2013: Sábado – Cícero

Sábado

Por: Renan Pereira

Um arquiteto da nova música popular brasileira, Cícero Lins projetou em “Canções de Apartamento” um dos melhores cenários delineados entre o bucolismo e a solidão. Apesar de introspectivos, os alicerces do primeiro álbum em carreira solo do compositor alcançaram não somente os níveis da aceitação crítica, sendo considerado por muitos como o melhor disco brasileiro de 2011, mas os sentimentos do público. As canções de apartamento de Cícero conquistaram as pessoas que as ouviram, e não era inesperado ver a mais nova obra do músico carioca como um dos empreendimentos mais aguardados deste ano.

E “Sábado” está aí, sucedendo a sexta-feira proclamada em “Ponto Cego”, última faixa de “Canções de Apartamento”. Abandonando a solidão entre quatro paredes, Cícero sai pelo Rio de Janeiro para perceber que, em uma cidade com milhões de habitantes, a solidão pode ser ainda maior. Ao tentar fugir de seus problemas, o compositor, novamente transfigurado na matéria-prima de seu trabalho, percorre os cenários bucólicos da capital fluminense em busca de superação, encontrando, porém, apenas esboços de uma completa depressão.

Se as canções de apartamento ainda flertavam com alguma esperança, as composições sabatinas somente se resignam à sua dor. Naturalmente tristonho, “Sábado” chora uma dezena de verdadeiros borrões sonoros, projetos de texturas que encontram nos instrumentais tímidos e letras exageradamente intimistas um verdadeiro muro para o ouvinte. “Sábado” é um álbum egoísta, parecendo ignorar completamente o maior acerto de seu antecessor: transformar os sentimentos de Cícero em um prato cheio para o público.

Enquanto poucos tiveram dificuldade em compreender “Canções de Apartamento”, pouca gente conseguirá entender “Sábado”. Depois de fazer sucesso, alcançar aclamação crítica e firmar-se no cenário nacional, Cícero parece ter utilizado os frutos que colheu para construir um álbum somente para si, esquecendo-se que é do público que vem a maior das louvações. Passeando só, o compositor olha para o lado e não vê nada além de sua dor: ouça “Fuga nº 3 da Rua Nestor”, e perceba o músico utilizando poucas palavras e um instrumental para lá de vazio, que pouco lembram a riqueza de seu tão elogiado trabalho.

Pretensão, porém, é o que não falta em “Sábado”: tentando soar difícil, até mesmo experimental, Cícero tenta alcançar o Caetano Veloso de “Araçá Azul” em “Capim-Limão”, enquanto parece abrasileirar o senso composicional de Kurt Cobain na seguinte, “Ela e a Lata”. Provavelmente inspirado na vertente poética do haicai, o músico não se cansa de utilizar uma quantidade ínfima de versos: não há como negar a alta carga sentimental do disco, mas o que realmente marca é um vazio quase completo de palavras; incluindo os artigos, são apenas vinte e uma palavras na letra de “Fuga nº 4”, por exemplo. O que não se pode deixar de elogiar, entretanto, é a habilidade de Cícero em desenhar paisagens sonoras de forma competente. A maior qualidade de “Sábado” é mostrar como a metrópole pode ser excludente, afastando as pessoas apesar da alta densidade populacional.

“Pra Animar o Bar” agarra-se em um instrumental pra lá de chato e em versos de qualidade discutível, e a sexta, “Por Botafogo”, mostra Cícero passeando pelo famoso bairro carioca com acordes até agradáveis, mas com lirismos que voltam a percorrer o “interior mais íntimo” do compositor sem conseguir transferir as emoções para o ouvinte. Em outra boa execução acústica, “Duas Quadras” volta a escorregar na redundância temática: poucas palavras que querem dizer muito, mas que não conseguem alcançar este resultado. Partindo do Arpoador, Cícero observa de cima as paisagens do Rio em “Asa Delta” – uma canção que não significa absolutamente nada.

Os rumos singelos de “Porta, Retrato” representam o melhor momento do álbum, e mostram que Cícero, apesar de errar em seu novo disco, é um cara que ainda merece respeito; é provável que, daqui alguns anos, tenhamos “Sábado” como apenas um registro curioso e deslocado na discografia do carioca. “Frevo por Acaso” encerra o disco com um novo vazio lírico, mas o crescimento instrumental ocorrido a partir da metade da canção parece mostrar os bons caminhos pelo qual o próximo álbum de Cícero caminhará: será que teremos o retorno da riqueza sonora de “Canções de Apartamento”? Se “Sábado” iniciou-se como uma continuação da última faixa do disco antecessor, podemos esperar que algo parecido aconteça no próximo registro do compositor.

Cícero não conseguiu, infelizmente, passar no famoso “teste do segundo álbum”. Talvez por querer criar algo que ainda não está apto a fazer, rumando sua música em vias conceituais que pouco se conectam ao ouvinte, o músico tenha se perdido em seu próprio desejo de construir algo maior. Contudo, é de se aplaudir a sua atitude em não cair na mesma concepção de seu primeiro álbum, tentando construir algo que insira novidade à sua carreira. O “Sábado” de Cícero pode até não ser assertivo, mas se ele errou, pelo menos errou tentando evoluir, buscando um crescimento sonoro. Que o público continue, portanto, apostando as suas fichas em Cícero.

NOTA: 4,3

Track List: (todas as faixas compostas apenas por Cícero, exceto onde indicado)

01. Fuga nº3 da Rua Nestor [02:45]

02. Capim-Limão [02:56]

03. Ela e a Lata [02:25]

04. Fuga nº4 [03:19]

05. Pra Animar o Bar [02:37]

06. Por Botafogo [04:11]

07. Duas Quadras [02:24]

08. Asa Delta (Cícero/Bruno Schulz) [02:01]

09. Porta, Retrato [02:48]

10. Frevo por Acaso [04:00]

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