1982: The Dreaming – Kate Bush

The Dreaming

Por: Renan Pereira

Uma das maiores artistas da música mundial, Kate Bush foi responsável não apenas por quebrar barreiras, mas por criar alguns dos mais marcantes registros do final da década de setenta e da primeira metade dos anos oitenta. Descoberta pelo guitarrista David Gimour ainda quando adolescente, Bush tratou de impressionar todo mundo com um surpreendente talento prodígio: com apenas dezenove anos, lançou o clássico “The Kick Inside”, seu primeiro álbum em estúdio, contendo algumas composições que ela havia escrito quando tinha apenas treze anos de idade. De quebra, acabou se tornando a primeira artista feminina a alcançar o topo da parada britânica de singles com uma música de autoria própria, através de “Whutering Heights”.

Mas tamanha acertabilidade logo em sua estreia não foi possível apenas pelo talento da cantora; a atuação da gravadora EMI foi decisiva para a construção de um debut impactante. Contratada anos antes, Bush teve todo o tempo do mundo para evoluir, produzindo com bastante calma o seu primeiro disco, e contando com a colaboração de veteranos do rock progressivo, como os integrantes do The Alan Parsons Project e, é claro, seu padrinho David Gilmour. Ao contrário da grande maioria dos músicos estreantes, que costumam lançar seus registros de estreia com relativa dificuldade, Kate Bush traçou com tranquilidade os primeiros passos de sua carreira.

Com isso, em 1982, Kate Bush já era uma artista de sucesso. Dois anos antes, com o disco “Never for Ever”, ela finalmente pôde deter total controle sobre sua carreira, se distanciando do vigor corporativo de seus dois primeiros registros; Bush não apenas deteve as rédeas na produção, como também rumou para uma sonoridade cada vez mais afastada do rock, se aproximando a passos largos da música pop. Brincando com elementos que se afloraram a partir da dançante música comercial daquela época, através de nomes como Madonna e Michael Jackson, Kate Bush não só passou a captar mais a atenção do público norte-americano, como pôde passar aos ouvintes aspectos mais íntimos de sua música: apesar de ser uma artista pronta, premiada, ela continuava a evoluir, tornando sua carreira cada vez mais sua.

Todas as provas que poderiam ser necessárias para comprovar tal ideia foram apresentadas em “The Dreaming”, quarto álbum da cantora. Denso e sentimental, o disco tem seu início nas fortes batidas de bateria que permeiam a introdução de “Sat in Your Lap”, deixando a clara mensagem de que não se trata de um registro sereno: é, na realidade, uma grande guerra de sentimentos, mesclando referências de forma especialmente combativa, nada tranquila. Os primeiros aspectos “aventureiros” do disco estão nos toques jazzísticos da primeira faixa, uma canção experimental que foge totalmente do óbvio, inserindo toques claramente comerciais em uma concepção genuinamente artística – art pop, como diriam alguns.

Os temas cantados por Bush em “The Dreaming” procuram demonstrar a visão da compositora sobre o mundo que a cerca. Enquanto na primeira faixa a cantora lança um olhar desconfiado para o desenvolvimento da humanidade, “There Goes a Tenner”, a segunda canção, parece inserir-se na mente de um ladrão amador, que só rouba coisas de pequeno valor e sente-se assustado ao praticar tal ação. Há versos bem-humorados, uma estrutura “alegrinha”, mas que nada que fuja da tensão natural do disco… Os arranjos de piano de caráter antigo e as referências ao cinema da década de trinta são apenas caminhos que Bush utiliza para tratar do mundo moderno, da vida moderna.

É impressionante como Bush mostra sua visão de mundo ao inserir-se na mente de pessoas em estado de tensão. “Pull Out the Pin”, por exemplo, adentra no treinamento de uma guerrilha Vietcongue, onde se explica como atirar granadas é essencial para a defesa pessoal. Nada sessentista ou sequer oitentista, mas mais atual impossível: afinal, quem não vive “atirando granadas” para todos os lados a fim de se salvar nesse mundo perigoso que vivemos? Como não poderia deixar de ser, a faixa emana tensão a todo momento, bem como o instrumental parece amplificar o sentimento de medo inserido nos versos e no estridente vocal de Bush.

Falando sobre as coisas elusivas da vida, “Suspended in Gaffa” é uma canção com lirismos que tendem propositalmente ao bizarro, mostrando a decepção de uma pessoa que queria muito ver alguma coisa (como Deus), a vê, mas depois se sente incapaz de vê-la novamente. Instrumentalmente, a canção ruma ao pop barroco dos lançamentos anteriores de Kate Bush, tentando alcançar o significado “mágico” e impalpável dos versos.

A quinta, “Leave It Open”, embarca nos perigos do egocentrismo, com mais uma letra assertiva e uma produção pra lá de caprichada, trabalhando com brilhantismo uma atmosfera construída por uma poderosa percussão, toques medievais, lembranças do rock progressivo e aproximações com aspectos sonoros do dance-pop oitentista. É impressionante, mas “The Dreaming”, embora forte desde seus primeiros segundos, parece ficar cada vez melhor, entrelaçando com maestria sua força lírica e instrumental através de um turbilhão de sentimentos.

A faixa-título não é das canções de mais fácil audição, mas não deixa de ser ótima por causa disso; muito pelo contrário, suas “esquisitices” só fazem construir um número poderoso, especialmente complexo, tratando da dizimação dos aborígenes australianos. Além de contar com as curiosas participações de Rolf Harris, tocando didgeridoo (um instrumento de sopro dos aborígenes), e do imitador de animais Percy Edwards, fornecendo o som de ovelhas, a canção traz Kate Bush cantando através de um puxado sotaque australiano.

Movendo-se da Oceania para a Europa, Bush trata de um romance controlador em “Night of the Swallow”, uma deliciosa e emotiva canção com temáticas irlandesas. Já a oitava, “All the Love”, é uma faixa triste, dolorida, parecendo refletir o ar gélido do inverno em seus versos através de sentimentos de solidão; não por acaso, é uma canção largamente inspirada em Joni Mitchell, talvez a maior expoente feminina de todos os tempos da música quando se trata de melancolia.

Sinistra, “Houdini” chega para impressionar o cabeça-dura que ainda não havia se impressionado com o álbum. Nesta faixa, Kate Bush personifica-se na esposa de Harry Houdini, famoso ilusionista do início do século passado, que ficou conhecido por escapar das situações mais ferrenhas, fosse preso por cabos, algemas e/ou cadeados. A canção inclusive empresta sua temática à capa do disco, em que Bush, interpretando a mulher de Houdini, tenta o entregar uma chave que está em sua língua.

A última faixa, “Get Out of My House”, foi inspirada no livro “The Shining”, de Stephen King – que em 1980 ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Stanley Kubrick e estrelada por Jack Nicholson. Como o livro (e o filme), a canção ambienta-se em um cenário assustador, exalando terror a todo momento… E é assim que “The Dreaming” se encerra, com a força de um genuíno pesadelo.

Um registro marcante, “The Dreaming” não foi apenas o melhor álbum de Kate Bush até aquele momento, como também um dos melhores discos de 1982. Com ele, Bush consolidou seu poderio artístico, mostrando que os êxitos passados não provinham apenas da colaboração de nomes experientes, mas principalmente de seu talento. Além disso, o disco abriria caminhos sonoros para que, três anos depois, a cantora lançasse “Hounds of Love”, sua verdadeira obra-prima.

Contundo, no fim das contas, não há dúvidas quanto a este disco ser um clássico. Criando uma base que anos depois seria incansavelmente utilizada por artistas do calibre de Björk e Fionna Apple, Kate Bush insistiu em surpreender seus ouvintes, se afugentando totalmente da famigerada “zona de conforto”, procurando ir cada vez mais além. É assim que os artistas de grande talento devem se comportar, e Bush provou saber disso muito bem.

NOTA: 9,3

Track List:

01. Sat in Your Lap [03:29]

02. There Goes a Tenner [03:24]

03. Pull Out the Pin [05:26]

04. Suspended in Gaffa [03:54]

05. Leave It Open [03:20]

06. The Dreaming [04:41]

07. Night of the Swallow [05:22]

08. All the Love [04:29]

09. Houdini [03:48]

10. Get Out of My House [05:25]

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