2013: Magna Carta Holy Grail – Jay-Z

Magna Carta Holy Grail

Por: Renan Pereira

“Magna Carta Holy Grail” é um disco minuciosamente projetado. Contendo um título pretensioso, apostas de fácil receptividade e a batuta de um dos maiores rappers da história, o álbum se mostra como um produto inteligentemente pensado para ser um sucesso de vendas… mas incapaz de acrescentar qualquer concepção coerente à carreira de Jay-Z. Comercializado em parceria com a Samsumg, o registro pode até não ser descartável em sua totalidade, mas é a tentativa desnecessária de construir algo que já está de pé, remoendo os êxitos criativos do rapper a fim de alcançar um bom resultado financeiro. Um elefante branco, caro e imponente, mas totalmente irrelevante quando comparado a clássicos como “The Blueprint” e “American Gangster”, obras em que Jay-Z trabalhou com mais originalidade e sinceridade.

Não, “Magna Carta Holy Grail” não precisava ser necessariamente mais um clássico. Ainda que não consiga mais acertar tanto quanto em suas maiores obras, é evidente que Jay-Z ainda tem muita lenha para queimar – como pode ser muito bem observado no recente “Watch the Throne”, álbum em que ele trilhou um caminho consistente em parceria com Kanye West. O problema maior é quando algo que parecia nascer grande acaba se revelando, na verdade, um conjunto de erros. Nem parcerias com grandes nomes da atualidade, como Justin Timberlake, Frank Ocean, Pharrell Williams, Timbaland e Beyoncé, conseguem fazer com que o disco soe relevante, até porque o que “Magna Carta Holy Grail” busca é, acima de tudo, reviver as glórias passadas de Jay-Z através de concepções fáceis e copiosas.

Os êxitos de “Suit & Tie”, por exemplo, são convertidos em esquisitice em “Holy Grail”. Timberlake até se esforça para fazer desta uma concepção atraente, se relacionando diretamente com seus últimos trabalhos, mas o que temos, no fim, são traços tortuosos e incoerentes que significam algo pior do que um simples “mais do mesmo”. Embora não reflita todo o álbum, a primeira faixa parece deixar claro que Jay-Z não está em seus melhores momentos, e as seguintes, “Picasso Baby” e “Tom Ford”, só conseguem mostrar que o rapper realmente não conseguiu se desgrudar das obviedades.

Incapaz de construir algo grande, Jay-Z tenta alcançar o épico através de músicas que revivem antigos números de sua carreira; exemplo de “FuckWithMeYouKnowIGotIt”, resumo copioso da sonoridade outrora apresentada em “The Black Album”. Se isso não bastasse, o rapper tenta utilizar de forma desesperada os êxitos recentemente alcançados por seus colaboradores, para tentar fazer de sua música algo ainda atual: se em “Holy Grail” ele havia tentado alcançar a sonoridade de “The 20/20 Experience”, em “Oceans” ele acaba expondo uma versão errônea dos conceitos de “Channel Orange”, como se a canção fosse uma sobra de estúdio (descartada por incoerência) da grande obra de Frank Ocean.

Mas nem todos os erros partem de Jay-Z. Apesar de ter sido tratado com luxuosidade, nem na produção o álbum mostra-se consistente: Timbaland, um dos maiores produtores da atualidade, se limita ao óbvio e sequer consegue inserir no disco suas marcas registradas; faixas como “F.U.T.W.” e “Somewhereinamerica” soariam muito melhor se o produtor tivesse realizado o trabalho que dele se espera. Se há acerto na produção, há vazio nas palavras – uma grande surpresa negativa quando oriunda de um mestre dos versos… “Crown” até caminha por um terreno sonoro mais sólido, mas só é capaz de representar um bom resultado a quem não entende a língua inglesa. Perdendo-se em letras vazias, Jay-Z não consegue fazer em “Magna Carta Holy Grail” justiça à fama que conquistou.

“Heaven” contém samples líricos de “Losing My Religion”, do R.E.M., mas não passa de um resultado óbvio e repetitivo. “Versus” é apenas uma introdução para “Part II (On the Run)”, a melhor música do álbum, em que Jay-Z finalmente alcança uma concepção grandiosa ao contar com a ajuda da esposa, a diva pop Beyoncé Knowles. A décima-segunda, “Beach Is Better”, também é uma espécie de introdução, abrindo caminho para “BBC” inundar nossos ouvidos com uma sonoridade especialmente tosca e versos que pouco remetem à grande capacidade lírica de Jay-Z.

Entre os poucos acertos do álbum encontra-se “JAY Z Blue”, faixa que revive com proezas The Notorious B.I.G., um dos maiores nomes da história do hip hop, assassinado há dezesseis anos. Já “La Familia” e “Nickels and Dimes” arrastam o álbum para um desfecho cansativo, mostrando que a carreira de Jay-Z precisa ser urgentemente reinventada. Infelizmente, ele preferiu permanecer na zona de conforto ao invés de se arriscar por um caminho ineditista, jogando para escanteio toda a carreira inventiva que construiu com maestria durante as duas últimas décadas.

Por ser recheado de apostas fáceis, o que se espera é que “Magna Carta Holy Grail” venda muito bem, fazendo com que a piscina de Jay-Z transborde ainda mais de dinheiro. Ele ficará feliz, provavelmente comprará um novo carro, dará jóias de grande valor a sua bela esposa e brinquedos nada simplórios a sua filhinha. Ganhar dinheiro é bom, é algo todo mundo gosta (e precisa), mas é triste ver um artista tão representativo se entregando a rumos puramente comerciais. “Magna Carta Holy Grail” é um álbum que renderá entrevistas, comerciais, muita visibilidade na mídia… Mas, no fim das contas, as únicas notas altas que podem ser dadas a ele se referirão às verdinhas.

NOTA: 4,0

Track List:

01. Holy Grail [05:48]

02. Picasso Baby [04:05]

03. Tom Ford [03:09]

04. FuckWithMeYouKnowIGotIt [04:03]

05. Oceans [03:58]

06. F.U.T.W. [04:02]

07. Somewhereinamerica [02:28]

08. Crown [04:33]

09. Heaven [04:03]

10. Versus [00:51]

11. Part II (On the Run) [05:33]

12. Beach Is Better [00:55]

13. BBC [03:12]

14. JAY Z Blue [03:50]

15. La Familia [03:33]

16. Nickels and Dimes [05:03]

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