1984: The Smiths – The Smiths

The Smiths

Por: Renan Pereira

Em abril de 1983, o R.E.M. lançava seu primeiro álbum, “Murmur”, e mudava para sempre os rumos do rock alternativo. Os riffs arpejantes de Peter Buck, o baixo melódico de Mike Mills e os lirismos obscuros de Michael Stipe conquistaram os olhares da crítica e do público, fazendo com que o underground conseguisse atingir, enfim, o sucesso massivo. Os êxitos do quarteto norte-americano, não por acaso, acabaram impulsionando um crescimento exponencial da aceitação da música alternativa, criando um verdadeiro boom: por todo o mundo, garotos nascidos nas raízes do punk passaram a beber das influências do chamado “jangle pop”.

No Reino Unido, os “murmúrios” do rock alternativo norte-americano também chegavam com tudo; não à toa, os olhares da gravadoras passavam, cada vez mais, a bandas que distanciavam-se das ideias tradicionais do rock clássico. O tempo era de mudanças, e a maior marca desta nova era em terras britânicas atendia pelo nome de The Smiths. Formada pelo vocalista Morrisey, pelo guitarrista Johnny Marr, pelo baixista Andy Rourke e pelo baterista Mike Joyce, o grupo viria a encantar o mundo através de sua inteligente base musical. Afinal, poucas bandas, na história, conseguiram casar de forma tão magistral os cenários sonoros com os temas líricos: em um completo entrosamento, Morrisey e Marr dividiam em cinquenta porcento para cada um a responsabilidade composicional, formando uma das mais famosas duplas de compositores de todos os tempos.

Considerada como “uma resposta britânica” ao sucesso do R.E.M. e demais bandas da música alternativa estadunidense, o The Smiths não se envergonhou de tirar de “Murmur” os principais conceitos musicais que seriam apresentados em seu primeiro disco. As guitarras arpejantes, o baixo melódico e o vocal “distante”, afinal, estão lá. Bebendo de influências do outro lado do Atlântico, o quarteto inglês se tornou, enfim, um dos principais representantes do jangle pop. Sim, o grupo estava carregado de elementos pré-definidos, mas nem por isso deixou de apresentar, constantemente, uma intensa novidade… Se o R.E.M. bordava texturas, o The Smiths as apagava. Mais recolhida a aspectos melodramáticos, a banda inglesa se tornou a melhor companheira de uma geração inteira de corações partidos.

É delicioso ver como Morrisey conseguia fazer piada de suas “próprias desgraças”. Investindo em uma ironia genuinamente inglesa, e deixando o bom humor fazer parte de versos doloridos, o compositor nunca se cansou de oferecer aos ouvintes incríveis tiradas; acabou sendo alocado entre os melhores letristas de todos os tempos, e não é muito difícil entender o porquê. “Eu sonhei com você na noite passada e caí da cama duas vezes”, canta com sua voz inconfundível o vocalista em “Reel Around the Fountain”, uma formidável música para a apresentação dos rumos sonoros da banda. Não, não nos esquecemos de Johnny Marr: pelo menos até o início de sua carreira solo, o que seria de Morrisey e suas letras sem as incríveis melodias criadas pelo guitarrista? A certeira primeira faixa do primeiro álbum, que abre-alas para uma das mais ricas e inventivas discografias da história do rock, já é uma boa mostra de que Morrisey e Marr, pelo menos naquele momento, não conseguiriam criar algo tão grande sem uma interdependência.

Talvez ainda mais representativa, a segunda faixa, “You’ve Got Everything Now”, ruma por aspectos melodramáticos perfeitamente mapeados pela guitarra de Johnny Marr, que sempre procurou assumir o ponto central dos instrumentais do The Smiths; enquanto isso, Morrisey brada que “eu nunca tive um emprego porque nunca quis algum”, para depois esclarecer-nos ao cantar, com um incrível sentimento, que a principal razão dessa suposta “vadiagem” é, na verdade, a sua profunda timidez. O The Smiths nasceu do punk rock, e as heranças setentistas ficam claras em “Miserable Lie”: seria esta a canção mais estranha (ou de maior energia) de todo o catálogo da banda? Curiosa, a terceira faixa acaba mostrando, enfim, um The Smiths que nunca mais voltaria a aparecer.

“Pretty Girls Make Graves” trata da infidelidade feminina, e, mais uma vez, a emoção imposta pelo vocal de Morrisey acaba alocando perfeitamente o ouvinte no cenário e nas emoções vividas pelos personagens; o instrumental, menos maleável, acaba acompanhando todo o azedume da letra, apenas rumando a níveis de mais fácil audição quando, no fim da faixa, os riffs de Marr rumam solitários. Uma das canções mais obscuras do disco (e olha que, quando se trata de jangle pop, obscuridade é sempre o que não falta), a quinta faixa, “The Hand That Rocks the Cradle”, mostra Morrisey tomando conta de uma criança de três anos… Se partilhasse dos mesmos pensamentos do compositor, a pobre criancinha teria tudo para se tornar uma pessoa amargurada.

“The Smiths”, o álbum, é um registro que mesmo refletindo tristezas torna-se agradável de se ouvir. Não é um trabalho para ser conferido apenas quando se está em uma fossa, ou desejando entrar em alguma – sério, alguém deseja isso? Ironicamente, é um disco que acalma, que reconforta, em que partilhamos o vocal de Morrisey a viajar melodicamente pelos serenos instrumentais. Sabe aquele dia de temperatura amena, em que uma fina chuva cai lá fora? Pode crer que esse é o momento perfeito para curtir a estreia dos Smiths, olhando a garoa cair enquanto sente-se o cheiro da grama molhada.

Fora do track list original, mas presente em todos os relançamentos do disco, “This Charming Man” explode em um incrível riff de Marr, com Morrisey a bradar mais um de seus audaciosos lirismos; um single de sucesso, a canção é interessante não apenas pelo seu fantástico andamento, mas também por mostrar, de forma perfeita, o que era o The Smiths em seus primeiros dias… Ouvir um disco de estreia é sempre uma ótima recomendação para quem procura números mais crus, energéticos, e com o primeiro álbum dos Smiths não poderia ser diferente. A sexta faixa (ou a sétima, nos relançamentos) é a igualmente ótima “Still Ill”, considerada pelos fãs como uma das melhores canções do grupo; é notável a linha vocal que abre a canção, mostrando toda a amargura de Morrisey em seu estado máximo: “eu declaro hoje que a vida é simplesmente tomar, e não doar. A Inglaterra é minha e me deve o sustento”, canta o vocalista. A seguinte, “Hand in Glove”, é conhecida por ter iniciado tudo: foi o primeiro single da banda e, consequentemente, a música que primeiro apresentou os Smiths ao grande público; além disso, se trata de um dos importantes momentos do álbum em que a sexualidade é salientada. A banda inclusive foi acusada de incitar a pedofilia, embora sempre tenha negado veementemente tal acusação.

“What Difference Does It Make?” não é uma das preferidas de Morrisey, mas é, sem dúvida, outra ótima canção, novamente embebida em riffs de fácil aceitação e letras não tão acessíveis assim… Talvez por ser o menos acessível dos álbuns dos Smiths, o debut tenha sido (erroneamente) abandonado por uma boa parcela do público. O lado obscuro do disco é amplificado pelas duas últimas canções: a meso-balada “I Don’t Owe You Anything” e a polêmica “Suffer Little Children” tratam de encerrar o disco com toda a audácia que uma obra do The Smiths sempre exigiu. O primeiro disco da banda, afinal, pode até não ser um registro perfeito (muitos criticam a produção, que apesar de passar longe de ser das melhores, consegue até funcionar bem), mas seria insanidade não considerá-lo à altura dos demais lançamentos do grupo. Há, inclusive, quem o aloca atrás apenas do icônico “The Queen Is Dead”.

E essa sonoridade fundamental do registro, que cresceria cada vez mais, construiu claramente o caminho de uma das mais influentes bandas de todos os tempos. Lembrou de Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii enquanto conferia o registro? Pois saiba que não apenas em terras tupiniquins, mais em todo o globo, inúmeros grupos influenciaram-se diretamente na base musical proposta por Morrisey e Johnny Marr. Se a música alternativa cresceu e se tornou sinônimo de qualidade em tempos de tanta superficialidade, é porque o The Smiths, em 20 de fevereiro de 1984, lançou o seu grande trabalho de estreia.

NOTA: 9,0

Track List: (todas as faixas compostas por Morrisey e Johnny Marr)

01. Reel Around the Fountain [05:58]

02. You’ve Got Everything Now [03:59]

03. Miserable Lie [04:29]

04. Pretty Girls Make Graves [03:24]

05. The Hand That Rocks the Cradle [04:38]

06. Still Ill [03:23]

07. Hand in Glove [03:25]

08. What Difference Does It Make? [03:51]

09. I Don’t Owe You Anything [04:05]

10. Suffer Little Children [05:28]

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Uma opinião sobre “1984: The Smiths – The Smiths”

  1. Os álbuns dos Smiths trazem, realmente, uma atmosfera diferenciada. The Queen Is Dead é um das coisas mais bonitas que já tive o prazer de ouvir. A música consegue transmitir de forma assustadoramente fiel os sentimentos dos interpretes (ou pelo menos o que imagino que tenham sentido, hehe).

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