2013: Nada Pode Me Parar – Marcelo D2

Nada Pode Me Parar

Por: Renan Pereira

Marcelo D2 teve problemas para produzir seu quinto disco de inéditas em carreira solo. A utilização de samples, isto é, trechos de gravações de outros artistas, é um fato recorrente desde os primórdios do rap, mas tal utilização quase sempre esbarra em situações comerciais, geralmente envolvendo altas cifras em direitos autorais; vide a utilização de versos de “Smells Like Teen Spirit” no último álbum de Jay-Z, que rendeu uma boa valorização da conta bancária de Courtney Love.

Em suma, Marcelo D2 não conseguiu utilizar todos os samples que gostaria. “É difícil fazer sample no Brasil. Fica mais fácil negociar quando o músico está vivo, é uma homenagem. Complicado é tratar com as editoras e com os herdeiros, que, em muitos casos, não entendem de música”, disse o artista. Entre os samples não liberados, estão trechos de “Mr. Tambourine Man” (na voz de Raul Seixas), “Take Five” (de Dave Brubeck), de uma música do Parliament e de um discurso sobre o rap, feito pelo apresentador Roberto Maya na década de oitenta, no programa “Documento Especial”, exibido pela extinta TV Manchete. “Os caras do Parliament pediram R$ 50 mil, quase a metade do orçamento do meu disco”, protestou D2.

Sim, Macelo D2 não tem o mesmo poderio financeiro de nomes como Jay-Z e Nas, e por isso não pode fazer tudo o que quer. Mas, de certa forma, ele parece se aproximar a passos cada vez mais largos desse cenário internacional do hip-hop, repleto de rappers milionários e egocêntricos. Segundo palavras do próprio D2, “Nada Pode Me Parar” é o disco “mais rap” de sua carreira, se distanciando das concepções do Planet Hemp ou até mesmo do samba com que ele tem flertado nos últimos tempos.

E está justamente nesse “abraço” a concepções estrangeiras a falha tentativa de Marcelo D2 em modernizar a sua música. Se antes o músico não se mostrava capaz de se desprender da base de “À Procura da Batida Perfeita”, a maior obra de sua carreira, agora ele procura simplesmente seguir o que há de mais corriqueiro no atual cenário internacional, tentando não deixar sua música ruir em suas próprias mesmices. Ainda há flertes com o samba, lembranças dos discos anteriores, mas o que destoa em “Nada Pode Me Parar” é o desejo de Marcelo D2 em se tornar uma espécie de Kanye West tupiniquim.

Próximo dos trabalhos mais comerciais do rap atual, “Nada Pode Me Parar” se comporta como um produto de fácil audição, especialmente vendável, mas artisticamente pouco relevante. Embora a produção de Mário Caldato, velho conhecido de D2, se mostre assertiva em quase todos os momentos, os sons atraentes e os efeitos modernos não conseguem maquiar o completo vazio que há nos temas: Marcelo D2 fala muita coisa, rima com propriedade, mas não vai além da obviedade que vem permeando suas letras nos últimos anos.

Na primeira faixa, “MD2 (A Sigla no Tag)”, o disco experimenta sua primeira aproximação com o hip-hop internacional ao contar com a participação do coletivo espanhol Cooking Soul (que já produziu para Jay-Z e Kanye West), com o qual, inclusive, D2 nunca se encontrou pessoalmente… No fim das contas, o encontro via twitter não chega a ser tão comercial quanto o de Paula Fernandes com Taylor Swift, mas é mais um brasileiro tentando pegar carona nos êxitos de algum gringo. Contudo, a produção é bem realizada, as batidas atraem, formando uma atmosfera contempladora para D2 disparar versos auto-biográficos.

Mergulhando com tudo no hip-hop da costa oeste dos Estados Unidos, “Danger Zone” não apenas conta com a participação do californiano Aloe Blacc, como contém alguns versos em inglês. Embora coletivo, o disco funciona como uma verdadeira biografia de Marcelo D2, em que o músico tenta mostrar como o rap mudou a sua vida; aspecto contundente desta ideia, a terceira faixa, “Eu Já Sabia”, conta com a participação de Stefan (filho de D2) e de Helio Bentes (da banda Ponto de Equilíbrio), e se aproxima artificialmente das antigas concepções do rapper carioca.

Com boas intenções, mas com rimas pouco criativas, “Livre” e “Você Diz que o Amor Não Dói” parecem mostrar que Marcelo D2 tornou-se um artista repetitivo, que precisa se reinventar ao invés de reproduzir os mesmos temas de sempre. A seguinte, “Fella”, apresenta uma nova geração do rap através de nomes como Shock (Start), Batoré (Cone Crew) e Akira Presidente, mostrando-se porém como uma composição demasiadamente crua, que precisava ser melhor trabalhada para ser lançada em um álbum. Também há aproximações sonoras com o trabalho atual dos rappers paulistanos, como na assertiva “A Cara do Povo”, em que D2 experimenta um momento de verdadeira evolução em sua música… É uma pena que o disco seja inconstante, soando como um conjunto de faixas desunidas, distantes entre si, e os acertos estejam limitados a raros momentos.

“Feeling Good” é uma espécie de “rap romântico”, pouco criativo, enquanto “Madame Bonfumé” é uma vinheta em francês, “uma dessas viagens de estúdio”, segundo o próprio D2. “Está Chegando a Hora” é provavelmente a melhor faixa do álbum, contando com um ótimo sample de “Abre Alas”, canção de Ivan Lins lançada lá nos anos setenta… Essa é a segunda vez em que Lins empresta uma gravação para D2, procurando repetir o sucesso de “Desabafo”, que continha o refrão de “Deixa Eu Dizer”.

Pouco genuíno, “Nada Pode Me Parar” comporta-se como um claro conjunto de ideias copiosas. E Marcelo D2 é infeliz ao copiar os famosos nomes do rap norte-americano até na arrogância, caso de “Eu Tenho o Poder”. Ao contrário de “021”, do Planet Hemp, que tratava do Rio de Janeiro com sentimentos raivosos, “Rio” é uma canção de exaltação, cantando as belezas da cidade maravilhosa. Contudo, Marcelo D2 continua a ser Marcelo D2, e apesar de menos autêntico que outrora, suas convicções continuam as mesmas: a liberação da maconha ainda é um de seus temas preferidos, como bem visto na participação do artista no programa “Na Moral”, de Pedro Bial, e na décima-terceira faixa do disco, a pró-maconha “4:20”.

Álbum mais eletrônico de Marcelo D2, “Nada Pode Me Parar” contém apenas uma faixa tocada com banda: esta é o samba “Na Veia”, gravada em Nova York e composta por Arlindo Cruz. “Vou Por Aí”, a última, conta das viagens de D2 pelo mundo, através de uma produção bem característica do rap norte-americano.

Ao investir em obviedades, Marcelo D2 pende-se à música comercial, fugindo do universo alternativo do qual pertencia. Embarcando desde 2006 em registros pouco relevantes, o músico continua na mídia apenas pelos antigos êxitos ou por suas fortes opiniões sobre temas relevantes da sociedade. Seria ótimo se ele se propusesse a ir além do lugar-comum, realmente evoluindo sua música, pois o que temos, desde “Meu Samba É Assim” até agora, é uma sequência de discos que apenas mostram um rapper com suas capacidades esgotadas. Marcelo D2 pode até pensar que nada pode o parar, mas a triste realidade é que a sua carreira está tão parada quanto água de poço.

NOTA: 3,9

Track List:

01. MD2 (A Sigla no Tag) [02:41]

02. Danger Zone [03:04]

03. Eu Já Sabia [02:53]

04. Livre [03:25]

05. Você Diz Que o Amor Não Dói [02:52]

06. Fella [02:42]

07. A Cara do Povo [02:39]

08. Feeling Good [03:16]

09. Madame Bonfumé [00:38]

10. Está Chegando a Hora (Abre Alas) [02:48]

11. Eu Tenho o Poder [02:46]

12. Rio [02:59]

13. 4:20 [01:41]

14. Na Veia [04:28]

15. Vou Por Aí [03:12]

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