1980: Dirty Mind – Prince

Dirty Mind

Por: Renan Pereira

Se fosse possível citar apenas um disco que bordou os rumos do pop oitentista, este seria “Dirty Mind”. Por mais que “Off the Wall” tivesse criado o mito Michael Jackson, e a música disco já começasse a rumar seus grooves por outros caminhos, foi Prince que, na realidade, divorciou a música pop dos sentimentos setentistas. Algo que o artista de Minneapolis, Minnesota, já vinha ensaiando desde 1978: tanto “For You”, seu debut, quanto seu auto-intitulado segundo álbum, já emanavam algum cheiro de novidade, embora ainda prendendo-se aos anos setenta em função das intenções comerciais. Contudo, mesmo que ainda timidamente, os elementos que fariam de Prince um dos mais completos músicos de sua geração já estavam se delineando.

O fato é que “Dirty Mind”, seu terceiro registro em estúdio, foi a explosão que faltava para Prince se elevar ao supra-sumo da música norte-americana. Uma gravação completa, consistente e ineditista, que se comporta como uma verdadeira ode à dança, impregnando o ritmo na mente de qualquer ouvinte e fazendo até o mais enferrujado dos esqueletos balançar. Misturando de forma excitante várias vertentes, como rock, funk, soul, disco e R&B, o álbum consegue prender naturalmente do início ao fim, através de sua musicalidade surpreendentemente rica… Prince tinha apenas 22 anos quando o disco foi lançado, mas já se mostrava um mestre nas artes de estúdio: sua produção conseguiu criar o cenário perfeito para aconchegar suas melodias, seus grooves e suas letras especialmente corajosas. Vale a pena lembrar que Prince foi um dos primeiros artistas a falar abertamente sobre sexo dentro da música pop.

E sua música é extremamente sensual. “Dirty Mind”, como seu próprio título pode deixar escapar, não é um disco feito para crianças ou vovozinhas: Prince revela seus mais picantes desejos, seduz suas ouvintes femininas e doutrina o público masculino por caminhos nada pudicos. De fato, se hoje existe uma infinidade de artistas pop que usam e abusam da sensualidade para construir tanto sua imagem quanto sua base musical, tenha a certeza de que todos citam (ou pelo menos deveriam citar) Prince como uma grande influência.

O álbum, porém, não consegue soar atual trinta e três anos depois de seu lançamento. O que não chega a ser um demérito, pois não são poucos os clássicos oitentistas – “Thriller” que o diga – que amarelaram devido à poeira. Os sintetizadores soam datados, e qualquer produção barata de hoje em dia conseguiria dar mais fluência e destaque ao som dos instrumentos. Por isso, exige-se do ouvinte um exercício que em um primeiro momento não parece lá muito fácil, mas que, no fim, mostra-se altamente recompensador: transferir-se para o início dos anos oitenta. Em meio a tanta desconfiança, ao pessimismo dos mais puristas (que viam a primeira decadência do rock clássico, em detrimento ao crescimento dos trabalhos comerciais), Prince mostrou que as propostas oitentistas mereciam uma chance… Ele compunha para as massas, almejando sucesso, mas sem abandonar o anseio por evolução.

É impossível não sentir-se contagiado pela sonoridade pulsante da faixa-título, que inicia o disco de forma satisfatória: permeada por uma qualidade rítmica invejável, a canção “Dirty Mind” é praticamente um convite (cheio de terceiras intenções) para cair na dança. E enquanto prende a atenção dos ouvintes com sua proposta sonora energética, Prince vai deixando escapar toques nada tímidos de sua perversão. Ele quer seduzir, e não pretende esconder seus desejos.

Em “When You Were Mine” o músico abraça os elementos da New Wave através de uma concepção deliciosamente melódica; é importante notar que a música seria, três anos depois, regravada por Cyndi Lauper no igualmente clássico álbum “She’s So Unusual”. Se a segunda faixa mostrou quão boas poderiam ser as interferências das “atualidades” na música de Prince, a terceira, “Do It All Night”, é um refino dos ideais da disco music, retirados lá da metade da então década passada. Se o assunto é música pop, o que há de mais assertivo do que os festejos, a celebração da juventude? Prince, um show-man, sabia como poucos a arte de vender o seu peixe… Parecia captar com maestria os anseios do público, trabalhá-los dentro de suas próprias convicções para depois entregar trabalhos certeiros, que vendiam bem e agradavam os sempre desconfiados olhares da crítica.

A quarta, “Gotta Broken Heart Again”, é uma balada agradável, em que Prince novamente se agarra nas “novidades” da interação entre o pop e o rock do movimento New Wave: uma das faixas mais convencionais deste disco que, de convencional, pouca coisa tem. Prince escancara sentimentos utópicos em “Uptown”, imaginando um lugar livre de ódios e racismo; se faltava algo para constatar a qualidade temática de suas letras, eis uma canção de cunho político, defendendo os homossexuais e postando-se totalmente a favor da liberdade de expressão… Hoje em dia, quase um lugar-comum entre os astros da música pop, mas um ato de coragem no mundo ainda machista do começo da década de oitenta.

Falando sobre os instrumentos, algo te impressiona? Certamente sim… Afinal, tudo é executado com maestria, encaixando-se perfeitamente às bases e aos conceitos do disco. E se você ficar sabendo que todo o instrumental é executado apenas por uma pessoa, e que essa pessoa é o próprio Prince? Incrível, não? Pois é… Além de ser um grande letrista, um produtor perfeccionista e um astro pop, Prince Rogers Nelson mostrava uma notável habilidade com os mais variados instrumentos: apesar de ser, hoje em dia, mais reconhecido pelo trabalho na guitarra, o cara sempre conseguiu mandar igualmente bem na bateria, no baixo, nos teclados e em mais meia-dúzia de instrumentos. Praticamente um Paul McCartney do pop norte-americano, e sem superestimar.

Para deixar o disco ainda mais quente, todo o ritmo e a sensualidade natural da música funk são explorados sem nenhuma moderação na controversa “Head”, a mais polêmica e corajosa faixa de “Dirty Mind”: cantando explicitamente sobre sexo oral, Prince acabou, obviamente, dividindo opiniões… O fato é que, independente dos “porquês”, se trata de uma ótima canção, que não faz rodeios para esclarecer a sua proposta. Além disso, é muito provável que “Head” seja a grande precursora das músicas pop com letras explícitas, que exigem dos órgãos reguladores aquele famoso selo “parental advisory”.

“Sister” é um mergulho no rock n’ roll, enquanto a última, “Partyup” é um número realmente pensado para as festas. É, de fato, impressionante como um jovem Prince conseguiu reunir com tanto primor inúmeros gêneros em apenas um álbum, e sem que nada soasse deslocado. Apesar de aventureira, a sonoridade de “Dirty Mind” consegue se manter heterogênea do início ao fim, arquitetando os rumos da música urbana dos primeiros anos da década de oitenta através de concepções minimistas, dançantes e altamente acessíveis.

Se Prince é um dos magos da música pop, eis aqui o seu primeiro grande ato: “Dirty Mind” não somente elevou o artista ao topo, mas construiu uma nova forma de sentir e pensar a música pop. Se, de lá para cá, artistas como Madonna, Cyndi Lauper, Justin Timberlake e Janelle Monáe estabeleceram sua música em um encontro dançante e sensual entre o pop e o rock, é porque Prince, neste disco, arquitetou tal moradia.

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas compostas apenas por Prince, exceto onde indicado)

01. Dirty Mind (Prince/Dr. Frink) [04:14]

02. When You Were Mine [03:47]

03. Do It All Night [03:42]

04. Gotta Broken Heart Again [02:16]

05. Uptown (Prince/Cymone) [05:32]

06. Head [04:44]

07. Sister [01:31]

08. Partyup (Prince/Day) [04:24]

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