2013: Gratitude – Phillip Long

Gratitude

Por: Renan Pereira

Phillip Long tem apresentado um visível esforço para amadurecer rapidamente. São dois anos de carreira em estúdio, e uma discografia que já se mostra volumosa: um conjunto de seis álbuns, sendo quatro lançados no ano passado. Com isso, o músico paulista, natural de Araras, vem conseguindo atrair um bom número de audições através de um volumoso catálogo de composições; canções deliciosamente simples, intimistas e bucólicas, perfazendo arranjos acolhedores que atraem a partir de concepções diretamente ligadas ao folk de décadas passadas.

O grande risco que se corre ao lançar seguidos discos em um curto intervalo, porém, é não dar o tempo necessário para que as ideias amadureçam. Talvez demasiadamente ansioso, Long primou pela quantidade, entregando ao público trabalhos bons, é verdade, mas de uma crueza gritante; claramente, seu discos poderiam soar muito mais atraentes se melhor amadurecidos. Agora, felizmente, o músico parece ter se convencido de que chegou o momento para consolidar de uma vez por todas a sua base musical, apresentando-nos o que é, até agora, seu disco mais maduro e consistente. “Gratitude” parece ser um marco na obra artística do compositor, e embora se agarre ao mesmo conceito dos trabalhos anteriores, diferencia-se por soar mais refinado, melhor trabalhado.

A música de Phillip Long é serena, e se prende com tudo aos detalhes, procurando abordar constantemente o íntimo de seu criador. “Gratitude”, como não poderia deixar de ser, transparece-se confessional a partir de uma forte carga de emoções. É como se o ouvinte fosse convidado a visitar a casa do músico, e com ele partilhar o cenário íntimo e bucólico expressado pela capa do disco; um proveitoso passeio, em que as confissões de Long mostram-se tão doces e singelas quanto o filhotinho aos seus pés do compositor.

Através do dedilhado melódico e dos versos fáceis da primeira faixa, “Grace”, Long nos delicia com a primeira das brandas concepções de seu disco; uma canção que prima pela calmaria de seus arranjos, se aproximando a passos largos do trabalho feito por Nick Drake no clássico “Pink Moon”. É incrível como as composições de Long são para ser sentidas, e não simplesmente ouvidas: sua música é feita para atingir a alma, e cumpre com louvor o seu papel. A segunda, “You Broght Me Here”, é parte natural desse conjunto emotivo, apresentando-nos um lado mais melancólico do compositor, permeada por um grande acerto melódico.

“Woke Up This Morning” parece ser, de forma até proposital, o tema perfeito para o amanhecer em de um dia ameno e ensolarado, disputando o espaço sonoro com o feliz canto dos pássaros no início da primavera. Flertando com o clima bucólico da zona rural, Phillip Long vai naturalmente recordando-nos da música praticada por nomes de destaque da atualidade, como Bon Iver e Fleet Foxes, ou até mesmo por monstros sagrados, como Neil Young e David Crosby; isso acaba tornando-se visível como nunca na quarta faixa, “While the Flowers Grow in May”, na qual participa o baixista Scott Thunes, que trabalhou com Frank Zappa nos anos oitenta. Sim, a música de Long é repleta de influências, mas é ao mesmo tempo tão íntima que cria para si um universo único – e, por consequência, um lugar de destaque no cenário atual da música brasileira.

Ainda nessa consideração de dualidades, “Once (In the Name of Love)” chega para atingir com tudo os ouvintes, embora sua construção lírica pareça distante em um primeiro momento… Long compõe sobre si, sobre seu mundo particular, mas nada o impede de alcançar o núcleo do planeta de cada um. Certamente, o músico acerta ao fazer de seu íntimo um bem universal. As faixas de “Gratitude” também são muito bem amarradas, e “Road to You”, apesar de ser o único número puramente instrumental do disco, mantém o conceito do álbum ao se aproximar das demais composições.

“Far on a Distant Field” volta a contar com a participação de Scott Thunes, e assim como a seguinte, “Mysterious Ways”, continua a deliciar o ouvinte com uma música simples, acústica, primaveril e singela; concepções agarradas, que pouco se alteram, e não fazem uso do direito de se aventurar. É até mesmo impressionante a forma com que Long consegue nos prender mesmo com uma base sonora antiga, já batida por tantos outros nomes: até o desfecho do disco, o mesmo conceito musical e a mesma qualidade de convencer. O que o ararense nos propõe não é o encantamento pelo inédito, mas prender-se pelo sentimento.

E quem disse que um disco intimista não pode ser colaborativo? Até mesmo o já citado Nick Drake, provavelmente o compositor mais confessional de todos os tempos, contou com a ajuda dos membros do Fairport Convention durante boa parte da carreira. Nos aproximando mais da atualidade e de nossa geografia, temos a curitibana Ana Larousse, que contou com a colaboração de seus amigos para a construção do pessoal “Tudo Começou Aqui”. Da mesma forma faz Phillip Long, que conta com a participação do maranhense Phill Veras na bonita “Want Someone to Remember”(que contém alguns versos em português), e de Laura Wrona na hermética “Trapezist”.

“Ballad of Tom” é a última faixa, fazendo uma homenagem aos dois maiores “Toms” da música brasileira: Tom Zé e Tom Jobim. Ambos já tiveram canções de sua autoria musicando propagandas do mais famoso líquido preto, o que levou a massivos ataques do público e da crítica, e a composição de Long faz referência a estes fatos curiosos. Mais “alegrinha”, a canção se aproxima das composições mais corriqueiras da música folk atual, mas nem por isso diminui a qualidade do desfecho deste disco altamente constante.

Ótimo compositor, Phillip Long também acaba se destacando como um grande instrumentista. Seu dedilhado é simples, porém encantador, criando através da sequência de notas musicais verdadeiras atmosferas sonoras: arranjos completos apesar da simples interação acústica entre os instrumentos. Tal construção enfatiza o valor dos detalhes ao disco, sendo que cada nota, cada verso, cada vocalização, tem papel fundamental para a caracterização do trabalho.

Mas o álbum é movido, como já dito várias vezes neste texto, pelas experiências pessoais de Phillip Long. Através de sua intimidade, o compositor acabou construindo um ponto de afirmação de sua carreira, consolidando-se como um nome importante da cena atual e criando para si um espaço próprio: longe de qualquer concepção atual da música brasileira, seja a nova MPB, o rock alternativo ou até mesmo o pop descartável, Long mostra-se como uma alternativa para quem procura algo mais sereno, um respiro em meio a tanta ânsia por novidade. Um espaço sincero e coeso, em que o ouvinte pode relaxar ao experimentar as emoções do compositor, deixando as preocupações mundanas de lado para mergulhar nos mais íntimos anseios humanos.

NOTA: 8,2

Track List:

01. Grace [03:14]

02. You Brought Me Here [03:37]

03. Woke Up This Morning [02:40]

04. While the Flowers Grow in May [03:22]

05. Once (In the Name of Love) [03:43]

06. Road to You [01:36]

07. Far on a Distant Field [04:20]

08. Mysterious Ways [03:21]

09. Want Someone to Remeber [03:25]

10. Trapezist [03:44]

11. Ballad of Tom [03:01]

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