2013: Feras Míticas – Garotas Suecas

Feras Míticas

Por: Renan Pereira

É o crescimento a grande marca do segundo disco da banda Garotas Suecas. Redefinindo os caminhos do grupo, “Feras Míticas” chega para se caracterizar como o marco de amadurecimento do coletivo que, nos últimos anos, tem chamado a atenção do público e da crítica por mesclar de forma consistente o rock, o soul e o funk de décadas passadas. Embora a base sonora continue a mesma, há agora um claro desejo de ir além: os aspectos festeiros que envolviam “Escaldante Banda”, o primeiro álbum do coletivo, foram convertidos em criações maduras e mais abrangentes.

Em suma, não há mais nenhuma música que exija um vídeo com a participação do dançarino Jacaré. Apesar de assertivas, canções como “Banho de Bucha”, “Mercado Roque Santeiro” e “Olhos da Cara” apresentavam uma proposta juvenil, quase adolescente, construindo-se através de instrumentais alegres e versos de fácil apelo. “Escaldante Banda” foi uma boa estreia, mas para passar no famoso teste do segundo álbum, a Garotas Suecas deveria evoluir; obviamente, em três anos as concepções festivas deveriam crescer para algo maior.

E é justamente essa evolução a grande proposta da banda em “Feras Míticas”. Passeando por um conjunto dinâmico de canções, o grupo vai claramente aumentando o seu leque de possibilidades, nos entregando aspectos intimistas, existencialistas e até mesmo conceituais. Mesmo que de forma tranquila, a celebração de outrora vai se transformando em seriedade e melancolia.

Apesar dos ritmos quentes e arranjos tropicais ainda estarem presentes, como pode ser observado em “Manchetes da Solidão”, a primeira faixa do disco, o próprio título da canção já parece trazer claras notícias de novidade: a despreocupada vida entre amigos acabou evoluindo para os anseios mais sinceros de um homem só… Instrumentalmente, a canção relembra as guitarras de Pepeu Gomes em “Acabou Chorare”, e até mesmo concepções mais atuais do indie rock. A sonoridade da banda continua evocando elementos do passado, mas agora, mais centrada nos rumos atuais, trazem à tona um constante sabor de novidade.

O crescimento lírico também é evidente, e atinge de forma consistente o coletivo; afinal, ele não acorre apenas com um integrante. Claramente, o sentimento de mudança envolve todos os membros do grupo: as composições, que em nenhum momento se abraçam aos antigos conceitos, são dividas entre Guilherme Saldanha, Tomaz Paoliello e Sérgio Sayeg.

A segunda faixa, “New Country”, mergulha em um instrumental de força inegável, bordando texturas atraentes através do bonito jogo de instrumentos e vozes proposto pela produção de Nick Graham-Smith; de forma até surpreendente, a crueza gritante das antigas canções da banda vão dando lugar a um cuidadoso tratamento dos detalhes. Grooves envolventes e arranjos permeados por metais, que naturalmente se aproximam do trabalho da Móveis Coloniais de Acaju, constroem os caminhos de “Bucolismo”, uma canção de cunho existencialista, sentimentalmente complexa, que escancara um dos melhores conjuntos de versos do disco.

Dos singelos detalhes do disco, um dos mais marcantes está, sem dúvida, no belo vocal de Irina Bertolucci, que nos entrega um primor de sensibilidade em “Pode Acontecer”, quarta faixa do disco, que parece propositalmente produzida para aconchegar a voz da cantora. Já a quinta, “L.A. Disco”, abandona a calmaria para alcançar uma concepção altamente dançante, embora não distante do cuidado com os detalhes… Entre os riffs veranis e os grooves excitantes, sempre há algum outro elemento para completar a sonoridade, elevando as texturas propostas pela Garotas Suecas a níveis cada vez mais atraentes.

“Eu Vou Sorrir pra Quem é Gente Boa” é a canção mais crua do disco, construída sobre um groove pesado, batidas de palmas, um belo coro de vozes e poucos elementos adicionais: uma espécie de ideia amadurecida das mesmas concepções de “Escaldante Banda”. “Nuvem” é uma faixa reflexiva, extremamente sensível, que traz nos arranjos vocais e instrumentais a atmosfera perfeita para a alocação de uma belíssima letra; há ainda a certeira participação da rapper Lurdez da Luz, dando ares de modernidade à canção. Quando “St. Mrk’s Theme”, a oitava faixa, se inicia, parece que seremos levados à mais clássica sonoridade do soul norte-americano; mas acabamos sendo surpreendidos, pois o número trilha-se, na realidade, através de caminhos serenos, flertando de forma curiosa com a música folk.

“Bicho” é o número mais explosivo do álbum, adentrando em seções rítmicas poderosas, mas nem por isso abandonando os lirismos intimistas; é impressionante a evolução alcançada pela banda, que no intervalo de três anos já se mostrou capaz de atingir altos níveis líricos e instrumentais. Sem dúvida, “Feras Míticas” tem tudo para elevar o nome da Garotas Suecas, e levá-la a uma maior quantidade de ouvintes, bem como o grupo se mostra pronto para figurar entre os melhores do Brasil. A décima, “Charles Chacal”, é uma “quase regravação”: composta por Sérgio Brito para enriquecer o catálogo oitentista dos Titãs, porém censurada pela ditadura, a canção encontra na performance da Garotas Suecas e na participação de Paulo Miklos o terreno conveniente para encarar uma revitalização.

Mais longa e filosófica canção do disco, a bossa-novista “Roots Are for Trees” parece condensar todo o ideal plantado pelo disco em apenas uma faixa: afinal, com o pensamento de que a banda não pode criar raízes, não deve permanecer no lugar-comum, “Feras Míticas” é guiado de forma concisa. Para encerrar, a simplória “O Primeiro Dia” constrói-se a partir de um delicioso clima primaveril, jorrando um romantismo inocente através de uma acolhedora concepção de arranjos. Indiscutivelmente, a banda Garotas Suecas cresceu, e através de seu convincente segundo álbum encontra-se madura, pronta para alcançar voos ainda maiores. “Feras Míticas” deveria surpreender, e é assim, felizmente, que ele faz.

NOTA: 8,0

Track List:

01. Manchetes da Solidão (Guilherme Saldanha) [02:43]

02. New Country (Guilherme Saldanha) [04:23]

03. Bucolismo (Tomaz Paoliello) [04:00]

04. Pode Acontecer (Tomaz Paoliello) [04:16]

05. L.A. Disco (Tomaz Paoliello) [03:34]

06. Eu Vou Sorrir pra Quem é Gente Boa (Sérgio Sayeg) [04:49]

07. A Nuvem (Tomaz Paoliello) [04:03]

08. St. Mark’s Theme (Guilherme Saldanha) [03:36]

09. Bicho (Sérgio Sayeg) [03:23]

10. Charles Chacal (Sérgio Brito) [03:22]

11. Roots Are for Trees (Tomaz Paoliello) [07:03]

12. O Primeiro Dia (Tomaz Paoliello) [02:59]

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