2013: Muito Mais Que o Amor – Vanguart

Muito Mais Que o Amor

Por: Renan Pereira

Ciente de seu importante papel no cenário nacional, a banda Vanguart entrega, em seu terceiro disco, um resultado minuciosamente pensado para o público. Formado por um singelo conjunto de acessíveis canções, “Muito Mais Que o Amor” deve, indubitavelmente, atrair ainda mais ouvintes para o grupo que, há pouco tempo, chacoalhou o até então marasmático cenário folk tupiniquim. Afinal de contas, os hoje queridinhos da música alternativa Hélio Flanders (voz e violão), Reginaldo Lincoln (baixo), David Dafré (guitarra), Douglas Godoy (bateria), Luiz Lazzaroto (teclado) e Fernanda Kostchak (violino) parecem cada vez mais dispostos a engrandecer as paisagens sonoras amargas que eles vêm desenvolvendo desde 2007.

Mas rumar seu trabalho à aceitabilidade do público é sempre um via perigosa, ainda mais quando se trata de uma banda que sempre foi responsável por acrescentar novidade à música brasileira. Embora “Parte de Mim Vai Embora”, de 2011, já se agarrasse a propostas comerciais, é com o álbum atual que o Vanguart deixa de inovar para simplesmente seguir a maré. Esqueça os sentimentos de vanguarda, a ousadia e a concepção melodramática dos outros discos: “Muito Mais Que o Amor” é um registro agradável, realmente gostoso de se ouvir, mas que nada acrescenta às bases conceituais do grupo mato-grossense.

Se a banda demonstra, mais uma vez, um cuidadoso acerto nos arranjos, bordando camadas sonoras atraentes, há um marcante declive poético; é como se as belas melodias trabalhassem incansavelmente para esconder a falta de criatividade dos versos. Quem já conferiu os trabalhos anteriores da banda perceberá que até as performances vocais muitas vezes exageradas de Hélio Flanders deram lugar a uma concepção comum, distante da figura rebelde outrora representada pelo vocalista. Em suma, “Muito Mais Que o Amor” é cuidadoso ao extremo, procurando medir as palavras e os inventos com a finalidade de conquistar um público que não daria muito crédito aos discos anteriores da banda.

Ao conferir a primeira faixa do álbum, “Estive”, o ouvinte já é capaz de conhecer os caminhos pelos quais o registro é guiado. Rafael Ramos confere correção à produção, ocultando os aspectos caseiros das antigas gravações da banda, e o instrumental é delineado com capricho, oferecendo-nos melodias singelas a partir de uma condensação praticamente perfeita dos sentimentos da música folk: tudo muito incrível, se o disco fosse apenas instrumental. O grande problema de “Muito Mais Que o Amor” aparece quando Flanders começa a cantar – e olha que isso nem se refere à voz do cantor, mais comportada do que nunca. O erro está, na verdade, na forma como as letras são construídas, abandonando qualquer teor poético para investir em versos meramente convencionais, de apelo imediato.

Mas os lirismos banais, felizmente, não transformam o disco em um produto necessariamente descartável; mesmo presa na famigerada “zona de conforto”, a banda ainda se mostra capaz de criar algumas canções cativantes, caso da sensível “Demorou pra Ser”, ponto de descolamento das tradicionais apostas sofridas do Vanguart… Em “Muito Mais Que o Amor” há espaço para otimismos, sim senhor, e a terceira faixa, “Eu Sei Onde Você Está”, mostra que a esperança nunca havia tido um valor tão grande nos cenários solitários propostos pelo grupo.

De acabamento altamente pop, “Meu Sol” faz parte do grupo de canções falhas do álbum, estacionando no habitual das músicas de rádio e não fazendo nenhuma questão de acrescentar alguma coisa. Mas calma, não podemos demonizar a banda… Se pautar seu trabalho a comercialidades não é a mais louvável das atitudes, há de se entender que o Vanguart anseia em confirmar o lugar em que se impregnou; depois de receber destaque no Multishow e de faturar o prêmio de melhor banda no VMB de 2012, você sinceramente esperava um disco que se esquivasse do grande público?

Um dos melhores momentos do álbum está em “A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo”, uma canção perfeitamente produzida que até procura passear pelo psicodelismo dos anos sessenta. Mas, em um disco inconsistente, uma ótima faixa geralmente é sucedida por uma canção não tão boa assim; e é isso que realmente acontece quando a quinta faixa se encerra e a sexta, “Sempre Que Eu Estou Lá”, se inicia… Há quem tentará negar com veemência, mas as faixas de cunho mais acessível de “Muito Mais Que o Amor” apresentam uma grande influência da música sertaneja.

Se existe uma canção realmente péssima no presente trabalho, esta é “O Que Seria de Nós?”, com uma letra constituída por versos de gritante pobreza… Por mais que seja entendido o desejo de confirmação comercial do Vanguart, encher linguiça com tamanha ingenuidade não parece ser o caminho mais assertivo para se alcançar a louvação. Se a oitava faixa, “Pelo Amor do Amor”, se arrasta durante os quase quatro minutos de sua duração, não há o que falar mal de “Pra Onde Eu Devo Ir?”, a canção mais alinhada do disco: afinal, apresenta um andamento primoroso sem se distanciar da comerciabilidade, assim como não tenta esconder a influência da música sertaneja com sua interação de primeira e segunda voz bem tradicional de duplas do country romântico, como Chitãozinho & Xororó e Guilherme & Santiago.

Para finalizar, “Mesmo de Longe” e “Olha pra Mim” apresentam aquele acabamento impecável na forma com que todos os instrumentos interagem, mas versos que voltam a estacionar no lugar-comum. E é por se limitar ao banal que o Vanguart, pelo menos artisticamente, não consegue evoluir neste exato momento. “Muito Mais Que o Amor” até tem seus bons momentos, não é um disco a ser desconsiderado, e é sem sombra de dúvidas muito superior à maioria das produções atuais da música brasileira… Mas isso, obviamente, não basta para manter no mesmo nível a discografia de uma das bandas mais interessantes dos últimos anos.

O Vanguart até tentou realizar algo grandioso, mas o que conseguir entregar, no fim, foi apenas o disco mais inconsistente da sua ainda recente carreira: um álbum bacana, uma audição serena, mas distante da assertividade constante que tomava conta dos registros do grupo.

NOTA: 6,4

Track List:

01. Estive [03:06]

02. Demorou Pra Ser [03:36]

03. Eu Sei Onde Você Está [03:16]

04. Meu Sol [03:20]

05. A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo [03:15]

06. Sempre Que Estou Lá [03:33]

07. O Que Seria de Nós [01:35]

08. Pelo Amor do Amor [03:45]

09. Pra Onde Devo Ir? [03:41]

10. Mesmo de Longe [03:24]

11. Olha pra Mim [02:52]

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