2013: Cavalo – Rodrigo Amarante

Cavalo

Por: Renan Pereira

Depois de marcar época no Los Hermanos, flertar com o samba na Orquestra Imperial e excursionar pelo mundo com o Little Joy, Rodrigo Amarante finalmente nos apresenta o seu primeiro e tão aguardado trabalho solo. Resultado natural do que o músico vem desenvolvendo nos últimos anos, “Cavalo” aconchega onze belas composições em um ambiente especialmente intimista, tímido apesar da grande bagagem musical que o constrói. De olhos atentos ao que acontece lá fora e aqui no Brasil, Amarante sente-se à vontade para explorar os novos rumos da música alternativa, mas sem se esquecer das velharias que vem acompanhando a sua carreira há algum tempo: existem, durante o disco, pequenos toques de samba, bossa-nova e até mesmo do quase esquecido indie rock, mas tudo devidamente alocado em um cenário que acrescenta novidade à carreira do compositor.

Produzido por Noah Georgeson (que já trabalhou com Joanna Newsom, Devandra Banhart e com o próprio Amarante no disco do Little Joy), o álbum é guiado por uma estrutura Lo-Fi especialmente atmosférica, bordando texturas e desenhando paisagens através das singelas composições do músico carioca. São onze canções sensíveis, agradáveis, que a todo momento nos remetem à grande capacidade do músico em construir belos ambientes sonoros. Esqueça-se, porém, dos rumos que a música de Amarante tomava na época do Los Hermanos: “Cavalo” não é um disco de rock, sem trazer aqueles números amargos e/ou intrigantes. Uma ruptura já esperada, já anunciada por Marcelo Camelo em seus dois primeiros discos e seguida, de forma natural, por seu antigo companheiro de banda. Pode-se dizer, com isso, que “Cavalo” é o primeiro álbum solo que de Amarante se esperava.

Até porque, se na década passada o músico participou ativamente na construção dos novos rumos da música brasileira, agora ele deseja apenas contemplar os caminhos que ajudou a construir. Antes apegado aos ruídos, aos riffs de guitarra, agora Amarante demonstra estar agarrado em concepções serenas, sutis, amparadas por pequenas seções instrumentais, letras singelas e ambientes suaves. A bonita primeira faixa, “Nada em Vão”, já dá o tom do álbum ao ser construída em uma estrutura introvertida, procurando recriar a bucólica atmosfera de uma manhã litorânea através da colheita dos elementos da bossa-nova.

Se há alguma canção do álbum que pode ser rotulada de “rock”, esta é a segunda, “Hourglass”, que até inicia-se desencontrada, mas que vai aos poucos rumando para um número ritmicamente competente, de natureza sombria, trazendo nas guitarras oitentistas uma grande aproximação a “Comedown Machine”, último disco dos Strokes. Com uma belíssima melodia e versos em francês, “Mon Nom” acrescenta ainda mais sensibilidade ao disco com sua proposta simples, mas capaz de criar um turbilhão emotivo através de seus riquíssimos arranjos, que casam vocal e efeitos sonoros com maestria.

Na quarta faixa, “Irene”, Amarante mostra-se mais próximo do que nunca à bossa-nova: ele parece incorporar João Gilberto nos arranjos tanto instrumentais quanto vocais, em uma estrutura que vai diretamente ao encontro da MPB sessentista. “Maná” é um samba-rock impecável, que se agarra tanto nas antigas concepções de Jorge Ben quanto nas atuais da Orquestra Imperial, fluindo brasilidade a todo instante… Sim, Rodrigo Amarante até utiliza as ideias estrangeiras, mas é um genuíno arquiteto da música tupiniquim.

Rompendo com a proposta descompromissada da faixa anterior, “Fall Asleep” flui através de caminhos soturnos, amplificados pela produção atmosférica de Noah Georgeson; mas mesmo em suas concepções mais melancólicas, “Cavalo” não deixa de ser um álbum sensível, e a aparência “de ninar” da sexta faixa pode até dar provas desta ideia. De acabamento luxuoso, permeada por um pequeno coro de vozes, “The Ribbon” parece nos encaminhar cada vez mais ao íntimo de Amarante através de sua competente colagem de texturas, propondo aos nossos ouvidos uma viagem etérea, próxima até mesmo das produções do dream pop.

Com uma poesia singela e uma instrumentação acústica, “O Cometa” parece dar ainda mais crédito a aquela velha máxima, que diz que na simplicidade é que mora a sofisticação. E Amarante, de fato, soube como trabalhar as ideias simples de seu primeiro disco para criar um resultado grandioso: há quem não simpatize com sua barba, mas torna-se inegável a qualidade de sua obra. Ironicamente, o fim do Los Hermanos mostra-se cada vez mais um acontecimento positivo; que bom que, do fim da mais importante banda brasileira da década passada, tenham surgido duas grandes carreiras solo.

A faixa-título, nona música do disco, é uma colagem de sons que recria, com assertividade, a imagem de um equino trotando suavemente por um campo verdejante, em um dia de primavera; não à toa, é a canção mais atmosférica do registro. Na melancólica “I’m Ready”, Amarante volta a contar com o apoio de um pequeno coral para a construção de mais um cenário simplório e acolhedor, através do belo jogo de acordes e de incríveis lirismos, contando com pequenas interações entre o inglês e a língua pátria. Talvez não seja essa a intenção, mas a última faixa, “Tardei”, parece ser uma auto-confissão pela demora de Amarante em lançar seu primeiro trabalho solo… Mas finalmente ele está aqui, e apesar de datado, acabou saindo melhor que a encomenda.

Talvez o tempo tenha sido, aliás, o fator decisivo para o amadurecimento das concepções que fazem de “Cavalo” uma bela obra. Ciente de seu importante papel no cenário atual, Rodrigo Amarante tratou de traçar com cuidado seus primeiros passos em carreira solitária, arquitetando com visível capricho as ideias que construirão seus rumos sonoros daqui em diante. Conceitualmente distante do Los Hermanos, mas ainda obtendo uma louvação quase fanática de seu trabalho na antiga banda, o músico consegue romper com os velhos ideais sem que nada soe forçado; “Cavalo” é um trabalho de essência natural, perfeitamente compreendido, que manterá os antigos seguidores e ainda poderá agregar novos admiradores ao compositor carioca.

É, de fato, inevitável não continuar louvando os trabalhos dos mais famosos barbudos da música brasileira atual. Se Marcelo Camelo já havia mostrado em seus dois primeiros discos que havia vida após o fim do Los Hermanos, Rodrigo Amarante parece querer ir ainda mais além, mostrando que há agora uma nova vida. Ao construir um álbum tão bonito, não dá para negá-lo os méritos, nem que isso signifique babar nas barbas de alguém.

NOTA: 8,4

Track List:

01. Nada em Vão [03:05]

02. Hourglass [03:32]

03. Mon Nom [04:08]

04. Irene [03:17]

05. Maná [02:39]

06. Fall Asleep [03:19]

07. The Ribbon [04:49]

08. O Cometa [02:52]

09. Cavalo [02:36]

10. I’m Ready [03:49]

11. Tardei [03:33]

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