2013: Right Thoughts, Right Words, Right Action – Franz Ferdinand

Right Thoughts, Right Words, Right Action

Por: Renan Pereira

Não há como negar: mesmo quase uma década depois do lançamento do primeiro disco, o Franz Ferdinand continua a ser uma das bandas mais divertidas do globo. E olha que isso nem significa redundância sonora, falta de evolução… O quarteto escocês, muito pelo contrário, nunca pareceu apto a empacar na zona de conforto: são, agora, quatro álbuns de estúdio, sendo que nenhum se apodera de uma ideia pronta e tenta apenas repeti-la em uma manobra para enganar o ouvinte. A banda continua a mesma, é verdade, mas cresce em maturidade ao mesmo tempo em que torna o seu som cada vez mais simples e acessível. Alex Kapranos e sua trupe, de fato, parecem saber o caminho certo para crescer sem perder sua identidade. Em “Right Thoughts, Right Words, Right Action” eles realmente acertam ao fazer um Franz Ferdinand maduro soar tão vívido quanto dez anos atrás.

Se querer complicar o que não precisa ser complicado é, muitas vezes, o maior erro das bandas ao amadurecer suas ideias, o Franz Ferdinand faz o contrário – e por isso acerta. A banda de hoje não se envergonha da proposta juvenil de seu mais antigo trabalho, bem como parece construir, cada vez mais, uma música voltada para a diversão. Falta seriedade ao quarteto? De jeito nenhum… Quantas bandas de indie rock já flertaram com vertentes naturalmente complexas (como o krautrock e o art rock) mantendo a simplicidade de seu conceito? O Franz Ferdinand de “Right Thoughts, Right Words, Right Action” capta acessórios da fase mais elaborada de David Bowie, relembra o Roxy Music e até brinca com os Beach Boys, mas constrói a base sonora mais “pop” de toda a sua carreira. Por quê? Talvez seguindo a ideia das artes de seus álbuns, inspiradas em artistas russos, a banda sente-se à vontade para seguir a Reversal Soviética: afinal, se você é seguidor do quarteto, a banda ouve você.

E fazendo um som cada vez mais próximo dos desejos de seus fãs, o grupo consegue fabricar mais um trabalho satisfatório. Na primeira faixa, “Right Action”, são perceptíveis os toques dos produtores Joe Goddard e Alexis Taylor (integrantes do Hot Chip), assim como torna-se impossível negar o amadurecimento da banda. Mas, apesar de diferente, o Franz Ferdinand continua a ser, conceitualmente, a mesma banda de dez anos atrás… Os flertes com a vanguarda setentista em “Evil Eye” fazem o quarteto marchar por um caminho de novas ideias, mas sem abandonar o caráter divertido que marca a sua carreira. Da mesma forma, a habilidade de criar hits passa intacta pelas evoluções, vide “Love Illumination” e sua capacidade de nos fazê-la cantar mesmo na primeira vez que a ouvimos.

As brincadeiras da banda com a década de setenta são tamanhas que há muito de disco music em vários momentos espalhados pelo registro; “Stand on the Horizon”, por exemplo, pode até contar com teclados de Brian Eno e melodias de Brian Wilson, mas parece ter sido pensada para as pistas de dança. A destreza em casar alta qualidade com fácil aceitação é a grande marca da melódica “Fresh Strawberries”, que empresta ideias dos Beatles porém sem redundância, enquanto “Bullet” liga-se ao som pulsante do primeiro disco do conjunto e, consequentemente, aos elementos do punk.

O principal riff de guitarra e a execução de teclados que adornam toda a canção marcam “Treason! Animals.”, mas é impossível não notar os arranjos vocais do desfecho faixa, trazendo para 2013 as harmonias praticadas pelos Beach Boys em “Sunflower”. É fácil encaixar o rock psicodélico dos anos sessenta na oitava faixa, “The Universe Expanded”, mas há diferenças no conceito: se grupos como Beatles e Beach Boys foram acusados de “acabar” com a face dançante do rock, o Franz Ferdinand utiliza os soturnos elementos do psicodelismo pensando no entretenimento. E com naturalidade, “Right Thoughts, Right Words, Right Action” vai se consagrando como um daqueles trabalhos capazes de fazer barba, cabelo e bigode: satisfaz os fãs, gera novos seguidores e recebe aplausos da crítica.

Os sons “alienígenas” do início de “Brief Encounters” até parecem anunciar mais uma viagem excitante pelas inspirações da banda, mas o que podemos concluir, no fim, é que a nona (e penúltima) faixa é a canção mais desencontrada do disco: brinca com o reggae e o new wave, mas não consegue soar atraente ao estacionar em banalidades. Mas as inconstâncias do álbum parar por aí, e em sua última música, “Goodbye Lovers & Friends”, “Right Thoughts, Right Words, Right Action” tem um desfecho praticamente perfeito, encaixando a sonoridade característica da banda em um ambiente repleto de novidade, e despedindo-se com um tom de despedida. Há quem diga que se trata de um sinal da proximidade do fim das atividades da banda, mas depois de tanto se divertir com o quarto álbum do conjunto, o que se espera é que tal ideia esteja inteiramente equivocada.

Até porque o Franz Ferdinand não se cansa de acertar. O título de seu novo álbum, pautado na acertabilidade, só vem a mostrar o que a banda vem realizando desde o seu início; de fato, se são poucos os grupos que contém apenas bons exemplares em sua discografia, o quarteto escocês pode se orgulhar de fazer parte deste grupo. Se o disco da estreia da banda tornou-se um clássico, e “You Could Have It So Much Better” e “Tonight” continuaram a rumar a carreira do grupo por caminhos consistentes, “Right Thoughts, Right Words, Right Action” chega para marcar não apenas a maturidade sonora do conjunto, mas a música de 2013 no geral: o disco poderá até não figurar entre os melhores do ano, mas será, indubitavelmente, um dos trabalhos mais divertidos que você ouvirá nos próximos meses.

Acertando constantemente, o Franz Ferdinand há de continuar no mais alto patamar da música mundial. Mas o que há de mais agradável na evolução da banda é a percepção de que, ao contrário de grande parte de seus grupos contemporâneos, ela não perdeu a sua identidade. Ela cresceu, mas cresceu sendo o Franz Ferdinand de sempre, sem negar seu passado e sem deixar de divertir os seus ouvintes. Era o resultado que todos esperavam, e que a banda tratou de entregar com correção em sua mais nova obra de estúdio.

NOTA: 8,0

Track List:

01. Right Action (Kapranos/McCarthy/Hardy) [03:01]

02. Evil Eye (Kapranos/McCarthy) [02:47]

03. Love Illumination (Kapranos/McCarthy) [03:44]

04. Stand on the Horizon (Kapranos/McCarthy) [04:23]

05. Fresh Strawberries (Kapranos/McCarthy) [03:21]

06. Bullet (Kapranos/McCarthy/Ragnew) [02:43]

07. Treason! Animals. (Kapranos/McCarthy) [04:07]

08. The Universe Expanded (Kapranos/McCarthy/Hardy) [04:34]

09. Brief Encounters (Kapranos/McCarthy) [03:09]

10. Goodbye Lovers & Friends (Kapranos/McCarthy) [03:15]

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