1973: For Your Pleasure – Roxy Music

For Your Pleasure

Por: Renan Pereira

No início da década de setenta, nenhuma vertente marcou tanto o rock britânico quanto o glam. Casa dos artistas extravagantes, que subiam aos palcos utilizando acessórios como cílios postiços, purpurinas, saltos altos, batons, lantejoulas e paetês, o estilo foi muito mais além dos exageros estéticos que possam o caracterizar: enquanto em discos como “The Man Who Sold the World” e “Hunky Dory” nascia a lenda David Bowie, no álbum “Roxy Music” surgiria uma das mais atraentes bandas daquele período. Com uma concepção mais aventureira das inspirações sessentistas, o grupo liderado por Brian Ferry não apenas revelaria Brian Eno, como também lançaria um conjunto de álbuns marcantes, registros essenciais para entender os rumos do rock inglês durante aqueles tempos.

E um desses registros, ou até mesmo o mais essencial deles, é o álbum “For Your Pleasure”. Construído como uma extensão natural do que o Roxy Music havia construído no ano anterior, com seu disco de estreia, o álbum tratou de praticamente eliminar as inconsistências, bem como amplificou as qualidades do conjunto de canções anteriormente lançado. Se no primeiro disco os êxitos acabaram sendo erroneamente transferidos para o sucesso comercial do single “Virginia Plain”, em seu segundo álbum o Roxy Music pôde experimentar uma evolução natural da sonoridade e do conceito que já haviam sido apresentados, costurando um álbum extremamente conciso tanto em vias comerciais quanto artísticas.

Uma prova disso é a ausência de grandes hits: nenhuma música de “For Your Pleasure” alcançou, nem de longe, o sucesso comercial de “Virginia Plain”. O que não é ruim, visto que aqui a ideia está na concretização de um conjunto de canções que, separadas, não conseguem dizer muita coisa. Não, o registro não chega a ser rotulado como um álbum conceitual, mas além de ser de uma coerência absoluta, amarrando perfeitamente todas as suas oito faixas entre si, ajudou a construir muitos dos alicerces que anos mais tarde ergueriam à glória o movimento punk, bem como serviria de base para muitos dos primeiros trabalhos da chamada new wave.

Mas antes de gravar “For Your Pleasure” e de inspirar tanta gente, Brian Ferry era apenas um professor de cerâmica em uma escola para meninas. Após perder este emprego, decidiu aventurar-se pela música, fundando uma banda e tendo inclusive participado de audições, em 1970, para se tornar o novo vocalista do King Crimson. Sua voz acabou sendo considerada inadequada para o projeto, mas os integrantes da banda progressiva, impressionados com o talento de Ferry, decidiram interceder pelo Roxy Music junto à gravadora E.G. Records.

Com contrato assinado, o Roxy Music ainda procurava por um tecladista. Andy Mackay então apresentou-se, mas não para tocar teclados, e sim saxofone. Coube então a Brian Eno, um antigo conhecido de Mackay, a responsabilidade pelos sintetizadores. Fato curioso é que, na época, Eno ainda não era músico, e tampouco tinha a ideia de se aventurar por uma carreira musical; amante de música eletrônica e avant-garde, acabou aceitando o convite de Mackay para se tornar uma espécie de “assessor técnico” da banda. Depois de Brian Eno, ainda juntariam-se ao grupo Paul Thompson e Phil Manzanera, que responderam a anúncios que procuravam “um maravilhoso baterista” e “um perfeito guitarrista”, respectivamente.

Veio então a gravação do primeiro álbum, anto-intitulado, e seu lançamento acabou abalando as estruturas do rock da época. Apesar do Roxy Music ter aderido incisivamente aos exageros do glam, ali havia uma interpretação muito mais complexa do que normalmente se abordava naquele estilo. Bebendo de grandes influências como Beatles, The Who, The Movie, Elton John e Velvet Underground, o grupo acabou se destacando por elevar os experimentos “purpurinados” do glam a um nível muito mais complexo, se aproximando a passos largos do art rock.

Se o disco de estreia do Roxy Music criou a ideia, “For Your Pleasure” a concretizou definitivamente. Um encontro excitante de grandes melodias e instrumentais impecáveis, o álbum passeia durante seus quarenta e cinco minutos por abordagens (na época) ineditistas, altamente dinâmicas, sabendo tratar na medida certa suas doses de experimentalismo para não se afastar da música pop. Assim já é a primeira faixa, “Do the Stand”, que se incia através de uma verdadeira batalha travada pelos teclados de Brian Eno e pelo saxofone de Andrew Mackay, e ruma para um número energético, dançante, com uma brilhante produção de arranjos; ainda há algumas maravilhosas quebras de ritmo, seguidas por retornos à agitação, enfatizando o lado complexo do registro.

Permeada por uma introdução obscura, brilhantemente tratada por Brian Eno, a segunda faixa, “Beauty Queen”, alcança grande êxito através de sua bela melodia, aproximando-se da obra de David Bowie ou até mesmo dos momentos mais românticos de Elvis Presley. Mas a ênfase ao dinamismo felizmente não é abandonada, principalmente quando uma agitada sessão adentra pelo meio da faixa, mostrando um grande trabalho de Phil Manzanera na construção de riffs e uma majestosa produção atmosférica de Eno.

Embora “For Your Pleasure” seja um disco pretensioso em quase toda sua totalidade, é em “Strictly Confidential” em que o Roxy Music atinge, como nunca, a grandiosidade sonora. Inicia-se lenta, fúnebre, com Mackay e Eno construindo praticamente um cenário de fim de guerra, melancólico e dolorido. O vocal de Ferry é impregnante, especialmente sentimental, e a qualidade dos arranjos só vai evoluindo ao decorrer da canção: a união perfeita entre sintetizador, bateria, baixo, guitarra e voz acaba construindo uma das mais complexas concepções da banda em toda sua existência – uma genuína canção de art rock, de fazer inveja ao Velvet Underground.

Ao conferir “Editions of You”, com sua base energética impecável, torna-se até mesmo óbvia a influência que o Roxy Music exerceu sobre as bandas da chamada “explosão punk”, que se iniciaria quatro anos depois ao lançamento de “For Your Pleasure”. Sexo sempre foi um tema bastante explorado pelo glam rock, e na quinta faixa o vocalista Brian Ferry faz uso de toda sua obcecação sexual para construir o que é considerada como uma verdadeira ode às bonecas infláveis: “In Every Dream Home a Heartache” é uma faixa-chave do disco, exagerada e andrógena, não deixando com que o álbum se afastasse dos mais conhecidos aspectos que permeavam o universo do glam.

Apesar de todas as faixas terem sido creditadas apenas a Brian Ferry, é evidente a influência de Brian Eno na composição de “The Bogus Man”, uma canção que claramente empresta do krautrock seus principais elementos… Os oscilantes riffs de Manzanera, aliados aos magníficos trabalhos de sintetizador e saxofone, constroem um número longo (com mais de nove minutos de duração) e especialmente complexo, mesclando androgenismo e toques lisérgicos, e que parece querer alcançar, a todo instante, o trabalho de bandas alemãs como Can e Kraftwerk.

Brian Ferry encorpora Elton John em “Grey Lagoons”, uma faixa de grande acerto melódico, com belíssimas performances instrumentais, especialmente de baixo, piano e saxofone; é, em suma, uma bonita balada coberta por confete e purpurina, condensando os principais sentimentos do glam rock. A oitava e última música do disco é a faixa-título, que parece sumarizar tudo o que o álbum abordara: dinamismo e experimentalismo, porém sem nunca se distanciar do universo glam e, principalmente, da música pop. Enquanto as bandas do krautrock alemão construíam um som de experimentações altamente assertivas, mas distante do grande público, o Roxy Music alcançou glórias ao experimentar sem se afastar dos elementos que formam a grande aceitabilidade da música pop.

Um álbum como esse, dinâmico, intenso e criativo, e que ainda conta com uma brilhante produção, poderia deixar de ser considerado um clássico? É claro que não. Pode até não ser o único registro clássico do Roxy Music, que ainda lançaria os igualmente ótimos “Stranded” e “Country Life”, mas é, sem dúvida, o mais marcante de todos os discos do grupo. Até porque, a partir dos próximos lançamentos, a banda perderia um de seus grandes pilares: em virtudes de desentendimentos com Brian Ferry, Brian Eno deixaria a banda, embarcando então em uma bem-sucedida carreira solo.

Mas “For Your Pleasure” não é só Eno, muito longe disso… É um álbum deliciosamente coletivo, apesar da óbvia liderança artística de Brian Ferry: todos os integrantes alcançam seus êxitos, seja Manzanera rumando do pop ao experimental com sua guitarra, Mackay com seus hilariantes instrumentos de sopro, John Porter com seu baixo melódico e Paul Thompson com suas corretas linhas de bateria. Seria, portanto, muita ignorância minimizar o trabalho de algum músico ou supervalorizar o de outro; mas no fim das contas, o que acaba ficando claro é que, mesmo sendo o líder, Brian Ferry não era o grande cara da banda. E é normalmente, quando o frontman não se destaca aos demais integrantes, que temos trabalhos de bandas diferentes, que vão além do comum… E isso é o que ocorre, felizmente, no marcante “For Your Pleasure”.

NOTA: 9,4

Track List: (todas as faixas creditadas a Brian Ferry)

01. Do the Stand [04:04]

02. Beauty Queen [04:41]

03. Strictly Confidential [03:48]

04. Editions of You [03:51]

05. In Every Dream Home a Heartache [05:29]

06. The Bogus Man [09:20]

07. Grey Lagoons [04:13]

08. For Your Pleasure [06:51]

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2 opiniões sobre “1973: For Your Pleasure – Roxy Music”

  1. Até exatamente um ano atrás eu só conhecia os Roxy Music por livros ou pelas belas capas de seus álbuns. Por fim, eu resolvi comprar e escutar aquele que a capa me chamou mais a atenção: “Country Life”. Resolvi escutá-lo numa viagem que fiz naquele mesmo ano. O resultado foi simplesmente espetacular. A experiência foi tão boa que se eu fizesse, hoje, um ranking dos melhores álbuns que já ouvi, talvez “Country Life” estivesse no top 5. Quando algo do tipo acontece, a gente fica com uma certa expectativa de como serão os outros álbuns da banda.

    Geralmente quando gosto muito de uma banda, eu evito escutar todos os seus álbuns de uma só vez, pois, dessa forma, sempre fico em contato com alguma “novidade”. Após Country, apenas escutei o primeiro álbum dos caras, que também é muito bom.

    Pois é, depois de ler sua resenha fiquei com muita vontade de ouvir o “For Your Pleasure”, já que considerado por muitos como o melhor.

    Mais uma boa crítica e agora na espera que talvez, um dia, você escreva sobre o “Country Life” que é um dos meus álbuns favoritos! Forte abraço.

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