há o caso do Pearl Jam, em que a vontade de fazer algo realmente inédito parece ser uma carta fora do baralho. Alguém poderá citar o AC/DC como forma de desqualificar essa ideia, dizendo que os caras continuam tocando o mesmo som de trinta anos atrás e mesmo assim continuam sendo aclamados… E essa é, sem dúvida, a verdade, mas sabe por qual motivo? A superação. Mesmo que sempre lide com o mesmo conceito sonoro, Angus Young e sua trupe sempre tentam fazer algo melhor, independente da existência ou não da capacidade para se realizar tal feito. O problema de “Lightning Bolt”, portanto, não é somente seguir conceitos pré-estabelecidos: é se resignar a isso, mostrando uma banda que, provavelmente incapaz de criar algo tão grande quanto “Ten” ou “Vitalogy”, entrega aos ouvintes um trabalho banal, afastado de qualquer anseio de se produzir algo realmente relevante.

Mas não, não pense que “Lighting Bolt” é um disco para ser jogado fora. Pode até ser um mero reaproveitamento de conceitos, mas pelo menos é um álbum bem executado, uma audição válida para quem gosta do velho e sempre interessante rock de arena: riffs envolventes, vocal poderoso, refrões fortes e aquele constante sentimento de que as canções funcionariam muito bem em uma turnê. “Getaway”, a primeira faixa, é um bom exemplo disso: nada de grande relevância, uma base próxima de conceitos comerciais, mas que serve para uma audição despreocupada… Se você quiser curtir o disco, talvez a melhor dica seja não levá-lo à sério, encarando-o como simples entretenimento. Trate-o como um filme do Homem Aranha, em que ninguém espera algo digno de um Oscar ou uma Palma de Ouro.

A música mais animada do álbum é, sem dúvida, a segunda faixa, “Mind Your Manners”, com um ritmo excitante e um conceito próximo dos melhores discos do Pearl Jam, lançados em uma época em que a banda ainda se propunha a fazer um som de qualidade indiscutível. “My Father’s Son” também não é ruim, mas acaba não engrenando o esperado; não existe aquele momento em que a canção “cresce”, e ignorar a grande qualidade dos guitarristas Stone Gossard e Mike McCready não é, obviamente, a melhor das opções. A obviedade corre solta em “Sirens”, uma baladinha sem-graça que poderia muito bem ter sido lançada por grupos como Guns N’ Roses e Skid Row no início dos anos noventa… Será que haverá algum ouvinte que não perceberá que o Pearl Jam está diminuindo o peso das guitarras para maquiar, com rumos melosos, a sua atual falta de criatividade?

Além de ruim, a faixa-título demonstra uma total inexistência de genuinidade… Tentar imitar Dave Grohl e seu Foo Fighters? Não, Eddie Vedder, você não precisa disso. “Infallibe” não chega a ser uma canção infalível, mas está entre os momentos mais legais do disco, trazendo um bom andamento instrumental e mais uma concepção pensada para os palcos. Os arranjos atmosféricos de “Pendulum” são atraentes, e qualificam a sétima faixa como a melhor música do disco: afinal, contém rumos sonoros bem elaborados, bem como lirismos tradicionais de Eddie Vedder, capazes de lembrar a boa performance do vocalista com a trilha sonora do filme “Into the Wild”, de 2007.

“Lighning Bolt” traz aproximações com o folk rock, estão dizendo alguns… Sim, há Eddie Vedder, reaproveitando ideias de sua carreira-solo, e a presença de acordes de violão no novo disco do Pearl Jam torna-se algo até natural. Mas não venham dizer que há elementos da música folk em “Swallowed Whole”, por favor… Investindo em um número de fácil acesso, a oitava faixa apresenta, na realidade, um conceito pra lá de comercial, com a banda prendendo-se fortemente à música pop. “Let the Records Play” é um pop-rock que empresta suas bases do rock dos anos cinquenta, só que desacelerando seu andamento – e soando, por consequência, demasiadamente banal. Isso é rigor? Sim, mas como não ser exigente? A banda em questão é considerada uma das maiores do mundo, e vê-la produzindo canções dignas de bandinhas iniciantes, de adolescentes, nunca será motivo para louvação.

Os reais flertes com a música folk estão nas três últimas faixas do álbum. “Sleeping By Myself” é uma canção já gravada por Vedder em seu último álbum solo, “Ukulele Songs”, de 2011, e sua presença em “Lightning Bolt” é totalmente aproveitadora: é como se a banda não tivesse sido capaz de compor todas as canções do disco, e por isso precisasse regravar uma música já lançada anteriormente. “Yellow Moon” poderia ter feito parte da tilha de “Into the Wild”, com seu discurso totalmente ligado à natureza, e apresenta-se agradável, colocando em nossa mente imagens da viagem realizada por Christopher McCandless. Já a última, “Future Days”, borda atmosféricos arranjos de piano para Eddie Vedder soltar seu vozeirão em uma bonita letra. O disco até termina bem, com as duas últimas faixas conseguindo restaurar o estrago causado por algumas canções lamentáveis do registro.

Mas, no fim, o disco acaba sendo marcado pela inconsistência. Como se houvesse a necessidade imensa de lançar um novo álbum, o Pearl Jam e seu velho companheiro, o produtor Brendan O’Brien, recrutaram doze canções soltas e as reuniram em um disco, sem apresentar, porém, nenhum senso de unidade. São faixas desconexas, distantes, que se comportam como um simples amontoado de composições, distanciando-se do assertivo teor conceitual que havia tomado conta dos melhores discos do grupo. Sim, o Pearl Jam está mudado, só que para pior: cada vez mais resume-se aos palcos, sem ter a consciência da importância do trabalho em estúdio. Afinal, são dos discos de estúdio que saem as canções que alimentam os shows.

“Lightning Bolt” é, enfim, um álbum desnecessário, que parece ter sido lançado como desculpa para o Pearl Jam sair em turnê. Talvez fosse até melhor se Eddie Vedder e sua trupe fizessem uma nova leva de shows sem a presença do novo disco, que apenas inserirá no concorrido track list da banda algumas canções de pobre propósito.

NOTA: 5,5

Track List:

01. Getaway (Vedder) [03:26]

02. Mind Your Manners (Vedder/McCready) [02:38]

03. My Father’s Son (Vedder/Ament) [03:07]

04. Sirens (Vedder/McCready) [05:41]

05. Lightning Bolt (Vedder) [04:13]

06. Infallible (Vedder/Ament/Gossard) [05:52]

07. Pendulum (Vedder/Ament/Gossard) [03:44]

08. Swallowed Whole (Vedder) [03:51]

09. Let the Records Play (Vedder/Gossard) [03:46]

10. Sleeping by Myself (Vedder) [03:04]

11. Yellow Moon (Vedder/Ament) [03:52]

12. Future Days (Vedder) [04:22]

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