1965: My Generation – The Who

My Generation

Por: Renan Pereira

Em 1964, o primeiro empresário do The Who, Peter Meaden, vestiu os integrantes do grupo com roupas típicas do movimento mod, além de renomear a banda para The High Numbers. A ideia inicial pode até não ter dado certo, mas o fato é que, se houve um conjunto musical que representou perfeitamente os rumos da reforma cultural britânica dos anos sessenta, esse foi o The Who. E o que falar de “My Generation”, o primeiro álbum do grupo? Um clássico, marcante como poucos: não somente um álbum competente, mas um registro histórico das mudanças que ocorriam no Reino Unido naqueles anos.

Na primeira metade da década de sessenta, uma geração formada por jovens aficionados pelo modernismo começou a ganhar força, levando ao crescimento da popularidade de vertentes musicais como o jazz, o rock n’ roll e a soul music da Motown. A moda também começou a ter uma importância significativa, bem como a utilização de lambretas como meios de locomoção. Segundo especialistas, a subcultura mod emergiu a partir da rejeição dos antigos valores, considerados tímidos e pouco inspirados. Shari Benstock e Suzanne Ferriss argumentam que “o núcleo da revolução mod britânica era uma fetichização evidente da cultura americana do consumo”, que tinha “corroído a fibra moral da Inglaterra”. Ao fazer isso, o mods “zombaram do sistema que havia emergido dos seus pais” e criaram uma “rebelião baseada em prazeres de consumo”. Paul Jobling e David Crowley chamaram a subcultura de “uma obcecado e hedonista culto à moda”, gerado pelas progressivas melhorias na economia britânica após o término da Segunda Guerra Mundial: os jovens não precisavam mais contribuir para as finanças da família, passando a gastar o que ganhavam em seus empregos de pós-escola na compra de roupas elegantes e demais prazeres proporcionados pelo dinheiro.

Musicalmente, a cultura mod não se ligava, necessariamente, ao massivo sucesso da música beat proporcionado pelos Beatles. Mais agarrado às concepções inspiradas no Rithym and Blues, este movimento acabou se caracterizando como o berço de outros projetos de sucesso, como o The Kinks, o The Yardbirds, o Pink Floyd e os Rolling Stones. Neste mesmo meio estava presente o The Who, procurando personificar a subcultura em um quarteto musical.

Os primeiros singles do The Who, porém, não obtiveram o sucesso esperado, e Meaden acabou sendo demitido. Para o seu lugar, foram recrutados Kit Lambert e Chris Stramp, que encorajaram a banda a ir além dos covers de artistas americanos e criar sua própria base musical. Pete Townshend começaria a compor, e o caminho para a louvação enfim se delineava: após o lançamento de alguns singles poderosos, que finalmente fizeram o The Who se tornar um grupo conhecido, surgiu a oportunidade de gravar o primeiro álbum. Produzido por Shel Talmy, que já havia alcançado sucesso com o The Kinks, o disco “My Generation” viria a impregnar, de forma concisa, o nome do The Who na cultura popular.

As inspirações norte-americanas do registro já tornam-se claras na primeira faixa, a ritmicamente envolvente “Out in the Street”, que cultua, através de seus versos, a subcultura genuinamente urbana e arruaceira da qual o The Who gabava-se por fazer parte. Energética ao extremo, a base musical proposta pelo disco vai de encontro ao que existia de mais agressivo na música popular: a guitarra de Pete Townshend, tomada pelo até então inusual efeito de feedback, dava um peso inédito aos acordes típicos do rock. O modo com que Keith Moon espancava a bateria também impressionava, levando a banda a ser rotulada como “a mais pesada” de sua época. De fato, não são poucos os especialistas que veem no The Who a primeira banda de hard rock de todos os tempos.

Para deixar bem claras as inspirações do quarteto, foram incluídos, a pedido de Roger Daltrey, dois covers de James Brown no disco; o primeiro deles é “I Don’t Mind”, notabilizando um belíssimo solo de guitarra, especialmente melódico, e relacionando-se fortemente aos primeiros dias do The Who, nos quais ele pretendia tocar o que chamava de “Maximum R&B”. “The Good’s Gone” brinca de forma incrível com riffs arpejantes, agarrando-se ao trabalho do The Byrds, que poucos meses atrás havia lançado o clássico álbum “Mr. Tambourine Man”. O The Who não estava disposto a esconder suas influências, mas alcançava concepções inéditas através de uma das bases musicais mais energéticas que já haviam sido ouvidas – talvez apenas comparável ao trabalho do The Sorrows no disco “Take a Heart”.

Mesclando os elementos da música beat com os ideais da cultura mod, o The Who teve a proeza de conceber um registro pop e pesado ao mesmo tempo; assim é a quarta faixa, “La-La-La-Lies”, em que a letra e a linha de bateria de Keith Moon escancaram novidade a todo momento, enquanto a melodia e os arranjos vocais pautam-se em concepções de fácil aceitação. Os arranjos vocais da introdução de “Much Too Much” enganam muito bem, pois ao invés de belas harmonias, o que a banda acaba propondo é mais um número de energia insuperável, inserindo cada vez mais poder e ferocidade nas estruturas típicas da música pop. “My Generation”, a canção, acabou se tornando um verdadeiro hino das mudanças culturais sessentistas, e é, até hoje, conhecida como canção-tema daquela geração que mudou os rumos da música popular.

É importante notar também o espírito revolucionário da faixa-título: a pesada linha de baixo de John Entwistle, o vocal gago de Roger Daltrey e a própria concepção crua na qual a canção é construída não apenas emanavam novos elementos, mas faziam um certo contraponto às propostas cada vez mais elaboradas do rock, como o “Rubber Soul” dos Beatles. Da mesma maneira, mais de uma década depois, a crueza do punk rivalizaria com as megalomanias do rock progressivo, e não é de se surpreender que bandas como Ramones e The Clash tenham tido no primeiro álbum do The Who uma grande influência. Há ainda a ousadia lírica de “The Kids Are Alright”, outro hino mod, que emprestaria seu título para um documentário sobre a banda em 1979.

“Please, Please, Please” é o outro cover de James Brown, enquanto “It’s Not True” mantém o disco no mesmo nível com sua interação entre melodia acessível e instrumental poderoso. “I’m a Man” é um grande clássico de Bo Diddley, regravado por outros inúmeros artistas, e sua presença no disco volta a enfatizar o “lado R&B” do The Who. Mais um riff sensacional permeia o início de “A Legal Metter”, que conta com a primeira aparição de Pete Townshend como vocalista, e a faixa final, a instrumental “The Ox”, parece comprimir em apenas uma única faixa todo o poderio sonoro apresentado pela banda em seu primeiro álbum da carreira. Um caminho altamente consistente, que abriria alas para uma das mais brilhantes discografias do rock.

É verdade que, nos lançamentos posteriores, o The Who refinaria muito mais o seu som: a crueza dos instrumentais daria lugar a números elaborados, bem como os temas líricos cresceriam em sofisticação. “My Generation” não é, obviamente, o melhor álbum do The Who, mas ignorar a sua importância seria arrancar uma página importante da história da música popular. A sonoridade da banda pode até ter crescido a níveis épicos em lançamentos posteriores, mas nunca o The Who voltaria a demonstrar a mesma energia de seu debut, um disco altamente influente.

NOTA: 9,1

Track List: (todas as faixas compostas por Pete Townshend, exceto onde indicado)

01. Out in the Street [02:31]

02. I Don’t Mind (James Brown) [02:36]

03. The Good’s Gone [04:02]

04. La-La-La-Lies [02:17]

05. Much Too Much [02:47]

06. My Generation [03:18]

07. The Kids Are Alright [03:04]

08. Please, Please, Please (Brown/Terry) [02:45]

09. It’s Not True [02:31]

10. I’m a Man (Bo Diddley) [03:21]

11. A Legal Matter [02:48]

12. The Ox (Townshend/Moon/Entwistle/Hopkins) [03:50]

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2 opiniões sobre “1965: My Generation – The Who”

  1. Gosto muito desse álbum, mas em alguns sentidos eu o acho um pouco super cultuado. Acho uma boa estréia, mas não passa nem perto do que eles viriam fazer com a obra prima que é “The Who Sell Out” e transformação da sonoridade da banda que se deu com “Tommy”, “Who Is Next” em diante.

    Acho que dá pra dar um desconto em relação à época em que foi lançado (1965), mas o acho até inocente comparado com álbuns contemporâneos como Rubber Soul e Pet Sounds lançado pouco tempo depois.

    Destacaria mais algumas músicas emblemáticas do que o álbum como um todo.

    Enfim, respeitando absolutamente sua opinião e excelente análise, acho que você foi muito gentil com a nota de “My Generation”, hehe.

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