2007: Person Pitch – Panda Bear

Person Pitch

Por: Renan Pereira

A carreira de Noah Lennox sempre foi voltada ao invento. Seja no grupo Animal Collective, do qual é membro fundador, ou em caminhos solitários através do pseudônimo Panda Bear, é louvável sua capacidade de brincar com o improvável. Desde sua estreia, em 1998 (antes mesmo do lançamento do primeiro álbum de sua banda, que só veria a luz do dia em 2001), o músico de Baltimore, Maryland, tem nos apresentado um complexo conjunto de nuances sonoras, se afastando de qualquer obviedade a tratar de concepções experimentais com uma leveza surpreendente. São texturas capazes de alterar nossas percepções, levando-nos a viagens lisérgicas rumo ao desconhecido, buscando sempre um significado próprio que se afaste de qualquer forma já concretizada anteriormente.

Porém, quem se propõe a invenção não está imune a erros. Por isso, embarcar em vias experimentais requer não apenas coragem, mas muito cuidado; afinal, não foram poucos os casos de artistas que, na ânsia de inovar, acabaram entregando ao público um resultado cru, apressado, que destacaria-se apenas se mais uma considerável parcela de tempo fosse dedicada à maturação das ideias. Em sua estreia, Panda Bear viu suas boas intenções transformando-se em inconsistência, o que levou o próprio Animal Collective a maturar melhor as nuances que seriam exploradas em seu primeiro álbum; como resultado, surgiria “Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished”, o sagaz início de uma discografia inventiva.

Músicos experimentais devem fazer da passagem do tempo um aliado, e logo nos primeiros anos de carreira, Noah Lennox mostrou ter resolvido tal questão. Não que o próprio Animal Collective não tenha se apressado em alguns momentos, mas quem se arrisca, como a própria palavra diz, se arrisca… O fato é que, fugindo constantemente do óbvio, Panda Bear e sua banda foram aos poucos adentrando-se no supra-sumo da cena alternativa. E foi se arriscando, mas com mais experiência, que o músico pôde contemplar uma visível evolução de sua carreira ao lançar “Young Prayer”, seu segundo álbum em carreira solo: um disco produzido rapidamente, gravado em poucos dias, mas com ideias maduras.

Pronto para alcançar seu auge criativo, Lennox embarcou na viagem mais complexa de sua carreira ao fabricar “Person Pitch”. Rechiadíssimo de influências, que vão desde o pop comercial, passando pelo rock pesado e chegando no eletrônico experimental, o disco se comporta como uma costura cuidadosa de nuances, permeado por conjuntos criativos de ruídos, melodias, atmosferas e pequenas seções instrumentais. Grandioso, porém sem nunca perder o controle, é formado por um genuíno embate de percepções, mergulhando em uma piscina de mil litros e lá esbarrando com criaturas marinhas, sejam elas verdadeiras ou mitológicas.

Contido por sete faixas, o álbum aos poucos vai dando sinais de sua grandiosidade: é um registro que deve ser ruminado, ouvido por seguidas vezes para que a sua totalidade seja realmente contemplada. Isso porque, além de experimental, reúne um conjunto infindável de influências, juntando as mais diferentes vertentes das mais distantes épocas. Pense em um forno onde são jogados discos de vinil, CD’s, pen drives e iPod’s, fundindo essa mistura para depois solidificar um produto novo: assim é “Person Pitch”, uma verdadeira liga de referências.

“Comfty in Nautica”, a primeira faixa do disco, embarca o ouvinte na grande viagem de Panda Bear através de uma deliciosa melodia, apalpada por barulhinhos eletrônicos, palmas e uma lisérgica repetição harmônica, que parece encontrar as vocalizações criadas por Brian Wilson no clássico “Pet Sounds”. A segunda, “Take Pills”, enfatiza o aspecto alucinógeno do álbum, iniciando-se ruidosa para mergulhar aos poucos em uma nova atmosfera, em que a produção etérea acaba ficando mais evidente… Ao embarcar em seções cada vez mais alucinógenas, o registro vai abandonando a realidade para contemplar sentimentos e surrealidades possíveis apenas após uma contundente injeção de narcóticos pesados.

Considerada como o ponto central do álbum, “Bro’s” é especialmente complexa, sendo construída através de diferentes seções. O início é sereno, permeado por sons de animais e todo um clima veranil, flertando com o surf rock através de citações diretas da banda The Tornados e uma aproximação quase completa dos Beach Boys. A melodia é tratada com extremo cuidado, alcançando a dimensão dos sonhos através de harmonias maravilhosas que, amparadas por uma acabamento etéreo, formam um paredão sonoro capaz de hipnotizar o ouvinte. Os sentimentos mudam de forma progressiva, passando da contemplação ao delírio a partir dos samples de “I’ve Found a Love”, de Cat Stevens, e “Rub A Dub Dub”, do The Equals.

“I’m Not” é uma canção sombria, quase macabra, detendo uma capacidade surpreendente de confundir o ouvinte ao mesclar as cores vivas do psicodelismo com o negrume de um porão abandonado; vocal e instrumental unem-se em uma base incerta, gelatinosa, alcançando o resultado mais improvável que poderia se imaginar. Um ritmo africano desconstruído abre a quinta faixa, contida pela altamente experimental “Good Girls”, com seus loops harmônicos inovadores, e pela serena “Carrots”, que se comporta praticamente como um pop barroco de roupagem moderna, quebrando ritmos e inserindo progressões de forma semelhante às canções do famigerado “Smile”, obra mais lisérgica de Brian Wilson.

Um turbilhão de ruídos permeia a introdução de “Search for Delicious”, abrindo espaço para uma concepção próxima do dream pop, que constrói a imagem de réstias de sol adentrando em um oceano repleto de baleias orcas, golfinhos, arraias, peixinhos coloridos e corais. Tal acabamento atmosférico é, aliás, o grande diferencial deste álbum para o restante do trabalho de Panda Bear junto ao Animal Collective: embora seja de natureza mais incerta, “Person Pitch” é mais doce, acolhedor, surpreendendo através dos sentimentos. Felizmente, essa concepção foi levada a diante, e embora nenhum álbum do Animal Collective (como nenhum álbum de qualquer outro artista) soe como “Person Pitch”, muito do que Panda Bear construiu em seu melhor registro em caminho solo foi relembrado na produção de “Merriwheater Post Pavilion”, de 2009, a grande obra-prima de sua banda.

“Ponytail”, a última faixa, é um pop barroco impecável, que parece ter saído de alguma gravação perdida do ano de 1967, em que os registros psicodélicos construíram aquilo que se chamou de “Summer of Love”. Algo pouco inovador, mas que funciona como um respiro; afinal, no fim de uma viagem tão intensa, quem não deseja aliviar-se ao perceber que chegou no destino final? O fato é que “Person Pitch” passa muito rápido, deixando um gostinho de quero mais que só seria contemplado quatro anos depois com o lançamento de seu sucessor, o igualmente ótimo “Tomboy”.

Excêntrico, mas ao mesmo tempo acessível, o álbum acabou se tornando um sucesso de público e crítica, alcançando aclamações e se firmando como o melhor disco de 2007 para alguns setores do jornalismo musical. O que não chega a ser surpreendente, visto a grande capacidade do álbum em agrupar infinitas influências para construir um resultado especialmente inédito, distante de qualquer concepção anterior da música pop. Há flertes com os Beach Boys da fase “Pet Sounds”, é verdade, mas alocar “Person Pitch” em uma estrutura sonora pronta é praticamente impossível… Diferente de tudo, inclusive dos trabalhos do Animal Collective, o disco ainda se caracteriza como um registro único, que ninguém ousou copiar. Uma criação tão rica e inventiva que parece fluir o peso de uma discografia inteira através de suas sete faixas, nos surpreendendo e até mesmo confundindo as nossas percepções.

NOTA: 9,1

Track List:

01. Comfy in Nautica [04:04]

02. Take Pills [05:23]

03. Bro’s [12:30]

04. I’m Not [03:59]

05. Good Girls | Carrots [12:42]

06. Search for Delicious [04:53]

07. Ponytail [02:05]

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