1973: Betty Davis – Betty Davis

Betty Davis

Por: Renan Pereira

Poucas cantoras foram tão injustamente esquecidas quanto Betty Davis. Detentora de uma carreira musical curta, mas de marcante qualidade, a ex-esposa de Miles Davis não viu seus discos engrenarem por estar ironicamente à frente de seu tempo. Seu trabalho tinha muito de rock clássico para fazer sucesso entre os negros, e muito de funk para fazer sucesso entre os brancos… Uma mistura inusual para a época, ainda mais se considerarmos o forte apelo sensual proposto pela artista. O mundo da primeira metade dos anos setenta não estava pronto para tamanha ousadia.

Talvez se Betty Davis tivesse nascido dez anos depois, hoje em dia seu nome seria louvado. Afinal de contas, se ela houvesse lançado seus álbuns uma década mais tarde, estaria nadando totalmente à favor da maré: em um cenário formado por Madonna, Cyndi Lauper e Prince, totalmente receptivo a apostas sensuais, as concepções de Betty Davis seriam um prato cheio. De fato, os esquecidos trabalhos da cantora formam uma abordagem inicial da música pop que seria sucesso absoluto alguns anos depois.

Mas temos que levar em consideração que, em 1973, até mesmo o conceito de “música pop” era incerto – de certa forma, até dá para entender porque Betty Davis acabou sendo ignorada, muito embora com grande injustiça. Afinal, poucos artistas conseguiram mesclar vertentes com tanta competência a fim de construir algo novo: seus trabalhos não eram de rock, de funk ou de soul, mas sim de uma mistura bem concebida de todos esses gêneros.

A vida de Betty Davis (então Betty Mabry) começou a se entrelaçar com a música ainda na infância, quando ela passava os dias na casa da avó ouvindo a canções de artistas como B.B. King, Jimmy Reed e Elmore James. Mas o passo decisivo para ela se tornar uma artista ocorreu quando, com dezesseis anos, ela deixou sua cidade natal para se tornar modelo em Nova York: lá, além de estampar fotos de revistas famosas, acabou nutrindo amizade com artistas do calibre de Jimi Hendrix e Sly Stone.

Até que, em 1967, ela encontrou-se com Miles Davis e, um ano depois, já estavam casados. A vida conjugal acabou afetando positivamente a carreira do trompetista, que citou Betty como a grande responsável pelas suas experiências com o rock psicodélico de Hendrix e o funk de Sly Stone. O amor estava no ar, e no álbum “Filles de Kilimanjaro”, de 1968, Betty estampou a capa e teve uma canção feita em sua homenagem no trabalho do maridão.

Porém, a proximidade de Betty com Hendrix acabou fazendo com que Miles Davis suspeitasse de traição, embora Betty negasse tal envolvimento. Separaram-se, e após o divórcio, Betty acabou mudou-se para Londres. Pouco tempo depois, de volta aos Estados Unidos, ela decidiu investir em sua carreira musical: em 1973 seria lançado seu primeiro disco, auto-intitulado, contando com a produção de Greg Errico, baterista da Sly and the Family Stone.

Casando com competência o ritmo da música negra com as pesadas guitarras do rock, o disco caminha consistentemente por oito faixas em que, apesar dos instrumentais excitantes, a voz rasgada de Betty mostra ser o principal motor. “If I’m In Luck I Might Get Picked Up”, a primeira faixa, já vai levando o ouvinte ao universo da cantora, com uma aula de arranjos tanto vocais quanto instrumentais; não há como não se encantar com os grooves, os riffs e o vocal poderoso propostos por sua música, sempre inserida dentro de um cenário altamente sensual. “Walkin’ Up The Road” é ainda mais impregnante, flutuando pelo funk rock com tamanho brilhantismo como se fosse o feliz resultado de uma parceria entre Jimi Hendrix com Sly Stone – permeada, porém, pelo vocal inconfundível de Betty Davis.

Se algumas canções de amor, com instrumentais doces e letras sensíveis, poderiam fazer de seu primeiro álbum um sucesso, Betty Davis simplesmente ignorou esta estratégia; certamente, era algo que iria contra a sua forte personalidade. Atestando tal ideia, “Anti Love Song” surge raivosa, agressiva, com seus versos dando verdadeiros chutes nas partes íntimas de um traidor. Afinal, é também impressionante a qualidade de Betty Davis como compositora: ela assinou, sozinha, todas as ótimas faixas de seu primeiro disco. Dançante ao extremo, “Your Man My Man” encerra a primeira parte do álbum da mesma forma que “Ooh Yeah” inicia a segunda: perfazendo uma verdadeira ode ao ritmo.

A mistura mais perceptível de soul, funk e rock no registro está na sexta faixa, “Steppin’ In Her I. Miller Shoes”, que continua a trilhar com brilhantismo os conceitos musicais utilizados por Betty Davis em seu primeiro trabalho. Canção mais longa do disco, “Game Is My Middle Name” promove um balanço delicioso, abraçando-se com força aos conceitos mais tradicionais do funk ao apresentar uma pesada linha de baixo, quentes riffs de guitarra e uma certeira concepção minimista de teclados, construindo um número ritmicamente impecável e repleto de sensualidade. É natural a proximidade com as ideias da Sly and the Family Stone, ainda mais se considerarmos a produção Greg Errico e a maciça influência exercida pela banda no início dos anos setenta.

Se até a sétima faixa você já considerou o disco um registro sensual, saiba que está na última canção a concepção mais provocante de Betty Davis; “In The Meantime” é uma canção seminal, que relembra com louvor os ideais propostos por artistas como Diana Ross e Ottis Redding para fabricar um desfecho melódico, fortemente agarrado à música soul. Como se Betty ainda não estivesse satisfeita, tratou de surpreender mais uma vez, mostrando que o seu vocal também poderia ser de uma doçura invejável.

Uma Madonna negra, ou até mesmo um Prince feminino, Betty Davis era uma artista que estava fora da época em que deveria estar. Cantando abertamente sobre assuntos picantes, a artista não conseguiu receber dos críticos e ouvintes sessentistas o reconhecimento que deveria; ainda que Diana Ross dominasse o cenário feminino da música negra norte-americana, seria muita tolice ignorar a qualidade impregnante da música da ex-mulher de Miles Davis. Enquanto muitos artistas sentiam-se à vontade com o lugar-comum, Betty propôs ir além, rumando por novos caminhos ao flertar com a sensualidade distante dos pudores bobos e desnecessários. Afinal, a música, bem como as outras artes, sempre foi um lugar ideal para a explanação dos mais íntimos anseios do ser-humano.

NOTA: 8,6

Track List:

01. If I’m In Luck I Might Get Picked Up [05:00]

02. Walkin’ Up The Road [02:55]

03. Anti Love Song [04:32]

04. Your Man My Man [03:39]

05. Ooh Yeah [03:09]

06. Steppin’ In Her I. Miller Shoes [03:15]

07. Game Is My Middle Name [05:12]

08. In The Meantime [02:44]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s