2009: Sem Nostalgia – Lucas Santtana

Sem Nostalgia

Por: Renan Pereira

Sempre quando se fala de bossa-nova, é comum crescer em nossa mente a imagem de João Gilberto sentado em seu banquinho, em um exercício puro de voz e violão… No mundo das ideias prontas, é como se Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, e toda aquela turma do movimento tropicalista, tivessem fechado as portas para o gênero que formou a MPB, em nome de uma nova abordagem da música tupiniquim. Mas o fato é que, na verdade, isso nunca aconteceu: os próprios Gil e Caetano foram, indubitavelmente, reformadores da bossa-nova, e não demolidores. O que seria do tropicalismo sem os elementos plantados por nomes como Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell e Vinícius de Moraes?

O empoeiramento da imagem do artista sentado no banquinho com seu violão não foi, portanto, culpa dos tropicalistas. Talvez pela grande simplicidade de seu conceito, a bossa-nova mais pura tenha perdido espaço a partir dos anos em que as novas possibilidades de estúdio começaram a ser experimentadas em solo brasileiro. Afinal, com tantas reverberações, multi-tracks e softwares de gravação, qual produtor ansioso por novidade investiria no velho conceito de “banquinho e violão”? A resposta é simples e imediata: Lucas Santtana. Em 2009, o músico não apenas revisitou o universo criado pela bossa-nova, como mostrou que do simples dedilhado podem surgir as mais modernas atmosferas sonoras.

Após flertar com conceitos experimentais e flutuar pela essência do dub, gênero jamaicano que faz forte uso de baixo e bateria em um constante exercício de sobreposição de sons, Lucas Santtana se mostrava pronto para criar algo ainda maior. O músico baiano, que já havia colaborado com grandes nomes da música brasileira e lançado três discos de qualidade indiscutível, acabou obtendo um salto gigantesco em sua carreira a partir do lançamento de “Sem Nostalgia”, um dos discos fundamentais da chamada “nova MPB”. Para isso, Santtana procurou reviver as antigas ideias, mas alcançando, a todo instante, as mais futurísticas concepções.

Para tentar entender melhor o que Lucas Santtana fez, tente pensar como seriam aqueles antigos e inocentes joguinhos do Atari sendo relançados em um console moderno, como o PlayStation 4. Inimaginável? Pois é… A comparação pode até ser um pouco boba, mas consegue representar os êxitos de “Sem Nostalgia”: transformar velharias em uma constante novidade. O músico utilizou-se apenas do violão como instrumento musical, mas a partir da presença de um numeroso e competente conjunto de produtores, brincou com variadas concepções de modernos e assertivos efeitos sonoros. A primeira faixa, “Super Violão Mashup”, apresenta recortes de antigas canções de grandes nomes da MPB revitalizados a partir de um verdadeiro turbilhão sonoro… E, acredite se quiser, tudo no álbum é, no fundo, apenas voz e violão. Todos os efeitos têm origem somente no dedilhado de Santtana.

Dedilhado este que se mostra absolutamente impecável em “Who Can Say Which Way”, produzida por Chico Neves e gravada em parceria com a banda carioca Do Amor, e que transforma, não por acaso, a solidão em coletividade; se um dos preceitos da nova MPB é usar e abusar das colaborações, Santtana parece ter entendido que, na música, aquele batido conceito que diz que “a união faz a força” tem grande validade. Números mais pueris também se fazem presentes, como mostra muito bem a terceira faixa, “Night Time in the Backyard”, que utiliza a trinca formada por voz, violão e efeitos para construir um número singelo, que parece alcançar a crueza sonora de Momo e os arranjos vocais de Caetano Veloso. Curumin também aparece entre os colaboradores que auxiliaram Lucas Santtana para a criação do disco, e a quarta faixa, a deliciosa “Cira, Regina e Nana”, traz o músico paulistano nos arranjos de percussão.

Poucas vezes a utilização do violão na MPB mostrou-se tão inventiva quanto em “Sem Nostalgia”, percorrendo em um caminho inédito e distante de qualquer ideia mastigada todas as atmosferas possibilitadas pelo tão utilizado instrumento. É até mesmo difícil rotular o trabalho como “acústico”, pois através do dedilhado criam-se nuances totalmente afastadas de qualquer concepção simplista; observe como os sons são delineados em “Recado para Pio Lobato”, e perceba quão monumental é a “revitalização” proposta por Lucas Santtana… Um jogo imparável de atraentes texturas modernas, capaz de fazer alguns momentos de menor invenção, como “Hold Me In”, soarem como uma novidade absoluta para o ouvinte. De fato, onde não há a riqueza de efeitos trabalhada pela produção, existem pequenos números de inquietação lírica e sentimental, como é o caso da sexta faixa.

Há mais uma aproximação forte a Caetano Veloso em “Amor em Jacumã”, canção que flerta com maestria com o samba, e traz novamente Curumin como colaborador. Na oitava, “I Can’t Live Far From My Music”, é notável o trabalho do produtor Kabo Duca, transformando de forma incrível o violão de 12 cordas tocado por Régis Damasceno (do Cidadão Instigado) em um instrumento de percussão. “Sem Nostalgia” realmente não cansa de nos surpreender, e a partir de sua oitava faixa continua a agregar arranjos cada vez mais ricos (e de uma singela complexidade) ao seu conceito. Conceito este que é, aliás, mantido do início ao fim, transformando o conjunto de canções em uma unidade forte e rica, em que todas as faixas, de alguma forma, se entrelaçam entre si.

São magníficos os arranjos vocais e instrumentais de “Cá pra Nós”, construindo um número de forte apelo sentimental, capaz de jorrar sensibilidade a todo momento. Na décima, “O Violão de Mario Bros”, Lucas Santtana arquiteta, com a ajuda do produtor João Brasil, mais uma colagem de clássicos da MPB, convertendo-os em uma salada musical temperada com os mais modernos condimentos. Já “Ripple of the Water” abandona os estúdios modernos para saborear a mais pura natureza: a faixa foi gravada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contando com a real participação de várias espécies de pássaros. O meio ambiente parece ser realmente o elemento que brinda a finalização do disco, visto a orquestração selvagem de “Naureza nº1 e Mi Maior”, última faixa do registro.

Em “Sem Nostalgia”, Lucas Santtana não apenas tirou a poeira da imagem que simbolizava a bossa-nova… O baiano desceu do banquinho, o desmontou e utilizou as madeiras como apoio para percorrer novos terrenos. Um mundo moderno, repleto de novas possibilidades, capaz de retirar do violão todos os efeitos possíveis e desejáveis. Uma viagem atraente, que descobre o novo a todo momento, para então terminar com calmaria, na companhia da natureza, talvez querendo mostrar que não há nada tão natural quanto a evolução. E, de fato, “Sem Nostalgia” foi a evolução que faltava para que a bossa-nova alcançasse, de uma vez por todas, os elementos naturais da modernidade.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Super Violão Mashup (Lucas Santtana/Lucas Martins/Gustavo Lenza) [02:42]

02. Who Can Say Which Way (Lucas Santtana) [02:41]

03. Night Time in the Backyard (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [03:17]

04. Cira, Regina e Nana (Lucas Santtana) [04:22]

05. Recado para Pio Lobato (Lucas Santtana/Régis Damasceno) [03:16]

06. Hold Me In (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [05:02]

07. Amor em Jacumã (Dom Romão/Luiz Ramalho) [03:34]

08. I Can’t Live Far From My Music (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [03:39]

09. Cá pra Nós (Lucas Santtana/Ronei Jorge) [02:35]

10. O Violão de Mario Bros (Lucas Santtana/João Brasil) [01:38]

11. Ripple of the Water (Lucas Santtana) [03:54]

12. Natureza nº1 em Mi Maior (Lucas Santtana) [02:26]

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