2013: De Lá Até Aqui – Móveis Coloniais de Acaju

De Lá Até Aqui

Por: Renan Pereira

A Móveis Coloniais de Acaju surgiu em uma época em que a cena indie no Brasil parecia fadada a constantemente seguir o marasmo: o Los Hermanos até estava encerrando suas atividades, mas todo mundo parecia querer seguir babando nas barbas de Camelo e Amarante. Não que o grupo carioca não apresentasse uma ótima influência, muito pelo contrário, mas o universo musical necessita de variação; embora não gostemos de um ou outro gênero, pense que chato seria um mundo em que todas as pessoas partilhassem os mesmos gostos e os mesmos ideais. Pois bem, os brasilienses da Móveis Coloniais de Acaju chegaram para dinamizar o cenário imutável que se desenhava, lançando, em 2005, o festivo “Idem”, o primeiro álbum do conjunto.

Mas a banda estava na ativa desde 1998, e a bagagem por ela adquirida foi de fundamental importância para o sucesso de seu primeiro disco, calorosamente aceito pela crítica, embora distante do grande público. A banda apenas alcançaria uma relativa popularidade através de uma grande sequência de shows pelo país, espetáculos regados a muita energia e a um aspecto caótico. Sem dúvida, o coletivo apresentava uma perspectiva diferente, uma abordagem festeira e relativamente despreocupada, que não se mostrava inédita na música nacional desde o surgimento dos Raimundos.

O fato é que, aos poucos, a Móveis Coloniais foi cativando o público, atraindo cada vez mais os olhares da crítica, e se preparava para se tornar uma das mais bem-sucedidas bandas de sua geração. Lançado em 2009, o segundo álbum da banda, “C_mpl_te”, evoluiria as concepções sonoras de “Idem” a partir de uma abordagem mais conceitual, vagando por uma maior quantidade de gêneros e abraçando-se fortemente a letras poéticas. A partir deste momento, e mais precisamente da turnê de promoção do disco, o coletivo brasiliense se tornaria uma banda famosa, chegando inclusive a beliscar o mainstream.

Mas a Móveis Coloniais é uma banda de constante modificação, e embora haja um considerável espaço de tempo entre seus lançamentos em estúdio, muito acontece dentro do grupo. Devido ao vigor extremamente coletivo com o qual ele é gerido, são constantes as mudanças de membros e, consequentemente, de ideias, fazendo com que exista uma contínua transformação sonora e conceitual. Algo que já havia ficado claro com as diferenças entre “Idem” e “C_mpl_te”, e que agora mostra-se ainda mais acentuado com o lançamento de “De Lá Até Aqui”, o terceiro registro do coletivo.

Ainda existe o mesmo espírito festivo, a mesma intensidade de metais e o ritmo excitante dos lançamentos anteriores, mas, em conceito, a banda está tão mudada quanto nunca. Agora em uma grande gravadora, a Móveis Colonias parece polir a sua sonoridade para alcançar um resultado de aceitação mais imediata, mais voltada ao público massivo: a serviço da Som Livre, selo pertencente às Organizações Globo, o grupo toma um caminho comercial, muito distante das vias alternativas que permeavam o passado trabalho do conjunto. Haverá, certamente, uma enxurrada de propagandas do disco na programação da Rede Globo, provavelmente transformando a Móveis Coloniais de Acaju em uma banda pop.

Fazer sucesso não é ruim, de jeito nenhum, e até mesmo os flertes com a música pop tem permeado a sonoridade da banda desde a sua fundação; de certa forma, as composições da Móveis Coloniais sempre foram voltadas ao público, arquitetando as incendiárias apresentações ao-vivo, o grande trunfo do coletivo. Sem dúvida haverá mais uma grande turnê, com espetáculos excitantes. A qualidade instrumental também continua evidente. Ou seja, temos em mãos um registro a altura dos anteriores, apesar de mais voltado às massas?

Não, porque a qualidade lírica decaiu muito. Em aspectos sonoros, o disco até é impecável, com a produção Carlos Eduardo Miranda mostrando-se competente a todo momento. Há ótimas interações instrumentais, uma atmosfera que parece agrupar todos os anos de atividade do grupo, mas versos pobres… bem cantados, é verdade, mas de boas vozes desperdiçadas em letras ruins a música mundial já está cheia. E é justamente por prender-se ao óbvio que o disco não engrena, não excita e não consegue construir mais um ponto de evolução na carreira da banda.

Mas, pelo menos, nem todas as faixas são descartáveis. Nem o disco é, pois embora não seja tão bom quanto “Idem” ou “C_mpl_te”, ainda é melhor que a grande maioria das coisas que tem sido feitas na música brasileira. A primeira faixa, por exemplo, constrói uma audição saborosa: “Sede de Chuva” detém uma bonita melodia, e a qualidade lírica, tão mal tratada no disco, aqui mostra-se até cativante. A seguinte, “Vejo em Teu Olhar”, é permeada por arranjos atraentes, pelo talento de Beto Mejía na flauta, mas sua letra é banal, limitando-se às obviedades do romantismo do pop descartável. É engraçado, mas algumas músicas de “De Lá Até Aqui” parecem ter sido compostas por Lulu Santos.

“Sem Fim” aterrissa na música de quarenta anos atrás, e eis aqui mais um aspecto falho do disco: abandonar a evolução sonora para investir em velharias. Talvez a banda queira alcançar o supra-sumo da MPB, e, para isto, tenha que se alocar em algum lugar do passado, próximo do trabalho de outros coletivos de sucesso, como Secos & Molhados e os Novos Baianos. A quarta, “Longe é Um Lugar”, alcança uma sonoridade mais polida dos festejos de “Idem”, enquanto a quinta, “Saionara”, contém uma letra absurdamente ruim, com um jogo de versos cuja qualidade parece ir de encontro aos “grandes” nomes do presente, como Naldo e Anitta, ou até mesmo relembrando pérolas do passado, como o “incrível” trabalho da banda P.O. Box.

É provável que a maioria dos fãs da Móveis Colonias descorde totalmente com este texto, visto a boa aceitação que o álbum vem experimentando dentro do público mais íntimo do coletivo. Alguns setores da crítica também rumaram suas opiniões por caminhos diferentes, elogiando a qualidade melódica e instrumental do registro. Sim, há de se elogiar o que o álbum tem de bom, mas por que se contentar com tão pouco? Cadê aquela concepção poética que havia construído “C_mpl_te”? Vale a pena abandonar os versos inteligentes para vender discos, tocar na Rede Globo e ser adorado pelo público mais maleável, que um dia gosta de Luan Santana e no outro se diz roqueiro por curtir os hits do Jota Quest?

Não, “De Lá Até Aqui” não chega a ser uma tragédia, assim como não consegue centrar o trabalho que o coletivo vem realizando nos últimos tempos em único disco, clara proposta da gravadora. Haverá quem conhecerá a Móveis Colonias apenas pelo presente registro e, ignorando as qualidades dos álbuns anteriores, considerará o grupo uma espécie de novo Skank; a sexta faixa, “Amanhã Acorda Cedo”, apenas dá créditos a esta suposição, pois parece ser alguma composição perdida de Samuel Rosa. “Beijo Seu” poderia até ser uma canção de destaque, se não emprestasse na cara dura as bases de “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, do Clube da Esquina.

“Amor é Tradução” não chega a ser tão copiosa quanto a faixa anterior, mas mostra a Móveis Coloniais querendo se tornar o Legião Urbana dos anos 2000; nem seria necessário dizer que isso é muita pretensão. Seguindo com as obviedades, “Melodrama” parece bordar arranjos de metais em alguma música do Capital Inicial, fazendo com o que o ouvinte até mesmo crie na mente a imagem de Dinho Ouro Preto cantando a canção no lugar de André Gonzáles. A faixa-título soa propositalmente nostálgica, querendo bordar uma atmosfera recordadora dos anos de estrada do grupo, enquanto estaciona nos elementos beatlemaníacos da década de sessenta.

Há pouco acréscimo em “Nova Suinguera”, uma canção que simplesmente parece reviver as concepções oitentistas dos Paralamas do Sucesso, enquanto em “Oi do Mal Irremediável” é apresentada o que se caracteriza, muito provavelmente, como a melhor faixa do disco: uma canção que casa ritmo, melodia e vocal com louvor. A dolorida “Não Chora” e a inteligente “Campo de Batalha” até fazem o disco se encerrar de forma melhor, mas não conseguem esconder a fracassada tentativa da banda em manter sua carreira de estúdio no mais alto nível. Ganhar dinheiro é bom, mas aceitar as ordens da Som Livre não parecia a atitude mais correta neste momento… Se a banda aparecer nos próximos meses em performances televisivas, em programas como Caldeirão do Huck ou TV Xuxa, poderá até ter firmadas suas intenções comerciais… mas esconderá totalmente o sabor de novidade que construiu seu trabalho enquanto não estava subordinada às dicas de uma grande gravadora.

Não é a ótima produção de “De Lá Até Aqui” o fator capaz de encobrir a pobreza de ideias do disco. Um álbum fraco, óbvio, que não diz nada quanto ao amadurecimento da Móveis Coloniais de Acaju. Só se a banda realmente queira desmerecer o seu público através de rimas fáceis e pretensões totalmente comerciais, considerando tal ideia um ponto assertivo. Conhecemos o trabalho passado da banda, do que ela é capaz, e por isso não podemos ocultar os erros de seu trabalho atual.

NOTA: 5,4

Track List:

01. Sede de Chuva [03:36]

02. Vejo em Teu Olhar [04:20]

03. Sem Fim [03:30]

04. Longe é Um Lugar [03:03]

05. Saionara [03:40]

06. Amanhã Acorda Cedo [04:46]

07. Beijo Seu [05:13]

08. Amor é Tradução [04:31]

09. Melodrama [03:37]

10. De Lá Até Aqui [04:02]

11. Nova Suingera [02:53]

12. Oi do Mal Irremediável [04:04]

13. Não Chora [04:53]

14. Campo de Batalha [04:17]

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