1971: Meddle – Pink Floyd

Meddle

Por: Renan Pereira

A busca por uma reinvenção marcava o Pink Floyd desde a saída de Syd Barret, em 1968. Líder conceitual do debut da banda, o fundamental “The Pipper and Gates of Down”, de 1967, Barret já experimentava os primeiros resquícios de seus problemas oriundos do pesado uso de drogas nas gravações do segundo disco da banda, “A Saucerful of Secrets”. O resultado não poderia ser outro, e incapacitado de continuar a sua carreira junto a seus companheiros, Barret acabou sendo mandado embora da banda que, pouco tempo antes, era tido como líder. Ocupando o espaço vago, o guitarrista David Gilmour acabou se integrando ao grupo, e junto a Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason, formou o que é a mais conhecida formação do Pink Floyd.

Mas os primeiros anos desta formação não foram, necessariamente, tão gloriosos. Indubitavelmente, a ausência do senso criativo de Barret causou um buraco que, em um primeiro momento, Gilmour não foi capaz de tapar. Provas disso podem ser visivelmente encontradas nos dois primeiros discos da banda sem Barret, a trilha sonora para o filme “More” e o mal-concebido “Ummagumma”, ambos de 1969. Sem dúvida, os efervescentes toques lisérgicos de seu antigo líder andavam fazendo falta ao grupo, que, na ausência de uma base própria, rumava seus sons a experimentalismos imaturos e inconsistentes.

Refinar a sonoridade de “The Pipper and Gates of Down” não era uma tarefa fácil, visto o impacto que o disco havia causado. Se levarmos em consideração o início da decadência do movimento psicodélico, as coisas pareciam se tornar ainda mais árduas. Claramente, o Pink Floyd precisava se adequar àqueles tempos, dando uma resposta concisa ao público que andava duvidando da capacidade dos ex-companheiros de Syd Barret: no início de 1970, o ex-integrante lançava seu primeiro trabalho solo, o elogiado “The Madcap Laugh” – praticamente um tapa na cara de seus ex-companheiros de banda, que o julgavam sem capacidade de seguir com uma carreira musical.

Felizmente, a resposta do Pink Floyd veio no momento certo, afinal, em outubro daquele mesmo 1970, “Atom Heart Mother” chegou para mostrar que a banda finalmente tinha encontrado uma identidade sonora, cada vez mais próxima do rock progressivo que, naquela época, emergia a passos largos. Sim, o Pink Floyd, até aquele momento, ainda não havia encontrado o seu som; apesar de ótimos, seus dois primeiros álbuns eram basicamente um produto de sua época, mais uma viagem alucinógena de Barret do que uma sonoridade própria, que desse identidade à banda. Isso realmente só viria com o lançamento de “Atom Heart Mother”, concretizando a qualidade lírica, instrumental e criativa que acompanharia o Pink Floyd nos anos que se seguiriam.

Se “Atom Heart Mother” finalmente marcou a construção do som característico do Pink Floyd, “Meddle” significou o crescimento desta concepção. A banda estava a fim de atingir a grandiosidade sonora, e trabalhou de forma magnífica para alcançar tal resultado: as letras de Waters, a guitarra de Gilmour, os paredões sonoros, a produção atmosférica… tudo parecia tender ao épico, a uma dimensão que ainda não havia sido alcançada por aquela formação.

É através de um vendaval que “Meddle” se inicia, com os primeiros segundos da belíssima “One of These Days”. Misteriosa, a canção vai crescendo aos poucos, escancarando uma incrível linha de baixo construída por Waters: aqui, seu trabalho mostra-se pesado como nunca, fluindo agressividade a todo instante. A guitarra de Gilmour é pegajosa, jorrando ruídos comparáveis às futuras texturas do shoegaze, e após a única linha vocal do álbum, em que Nick Mason dá um recado direto a um crítico da banda, o instrumental simplesmente explode: são dois minutos de um poder absoluto, arquitetando a escada para a banda alcançar suas mais elevadas concepções.

Depois de um número agressivo, a sensível “A Pillow of Winds” causa uma completa mudança de humor. Uma das poucas canções românticas do Pink Floyd, a segunda faixa é construída por um instrumental acústico, indo de encontro direto à sonoridade característica da música folk. Roger Waters compôs a letra e a melodia, e David Gilmour, além de cantar, se responsabilizou pela criação do maravilhoso arranjo de cordas, baseado em um estrutura arpejada.

A terceira, “Fearless”, é um bom exemplo de como a banda, literalmente, não teve medo de evoluir. Afinal, é mais um número em que o grupo abraça a complexidade, costurando arranjos magníficos através de instrumentações estupendas. Considerada uma espécie de “hit underground”, é um número de grande aceitabilidade dos fãs, apesar de desconhecida do grande público. Se caracteriza, enfim, por ser uma música serena, tão melódica quanto à faixa anterior, com uma linha vocal que aconchega os ouvidos e uma estrutura que borda verdadeiras camadas sonoras, construindo uma atmosfera primaveril através dos competentes riffs de Gilmour. No desfecho da faixa, há ainda uma alocação muito inteligente: a tocante “You’ll Never Walk Alone”, cantada pela fantástica torcida do Liverpool, um dos mais tradicionais e vencedores clubes da história do futebol inglês.

“San Tropez” é uma canção divertida, brincando com elementos jazzísticos e apresentando uma das melhores linhas vocais já cantadas por David Gilmour. É marcante mais uma vez a qualidade melódica, trabalhada de forma correta pela banda no disco; distante dos experimentalismos pouco acessíveis dos álbuns anteriores, o Pink Floyd se encontrava visivelmente preparado para novamente atingir o público de massa.

Mas nem por isso a banda abandonou suas experiências, uma das marcas registradas do grupo desde a sua fundação. “Seamus” é um blues, que aterrissa nas origens da banda, cujo título, inclusive, é inspirado em dois músicos do gênero: Pink Anderson e Floyd Council. Mas, espera aí, experimentar em um blues, como pode? Deixando o vocal para um cachorro, pode ser? E é isso mesmo o que acontece: conta-se que Glimour estava tomando conta de um cachorro de um amigo, e decidiu escrever esta canção para o animal; para o serviço ficar completo, ele levou o cão para o estúdio de gravação, e lá (sabe-se lá como) a banda faz o bicho cantar. Estranho, não? O que fica no fim, porém, é uma música de primeira, um blues extremamente agradável, mostrando que não só de concepções complexas o Pink Floyd era capaz de viver.

Porém, está na sexta (e última faixa) o ponto alto do disco. “Echoes” é uma música gigantesca, com mais de vinte minutos de duração, bordando atmosferas incríveis enquanto sobrepõe inúmeras camadas de som. Se inicia absolutamente misteriosa, brincando com o som de um sonar, criando o que parece ser o clima perfeito para um filme de suspense. Após as batidas secas da bateria de Nick Mason iniciarem seu trabalho, o que era escuro vai aos poucos se transformando em luz, e a serenidade do vocal cantado por Gilmour e Wright massageia os ouvidos enquanto filosofa sobre aspectos da humanidade. De fato, além de instrumentalmente revolucionária, a canção moldou as temáticas líricas que caracterizariam as composições do Pink Floyd a partir daquele momento, mais centradas no mundo e no homem, sem os toques altamente lisérgicos de outrora.

A guitarra de David Glimour, que em um primeiro momento parecia caminhar tranquilamente por um via melódica, vai aos poucos tornando-se suja, convertendo em uma atmosfera assombrosa o que antes se assemelhava a uma tarde de primavera permeada por pássaros coloridos e borboletas. De fato, está na parte do meio de “Echoes” o momento mais experimental da canção, composto através de uma estrutura improvisada de riffs e sintetizadores; se há alguma textura sonora capaz de assustar o ouvinte, esta parece ser, de fato, a concepção mais pertinente para tal fim.

Após a fantástica climatização, cujo desfecho volta a desenhar raios de luz, o instrumental vai construindo incríveis progressões, dotadas de um poder magnífico, alcançando as dimensões épicas tão procuradas pela banda. O conjunto finais de versos dá ares proféticos a canção, que através de um fade out que parece exorcizar todos demônios, constrói o desfecho de uma das mais completas composições da banda. Apesar de seus vinte e poucos minutos, “Echoes” é apenas uma faixa, embora pareça ecoar durante suas idas e vindas o peso de uma discografia inteira.

“Meddle” é, indubitavelmente, um disco fantástico, que abriu as portas para o Pink Floyd construir, pouco tempo depois, uma das melhores obras da música em todos os tempos, o extraordinário “The Dark Side of the Moon”. Finalmente, o Pink Floyd alcançava a grandeza que tanto caracterizaria o grupo, construindo camadas de sons voltadas ao alcance de níveis épicos, e ajudando, por consequência, a bordar as texturas que definiriam os rumos do bem-sucedido movimento progressivo. Mas ao contrário da maioria das bandas progressivas, as canções do Pink Floyd não eram apenas pretensiosas, tentando alcançar a perfeição técnica: sua forte carga sentimental atingia profundamente a alma dos ouvintes, e isso foi o diferencial que tornou a banda um destaque incontestável.

Um dos mais importantes discos de uma das mais importantes bandas da história. Talvez essa única afirmação bastasse para concretizar a extrema importância deste disco, mas como não se deliciar ao acompanhar as incríveis jornadas propostas pelo Pink Floyd? Esta banda é, definitivamente, um caso raro: quanto mais se escreve sobre ela, mas se deseja escrever, da mesma forma que quanto mais ouvimos suas canções, mais desejamos ouvir. Pink Floyd vicia.

NOTA: 9,3

Track List:

01. One of These Days (Waters/Wright/Mason/Gilmour) [05:57]

02. A Pillow of Winds (Waters/Gilmour) [05:10]

03. Fearless (Waters/Gilmour) [06:08]

04. San Tropez (Waters) [03:43]

05. Seamus (Waters/Wright/Mason/Gilmour) [02:16]

06. Echoes (Waters/Wright/Mason/Gilmour) [23:29]

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