2013: O Mais Feliz da Vida – A Banda Mais Bonita da Cidade

O Mais Feliz da Vida

Por: Renan Pereira

Se A Banda Mais Bonita da Cidade não havia conseguido, em seu primeiro disco, suprir as expectativas do público que havia louvado o famoso vídeo de “Oração”, elevando o grupo a um verdadeiro fenômeno musical, agora, em “O Mais Feliz da Vida”, o resultado parece ser outro. Mais segura em estabelecer-se em um caminho, sem precisar mais atirar para todos os lados, a banda enclausura-se dentro de um cenário calculado, medindo os temas e conceitos a fim de não cair no mesmo pop incerto do primeiro exemplar de sua discografia.

Emprestando o teor “conceitual” de famosas bandas do passado, como King Crimson, The Who e Pink Floyd, os paranaenses alcançam um marcante crescimento instrumental e, principalmente, lírico. Profundas, mas sem abandonar a já atestada sensibilidade, as letras presentes no álbum são capazes de nos deliciar com o seu modo singelo e austero de discutir temas complexos, como a tristeza, a solidão e a velhice. Assunto já demonstrado na capa do disco, a passagem dos anos para A Banda Mais Bonita da Cidade torna-se um ponto aberto de onde podem ser retiradas as mais profundas (ou simples) questões sobre a vida.

Bebendo do Arcade Fire de “Funeral”, influência confessa de Rodrigo Lemos, a banda alcança um resultado gratificante sem esconder suas referências. Pélico empresta aos paranaenses a faixa-título de seu último trabalho, bem como Rômulo Fróes participa da regravação de “Olhos da Cara”, composição de Nuno Ramos que já havia aparecido no disco “Um Labirinto em Cada Pé”. Além disso, o veterano Chico Neves aparece na produção da faixa-título: os toques do produtor mostram-se rápidos, porém essenciais… A canção acaba delineando a continuação do álbum, produzida por Vinícius Nisi.

A primeira faixa acaba deixando claro que o toque épico de “Oração” volta a estar presente, só que agora em texturas cuidadosamente tratadas, distantes do rumo lo-fi das primeiras gravações da Banda Mais Bonita da Cidade. O crescimento torna-se óbvio quando percebemos o vocal de Uyara Torrente alocado em um novo universo, que tenta alcançar a grandiosidade sem abandonar a concepção singela das antigas composições: apesar dos toques conceituais, o álbum não se desgarra dos versos sensíveis e de fácil acesso. No instrumental, o mesmo jogo grandioso do Arcade Fire é remodelado para a realidade da banda paranaense, em uma adaptação mais madura dos ideais sonoros dos nova-iorquinos do Fun. Não há como não destacar as marcantes linhas de bateria de Luís Bourscheidt, alcançando o estilo de Chris Tomsom, do Vampire Weekend, enquanto Rodrigo Lemos, cada vez mais próximo do rock progressivo, constrói com sua guitarra cenários aconchegantes, bordando texturas a fim de alocar os versos e as vozes em uma estrutura capaz de rapidamente agradar.

A suposta fuga do piegas em “Potinhos” só vem a atestar a incrível acertabilidade da banda ao investir em temas sensíveis: a segunda faixa pode até falar que o coração está fora de moda, mas acaba sendo construída, de forma irônica, para tocar a alma do ouvinte. A regravação de “Que Isso Fique Entre Nós”, apesar de soar, em um primeiro momento, como um mero reaproveitamento de ideias, acaba inserindo-se perfeitamente ao conceito de “O Mais Feliz da Vida”: A Banda Mais Bonita da Cidade torna a canção de Pélico um número genuinamente seu, rumando-o nos mesmos rumos pop/épicos das demais faixas. Caso da brilhante “Saindo de Casa”, a música mais dinâmica do disco, que mescla momentos de força instrumental com outros de pura sensibilidade (amplificados pela presença de um xilofone).

É deliciosa a ingenuidade romântica da quinta faixa, “Deixa Eu Dormir na Sua Casa”, que abraça os mais coloridos sentimentos do Summer of Love de 1967 para a construção de mais uma faixa de rápida e extrema agradabilidade: dos versos simples, passando pelo belo jogo de harmonias vocais e chegando nas memoráveis melodias, tudo parece minuciosamente pensado para encantar o ouvinte. Com Rodrigo Lemos no vocal principal, “A Balada da Contramão” aposta em um acabamento instrumental etéreo, que brinca com os mais atuais elementos da música alternativa, mas sem abandonar o caráter pop no qual o registro se encaminha. A Banda Mais Bonita da Cidade faz o certo ao almejar a aceitação do público mesmo evoluindo os rumos de sua música; se em seus trabalhos mais recentes, bandas como a Móveis Coloniais de Acaju e o Vanguart investiram na banalização de seu som para alcançar o público de massa, enquanto outros nomes, como Cícero, ignoraram o público em nome de uma “evolução conceitual”, o coletivo paranaense conseguiu alcançar estes dois resultados em um assertivo trabalho, agradável a todos.

Alocada em uma atmosfera melancólica, até então inédita para A Banda Mais Bonita da Cidade, “Uma Atriz” engrena-se às grandiosidades do clássico “The Wall”, do Pink Floyd, com Rodrigo Lemos inclusive relembrando o timbre característico da guitarra de David Glimour; também é de se destacar o trabalho de Vinícius Nisi ao incrementar o instrumental através da aclimatação soturna dos acordes de órgão e piano, fazendo-nos recordar, vagamente, do modo com que Thiago Pethit tocou no disco “Berlim, Texas”. Clima soturno, aliás, é o que não falta à oitava faixa, a dolorida “Um Cão Sem Asas”, que leva poesia a uma das questões mais difíceis da vida: a morte aguardada por quem já está em idade avançada. “Olhos da Cara” é outra regravação que insere-se de forma certeira em “O Mais Feliz da Vida”, preenchendo o conceito e escancarando a construção progressiva do álbum; à medida em que as faixas se sucedem, as temáticas tornam-se cada vez mais complexas.

A décima, “Maré Alta”, parece emprestar os teclados do Procol Harum para arquitetar mais uma atmosfera enevoada, em que a letra trata da tristeza de maneira apocalíptica: o choro se transformará em uma enxurrada que tudo inundará. A climatização subaquática do final da faixa, que parece ter sido retirada de algum álbum de Panda Bear, parece mostrar o quanto a banda cresceu em ambição: se, quando surgiu, propunha apenas musicar as ideias dos músicos da cena alternativa curitibana, agora A Banda Mais Bonita da Cidade quer se tornar um dos maiores nomes da música brasileira. A última, “Reza Para Um Querubim”, encerra o disco com um turbilhão de emoções ao abordar a pós-morte com uma magnífica sensibilidade. No fim, o céu é o que queremos, acima de tudo.

Finalmente, A Banda Mais Bonita da Cidade conseguiu extrapolar todas as expectativas. Fazendo justiça ao título de “salvadores da música brasileira”, os curitibanos entregaram ao público um número de grandes pretensões, e que, sem dúvida, alcança o resultado planejado. Ao discutir a passagem do tempo com toda a sutileza possível, eles conseguiram construir não apenas a sua afirmação no cenário nacional, mas um dos trabalhos mais inteligentes e tocantes dos últimos tempos. Se é arte o que A Banda Mais Bonita da Cidade se propõe a fazer, “O Mais Feliz da Vida” parece ser o trabalho que melhor demonstra os seus ideais… Afinal, é um registro essencialmente artístico, do início ao fim.

NOTA: 8,6

Track List:

01. O Mais Feliz da Vida (Rodrigo Lemos) [04:18]

02. Potinhos (Luiz Felipe Leprevost/Thayana Barbosa) [04:05]

03. Que Isso Fique Entre Nós (Pélico) [03:27]

04. Saindo de Casa (Alexandre França) [03:42]

05. Deixa Eu Dormir Na Sua Casa (Luiz Felipe Leprevost/Troy Rossilho/Alexandre França) [04:29]

06. A Balada da Contramão (Rodrigo Lemos) [04:16]

07. Uma Atriz (Vitor Paiva) [05:25]

08. Um Cão Sem Asas (Vitor Paiva/Uyara Torrente) [01:57]

09. Olhos da Cara (Nuno Ramos) [04:00]

10. Maré Alta (Tibério Azul/Castor Ruiz/Rodrigo Lemos) [04:38]

11. Reza Para Um Querubim (Luiz Felipe Leprevost/Troy Rossilho/Thiago Menegassi) [05:18]

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