2013: Vazio Tropical – Wado

Vazio Tropical

Por: Renan Pereira

Uma figura ímpar da nossa música, o catarinense-alagoano Wado nunca se contentou em permanecer no mesmo lugar (e olha que tal afirmação nem leva em consideração aspectos geográficos, visto que ele é um sulista radicado no nordeste). As mais importantes mudanças de direção estão, definitivamente, nos rumos de sua carreira; afinal, o artista sempre tentou fazer de seus registros trabalhos únicos, diferentes um dos outros tanto em estilo quanto em conceito. Desde sua parceria com a banda O Realismo Fantástico até os toques sintéticos que permearam o aclamado álbum “Samba 808”, a carreira de Wado se comporta como uma das mais inventivas e produtivas da cena alternativa nacional.

“Vazio Tropical”, o sétimo disco de sua carreira, pode até ser considerado como o menos surpreendente exemplar de sua discografia, mas apresenta mais um ponto de desgarramento. Novamente, Wado convida o ouvinte para um exercício quase hipnótico de esquecimento do passado, deixando de lado os conceitos que haviam construído seus álbuns anteriores: nada do suingue de “Terceiro Mundo Festivo”, tampouco a herança africana de “Atlântico Negro” e muito menos o rumo eletrônico de “Samba 808”. Pra variar, Wado faz de seu novo álbum um conjunto de novas abordagens, ao costurá-lo com texturas muito mais calmas e intimistas.

Ao investir em uma sonoridade basicamente acústica, Wado renuncia a utilização da base dançante que havia construído grande parte de sua carreira até agora. Afinal, “Vazio Tropical” é uma obra serena, tocada pela sutileza, buscando na MPB da década de setenta muitos dos conceitos que a constroem. Mas estaria o músico, ao investir em antigas ideias, abandonando a veia experimental que tanto tem caracterizado sua carreira? Talvez a grande surpresa de “Vazio Tropical” esteja justamente no fato de sua sonoridade não surpreender: enquanto todos esperavam mais uma obra inventiva, Wado utiliza-se do encontro da atual com a velha MPB para construir mais um cenário de evolução da sua carreira.

Com isso, apesar de menos ineditista, “Vazio Tropical” consegue se encaixar perfeitamente no cenário contemporâneo, mostrando-se como uma extensão natural dos aspectos apresentados por Marcelo Camelo em “Toque Dela” , Mallu Magalhães em “Pitanga”, e até mesmo Cícero Lins em “Canções de Apartamento”. Concepções modernas, genuinamente atuais, mas que trazem na renovação das antigas ideias seu grande ponto de acertabilidade. Wado, definitivamente, parece querer se instalar dentro desse nicho menos experimental e mais acessível ao grande público.

Os primeiros acordes de “Cidade Grande” já deixam bem clara a direção sonora tomada pelo disco, sensível e contempladora, instrumentalmente tranquila, mas de agitação poética incontestável… Em “Vazio Tropical”, Wado se preocupa menos com os rumos sonoros, procurando a todo momento alcançar maiores êxitos como letrista. “Rosa” dá provas desta ideia, com uma construção lírica própria e uma instrumentação pra lá de acessível, que chega até a alcançar a música pop. “Canto dos Insetos” é uma faixa maravilhosa, de tocante beleza, em que o músico parece alcançar o ponto máximo de sutileza de todo seu catálogo de canções.

Produzido por Marcelo Camelo, o disco claramente carrega a bagagem musical de seu produtor, incorporando elementos de “Sou” e “Toque Dela”, primeiros álbuns em carreira solo do “ex-hermano”: flertes diretos com a MPB setentista e a bossa-nova dos anos cinquenta e sessenta, mas sem se desagarrar do presente (e do futuro) ao brincar com o rock alternativo. Ponto claro de almejo de evolução lírica, “Carne” é poeticamente inovadora, com seu tímido instrumental a construir um verdadeiro colchão sonoro para os singelos arranjos vocais de Wado e o do músico uruguaio Gonzalo Deniz – que faz uma participação certeira, embora bastante rápida.

Falando em participações especiais, apesar de ser bem menos coletivo que “Samba 808”, “Vazio Tropical” não deixa de apresentar na colaboração de outros artistas um ponto importante; caso da produção incisiva de Camelo, bem como de “Flores do Bem”, faixa que traz nos belos arranjos (repletos de instrumentos de sopro) e na participação de Marcelo Frota, o Momo, grande acertabilidade. A sexta, “Quarto sem Porta”, é uma música praieira, tão rústica quanto o “Shimbalaiê” de Maria Gadú, e por isso passa longe de ser ruim; mas entre tantas faixas primorosas, se mostra como um número que, ao não crescer o que se esperava, pode causar até estranheza, ou até mesmo não convencer.

A parceria de Wado com Cícero em “Zelo” é de acertabilidade extrema, soando sensível, inteligente e (principalmente) atual, ao encontrar diretamente a sonoridade de “Canções de Apartamento” – disco que, curiosamente, disputou com “Samba 808” o posto de melhor álbum da música brasileira em 2011. Com a sucessão de faixas, o cenário poeticamente rico de “Vazio Tropical” vai se completando ao explorar aspectos cada vez mais sutis e elaborados; caso de “Tão Feliz”, em que o produtor Marcelo Camelo não apenas produz o que mais parece ser uma extensão de sua carreira solo, como também dá uma canjinha nos vocais. Já a nona, “Primavera Árabe”, vai de encontro aos versos politizados, com Wado relacionando seus sentimentos aos acontecimentos que têm abalado a política de muitos países árabes desde dezembro de 2010.

A metafórica “Cais Abandonado” é menos simplista liricamente, e por isso soa como uma espécie de evolução estética à música de Marcelo Camelo, ou até mesmo um olhar mais direto às concepções mais pretensiosas de Wado, anteriores a “Vazio Tropical”. O encerramento se dá com a faixa título, um número instrumental que, ao brincar com um sintetizador moog, parece levar propositalmente o ouvinte a décadas passadas. Assim como ocorre com a capa do disco, de um modelo que praticamente faz Wado transfigurar-se em artista da MPB dos anos sessenta ou setenta. Há os que amam os experimentos (e, de fato, eles são sempre bem-vindos), mas nem apenas de novidades deve ser feita a carreira de um compositor… E, ao revisitar velharias, mas sem deixar de lado o século XXI, Wado e seus colaboradores parecem estar acertando em cheio, acarretando em “Vazio Tropical” o resultado que dele se esperava: um marco menos ineditista, mas mesmo assim evolutivo.

Talvez o maior acerto de Wado esteja em saber, como poucos, em quem se encostar. Se os grandes êxitos de “Samba 808” estavam em seu vigor corporativo e heterogêneo, notabilizando participações como as de Zeca Baleiro, Chico César e Curumin, “Vazio Tropical” é um verdadeiro convite à homogeneidade – mas contando, novamente, com os acertos das colaborações. Afinal, se você quer se consolidar como um nome importante do cenário atual, nada melhor que trabalhar com músicos do calibre de Marcelo Camelo, Cícero e Momo.

De fato, “Vazio Tropical” é a feliz extensão das obras de seus colaboradores, e um ponto de evolução sentimental e lírica na já consagrada carreira de Wado. Pode não ser o melhor de seus discos, mas é o trabalho mais adequado para que sua música se insira, definitivamente, no supra-sumo tanto artístico quanto comercial da chamada nova MPB.

NOTA: 8,3

Track List:

01. Cidade Grande [03:01]

02. Rosa [02:32]

03. Canto dos Insetos [02:08]

04. Carne [02:50]

05. Flores do Bem [02:51]

06. Quarto Sem Porta [02:24]

07. Zelo [03:17]

08. Tão Feliz [02:31]

09. Primavera Árabe [02:42]

10. Cais Abandonado [02:55]

11. Vazio Tropical [00:54]

Anúncios

Uma opinião sobre “2013: Vazio Tropical – Wado”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s