1966: Black Monk Time – The Monks

Black Monk Time

Por: Renan Pereira

Crueza, primitivismo, pancadaria e boas doses de insanidade. Não estamos falando da onda punk dos anos setenta, tampouco da sociedade pré-histórica. Na realidade, este conceito raivoso sempre esteve presente no íntimo do ser-humano, embora muitas vezes escondido devido às convenções do bom comportamento social. Não é nada fácil “quebrar esse gelo”, mas quando alguém toma a frente, soltando o sentimento que está preso, geralmente há quem o acompanhe, escancarando ao mundo os mais primitivos anseios. Na música, um nicho muitas vezes superficial, doente pelo desejo de lucro imediato, tornam-se ainda mais raras as atitudes que tendem a modificar uma estrutura que está estabelecida. Mas, felizmente, muitos artistas conseguiram, através da história, chacoalhar as edificações da industria musical a fim de buscar novos conceitos: é a vontade de crescer, evoluir para fugir do marasmo, buscando a construção algo novo, aventurando-se por concepções inéditas que ainda não haviam sido experimentadas.

Há épocas em que os músicos parecem ter mais coragem, e outras em que a evolução parece ser jogada totalmente para escanteio. Contrastando com o marasmo da música atual, em que pouca novidade tem sido apresentada, a segunda metade da década de sessenta apresentou o que é, para muitos, um divisor de águas para a música popular. Puxados por nomes gigantescos do cenário, como Frank Zappa, Jimmi Hendrix e os Beatles, diversos outros artistas embarcaram em aventuras lisérgicas rumo ao desconhecido; nascia aí o movimento psicodélico, caracterizando uma época mágica para a música, em que a constante transformação era, de fato, a regra máxima.

Porém, quando a onda psicodélica se cessou, o rock acabou dividindo-se em dois caminhos: houve quem decidiu refinar os conceitos psicodélicos, rumando para as concepções grandiosas do rock progressivo, e quem decidiu mesclar os toques lisérgicos com uma música mais crua, amparada no rockabilly e/ou no blues de outrora. Desse segundo grupo emergiriam, anos depois, dois dos mais importantes movimentos musicais da década de setenta: o glam, colorido, e o punk, agressivo. Mas em 1966, ano de intensa produção psicodélica, os conceitos raivosos do punk já começavam a ecoar através de uma vertente denominada “protopunk”, da qual, sem dúvida, a banda The Monks tornou-se uma espécie de “mãe”.

O grupo, formado por seis soldados norte-americanos, que estacionaram na Alemanha e, estabelecidos na cidade de Colônia, decidiram formar uma banda para se divertir, acabaria chocando as gerações posteriores com a gravação do inacreditável “Black Monk Time”: um disco que parecia quebrar com qualquer conceito já apresentado pela música popular.

Não, o The Monks não criou o rock pesado. Bandas como The Kinks e The Who já haviam levado inclusive ao mainstream um conceito mais cru e direto do rock, através de canções como “You Really Got Me” e “My Generation”. Talvez os anglo-germânicos nem tenham sido os primeiros músicos a inspirar o punk de anos seguintes, visto os trabalhos do The Sonics, por exemplo. Mas nada disso impede “Black Monk Time” de se caracterizar como um disco profundamente experimental, sendo que mora aí, justamente, o grande êxito do The Monks: tomada por um aspecto de desconstrução, mas com uma “insanidade planejada”, a banda influenciaria muitos artistas da Alemanha que, alguns anos depois, emergiriam o rock alternativo a partir do que se chamou de “krautrock”.

As experiências vão começando aos poucos, e a primeira faixa do disco, “Monk Time”, é uma pequena apresentação da sonoridade caótica que envolve todo o registro. Vocais gritados, batidas tribais, banjo elétrico… uma concepção simplesmente maluca?  Na verdade, o ouvinte deve ficar atento quanto às intenções da banda: de certa forma, ela conseguiu delinear as “bizarrices” de sua música, fazendo de seu álbum um registro especialmente planejado. Mesmo em meio a tanta novidade, e utilizando-se de uma provável irresponsabilidade, os caras sabiam de onde sair e para onde ir.

“Shut Up” é uma canção de andamento mecânico, permeada pelas batidas desconcertantes de Roger Johnston e pela concepção sombria do órgão de Larry Clark. Aqui é importante perceber que, mesmo a serviço da inovação, a banda não deixou de lado certos aspectos melódicos: dentro de seu paredão sonoro, tender à aceitação do público era um forte objetivo. O que é um acerto, pois experimentar não pode significar uma prática de anti-música – quem revolucionou, afinal, sempre agiu aos olhos do público massivo. A música deve ser feita para agradar nossos ouvidos, e quando peidos e arrotos significarem evolução, ela deixará de ser arte para se tornar uma ciência exata.

“Boys Are Boys and Girls Are Choice” é uma revisitação sombria do rockabilly dos anos cinquenta, soando desafiadora através de sua gritante agressividade, enquanto a quarta, “Higgle-Dy-Piggle-Dy”, se destaca por ser ritmicamente fantástica. E é nessa sucessão surpreendente de acertos que o disco se embala do início ao fim, escancarando a qualidade de uma concepção voltada ao ineditismo. Um registro realmente icônico, mas que na época de seu lançamento, infelizmente, passou despercebido pelo grande público; não é de se admirar, também, que ex-soldados americanos escondidos na Alemanha não tivessem grandes condições de promover o seu trabalho. Suas letras também não eram das mais acessíveis para aqueles tempos, visto o ódio derramado na pesada “I Hate You”, que vai confundido o ouvinte com mudanças bruscas de ritmo e melodia.

“Oh, How to Do Now” contém mais uma instrumentação complexa, em que a base sonora é ordenada a partir da desorganização. Assim também é a sétima, “Complication”, uma verdadeira porrada sonora construída a partir dos desafiadores riffs da guitarra de Gary Burger. As seguintes, “We Do Wie Du” e “Drunken Maria”, são música tão atraentes que apenas as fantásticas linhas de baixo construídas por Eddie Shaw já valeriam a audição. Além de inovadoras, as texturas musicais do The Monks conseguem soar estranhamente agradáveis, como se nossas percepções fossem atingidas com tudo pela insanidade… De fato, caso você se deixar levar por “Black Monk Time”, fique longe de um psiquiatra.

É incrível como o disco soa conciso, mesmo em meio a tamanho caos: tanto a qualidade técnica quanto a criatividade passam ilesas durante toda a obra, fazendo com que todas as faixas cheguem a surpreender. “Love Came Tumblin’ Down”, a décima, é uma verdadeira brincadeira com a beat music, como se praticamente alocasse Paul McCartney dentro da insanidade sonora do The Monks; como resultado, uma melodia relativamente óbvia em um instrumental totalmente aventureiro. Porém, o ponto máximo de toda a experimentação do disco está em “Blast Off!”, que parece agrupar todas as viagens lisérgicas propostas pela banda em uma só canção.

Após mais uns toques doidões na apoteótica “That’s My Girl”, dizer o quê sobre o The Monks? Soldados irresponsáveis, malucos com instrumentos nas mãos ou monges rebeldes? Por mais que tenham trocado as armas por uma música experimental, totalmente distante do canto gregoriano, os caras não merecem esse tipo de rótulo. Até porque é praticamente impossível rotulá-los. Alguns dizem que se trata de protopunk, outros de garage rock, tem gente que acha relações com o krautrock ou até mesmo laços com o post-rock. Se arriscando até mais do que se deve, pode-se supor que os caras formaram uma banda alienígena que pousou na Terra para nos abduzir…

Mas, sinceramente, o rótulo de nada importa. O que marca profundamente é o grito raivoso da música muito a frente de seu tempo, escancarando toda a genialidade que pode ser encontrada no cerne da loucura.

NOTA: 9,2

Track List:

01. Monk Time [02:42]

02. Shut Up [03:11]

03. Boys Are Boys and Girls Are Choice [01:23]

04. Higgle-Dy-Piggle-Dy [02:28]

05. I Hate You [03:32]

06. Oh, How to Do Now [03:14]

07. Complication [02:21]

08. We Do Wie Du [02:09]

09. Drunken Maria [01:44]

10. Love Came Tumblin’ Down [02:28]

11. Blast Off! [02:12]

12. That’s My Girl [02:24]

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