1990: Violator – Depeche Mode

Violator

Por: Renan Pereira

Donos de um dos mais bem-sucedidos projetos de synthpop de todos os tempos, os britânicos de Depeche Mode passaram todos os anos oitenta bordando texturas que ajudaram o gênero a se tornar uma das marcas daquela década. Desde o fim dos anos setenta, quando o grupo surgiu, até o fim daquela década de oitenta, haviam sido lançados seis álbuns de estúdio e alguns singles de sucesso, auxiliando a música eletrônica inglesa a se tornar, cada vez mais, um sucesso mundial.

O fato é que, durante sua caminhada oitentista, o Depeche Mode evoluía a cada disco lançado. O obscuro “Black Celebration”, de 1986, havia colocado o grupo no supra-sumo de seu gênero, enquanto “Music for the Masses”, lançado um ano depois, definiria o andamento seguinte do conjunto ao praticar um assertivo refinamento das ideias, relacionando cada momento sonoro com a literal preocupação de agradar o público.

O engraçado é perceber que o ápice do Depeche Mode acabou chegando ao mesmo tempo em que o nível de tensão interna do grupo crescia a passos largos: batalhas de egos e discordância de ideias marcavam a convivência de Andy Fletcher, Martin Gore, Alan Wilder e Dave Gahan. Uma pausa na sucessiva sequência de discos mostrou-se necessária, e a partir do lançamento de “Music of the Masses”, e de sua grandiosa turnê, a banda passaria três anos sem entregar nenhum novo trabalho ao público – o que era, até então, um tempo recorde. Houve quem achou que o projeto estava fadado ao seu fim, que o sucesso que havia sido alcançado não estava sendo bem aproveitado… Suposições que acabariam caindo por água abaixo com o aguardado lançamento de “Violator”, em março de 1990.

Ao contrário do que alguns desinformados andavam pensando, a banda utilizou de maneira exemplar o intervalo de tempo entre os lançamentos de “Music for the Masses” e “Violator”. Ninguém estava disposto a abandonar o conjunto, muito pelo contrário: tal “hiato” ocorreu a partir de uma mudança drástica no pensamento de como os projetos deveriam ser concebidos. Se outrora o coletivo trabalhava de forma incessante, lançando um disco a cada ano, agora o planejamento tomava um rumo totalmente diferente, investindo forte na pré-produção e, consequentemente, na maturação natural das ideias. A ordem era fazer as coisas da maneira certa e no tempo certo, abandonando a ânsia pelo imediatismo para atingir a construção de algo mais abrangente. A intenção do grupo, segundo palavras do próprio Martin Gore, era fazer de seu primeiro álbum noventista um trabalho diferente dos demais.

E o resultado, como pode ser facilmente percebido, mostrou-se absolutamente positivo. Quando o Depeche Mode lançou “Violator”, ficava claro que ali estava presente o melhor trabalho do grupo, que rapidamente arrebatou os olhares da crítica e do público. Envolvido em um cenário soturno, o disco conseguiu fazer de suas canções pessimistas um prato cheio para os ouvintes, encantados com o jogo de sons perfeitamente encaixado pela produção. Não à toa, algumas faixas do álbum se tornariam clássicos eternos da música pop, presos não somente na memória dos ouvintes que viveram aquela época, mas de qualquer um que se interesse pela boa música. Afinal, mesmo que você tenha menos de vinte e cinco anos, é provável que “Enjoy the Silence” e demais números do álbum já tenham feito parte de algum momento da sua vida.

Através das batidas excitantes de “World in My Eyes” é que “Violator” se inicia, pregando boas peças aos ouvintes com a combinação de um ritmo dançante e um sentimento pessimista, perfeitamente escancarado pelo vocal de Dave Gahan; uma inundação de sintetizadores acaba construindo um clima épico, criando a atmosfera certeira para os lirismos tristes da canção atingirem de forma consistente a alma dos ouvintes.

A segunda faixa, “Sweetest Perfection”, é marca da complexidade e do dinamismo alcançados pelo Depeche Mode no ápice criativo de sua carreira. No início, a canção brinca com uma sequência nada usual de batidas, enquanto o vocal de Martin Gore vai estabelecendo as vias sentimentais, deliciosamente melodramáticas. Aos poucos, ares grandiosos vão envolvendo a faixa: uma orquestração majestosa, seguida por uma fantástica sequência de riffs distorcidos e uma explosão pop-rock vão construindo o que é, indubitavelmente, uma das melhores canções já lançadas pelo coletivo.

É uma impressionante qualidade rítmica que dá as caras em “Personal Jesus”, mais uma faixa fundamental deste álbum, que através de seus quase cinco minutos de duração vai construindo uma concepção dançante, construída para as pistas, próxima do público mesmo sem abandonar os experimentos. Apesar de se relacionar a todo momento com o rock e o pop, o Depeche Mode estava a fim de se aventurar por terrenos ineditistas, fazendo seu som alcançar níveis que em outros momentos pareciam ser simplesmente inimagináveis.

A quarta, “Halo”, ancora mais uma assertiva produção, recheada de ruídos e melodias sintetizadas, que de forma curiosa constrói a atmosfera perfeita para o brilho de uma das mais fantásticas letras já compostas para uma música eletrônica; versos inteligentes, mas ao mesmo tempo grudentos, extremamente próximos dos gostos do público de massa. De caráter progressivo, “Wainting for the Night” representa um respiro, e embora se encontre climatizada dentro do mesmo aspecto soturno que se espalha durante todo o disco, acaba caracterizando-se pelo aspecto calmo, abandonando as concepções energéticas de batidas para focar na letra e na melodia.

“Enjoy the Silence” é o maior hit da banda, uma das músicas mais tocadas nas rádios de todo o mundo durante o ano de 1990. Bordando texturas totalmente modernas para a música daquela época, a canção mostra-se como mais um número melódico em que a produção aloca com perfeição sua enxurrada de ruídos; também é notável o trabalho de Martin Gore na guitarra, bordando riffs atmosféricos que buscam (e conseguem) prender o ouvinte através do encantamento. Há ainda, no desfecho da faixa, o interlúdio “Crucified”, uma fantástica orquestração eletrônica que parece completar o desejo de “curtir o silêncio” que a canção havia plantado.

Embora “Policy of Truth” não seja tão densa, e se assemelhe mais às passadas concepções do synthpop, seu ritmo é sensacional, bem como seus vocais, que vão acariciando os ouvidos; não está entre as melhores músicas do disco, mais foi um single certeiro, sucesso em várias partes do globo. “Blue Dress” é a canção mais exótica do álbum, construindo um caminho lisérgico através de uma base eletrônica que, para a época, não era lá muito comum: ao mesmo tempo em que parece alcançar o futuro, brinca com um antigo aspecto melódico, versos que poderiam muito bem ter sido cantados por Elvis Presley na segunda metade dos anos cinquenta. O desfecho da oitava faixa se encontra com o início da nona (e última) canção do disco, a misteriosa “Clean”, em que Dave Gahan proclama o que parece ser uma grande mudança de sentimentos, através de uma estrutura incerta, que se altera a todo instante e encerra-se sem necessariamente se resolver.

Marcado pela coerência, pelo acerto constante, “Violator” era o ato que faltava para o Depeche Mode marcar de vez o seu espaço na história da música. Tido por muitos como o melhor álbum de 1990 e, por consequência, um dos mais importantes registros daquela década que se iniciava, acabou servindo de base não apenas para mais uma turnê, mas para grande parte do posterior trabalho do conjunto. Porém, nenhum lançamento seguinte do Depeche Mode mostrou-se tão competente quanto este, um disco que, além de sentimentalmente forte, foi marcado pela evolução.

Evolução não só da sonoridade da banda, mas da própria música eletrônica, que através de “Violator” preparou-se para alcançar voos maiores, cada vez mais próximos do público. Se a música eletrônica tem a grande importância verificada nos dias atuais, deve-se a todos aqueles artistas que, a partir dos anos setenta, difundiram e evoluíram o uso de sintetizadores. E “Violator”, que praticamente marca o fim dos inventos do Depeche Mode, caracteriza-se, certamente, como um dos discos mais influentes das últimas três décadas.

NOTA: 9,2

Track List: (todas as faixas compostas por Martin L. Gore)

01. World in My Eyes [04:26]

02. Sweetest Perfection [04:43]

03. Personal Jesus [04:53]

04. Halo [04:30]

05. Waiting for the Night [06:07]

06. Enjoy the Silence [06:12]

07. Policy of Truth [04:55]

08. Blue Dress [05:41]

09. Clean [05:28]

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