1991: Blood Sugar Sex Magik – Red Hot Chili Peppers

Blood Sugar Sex Magik

Por: Renan Pereira

É curioso ver como em pouco tempo algumas coisas mudam drasticamente. Em 1988, o Red Hot Chili Peppers enfrentava a sua pior fase, com a morte do guitarrista Hillel Slovak por overdose de heroína e a saída do baterista Jack Irons. Apenas um ano depois, já com John Frusciante e Chad Smith, a banda lançaria o seu melhor álbum até aquele momento: “Mother’s Milk” não apenas elevou a banda californiana ao mainstream, como também alterou os rumos sonoros do grupo; ao começar a dar mais ênfase à melodia, mesmo sem deixar de lado a qualidade rítmica que já acompanhava seus trabalhos anteriores, o Red Hot Chili Peppers pôde experimentar uma sensível elevação na qualidade de sua música.

O principal responsável por esta evolução sonora era, claramente, o novo guitarrista. Embora admirasse o trabalho de Slovak, John Frusciante foi muito além dos riffs funk que permeavam com totalidade os primeiros álbuns dos Chili Peppers. Sua inspiração parecia estar em outra vertente, relativamente distante das concepções dançantes da música negra norte-americana: se encontravam no rock clássico, no heavy metal das décadas de setenta e oitenta, as principais ideias que ajustavam os acordes de sua guitarra.

De forma impressionante, os riffs pesados de Frusciante acabaram se encaixando perfeitamente aos elementos funk da banda, casando-se de forma magistral com as pulsantes linhas de baixo de Flea e o vocal assumidamente rap de Anthony Kiedis. A banda não deixava de se comportar como um legítimo grupo do cenário underground, mas fazia com que a sua base sonora crescesse a níveis que, em outros tempos, eram inimagináveis. Logo, à medida em que a nova sonoridade passava a ser amplamente aceita pelo grande público, o sucesso começava a bater na porta, e um novo trabalho, de grandes proporções, passava a se tornar quase uma obrigação.

Para tanto, um grande produtor deveria ser recrutado, vendo-se então no barbudo Rick Rubin a pessoa certa para inserir o Red Hot Chili Peppers de forma definitiva no panteão do rock. De fato, os pitacos de Rubin mostraram-se essenciais para a construção de “Blood Sugar Sex Magik” – não tanto pelo conceito, mas pelo processo de gravação. Ao confinar a banda dentro de uma antiga mansão (supostamente mal-assombrada) de Los Angeles, o produtor confiou na união criativa do grupo, que produziria ali, centrado apenas nas composições, o seu mais brilhante trabalho.

Mesclando o rock alternativo com a música funk de maneira fantástica, “Blood Sugar Sex Magik” mostrou-se, desde seu lançamento, como o divisor de águas definitivo da carreira do Red Hot Chili Peppers. Embora se trate de uma evolução natural do que a banda havia apresentado em “Mother’s Milk”, concepções mais pesadas e doses lisérgicas foram acalmadas, a fim de se buscar uma aceitação ainda maior por parte do grande público – mas sem deixar, em nenhum momento, que a qualidade se perdesse. Basicamente, buscou-se a construção de um disco completo, agarrado a uma sonoridade ineditista, mas com o poder de lançar músicas de sucesso comercial. Uma ideia que deu certo, visto a existência de singles poderosos como “Under the Bridge” e “Give It Away”.

O disco começa com duas faixas de primor rítmico invejável: “The Power of Equality”, uma canção repleta de energia e atitude que claramente protesta contra o racismo, e “If You Have to Ask”, a faixa do disco que provavelmente se amarra com maior força às mais antigas composições da banda. Já a terceira, “Breaking the Girl”, é um ponto claro de desgarramento das velhas ideias, com o ritmo envolvente sendo deixado de lado para a construção de um legítima balada; um número semi-acústico e melódico, em que a banda procurou visualizar, com assertividade, uma nova etapa de sua carreira.

“Funky Monks” é uma faixa sensacional, discutindo os erros humanos e quão livre pode ser o amor, sem deixar de apresentar aquela qualidade rítmica tradicional; apesar de ser mais reconhecido pelos êxitos melódicos, aqui Frusciante acaba embarcando com tudo no funk, ao levar para o início dos anos noventa a mesma concepção de riffs quentes que Sly Stone havia criado duas décadas atrás. Temas sexuais também são uma constante no álbum, como pode ser facilmente percebido em “Suck My Kiss” – uma composição sobre sexo oral, segundo palavras do próprio Anthony Kiedis. Embora estivesse entrando com tudo no mainstream, o RHCP teve a acertabilidade de não abandonar a sua essência.

A sexta, “I Could Have Lied”, é uma das melhores baladas já lançadas pela banda, serena e melódica, e até se assemelhando ao que seria apresentado no álbum “By the Way”, uma década mais tarde. Variado, “Blood Sugar Sex Magik” não se contenta em permanecer no lugar-comum, quebrando barreiras e esbofetando obviedades. É impressionante como uma banda, outrora conhecida apenas pelas concepções rítmicas, conseguiu construir um trabalho tão completo, que passeia por diversas vertentes e mesmo assim soa conciso e consistente a todo momento. “Mellowship Slinky in B Major” e “The Righteous & the Wicked” estão aí para provar, afinal, quão dinâmicos e ineditistas podiam ser os conceitos sonoros do grupo californiano.

Centrada na filosofia da abnegação, a seminal “Give It Away” é muito mais do que um single de sucesso, pois retrata um fato que afetou incisivamente a vida de Anthony Kiedis. Conta-se que, certo dia, o vocalista olhava para as roupas do armário da namorada, a cantora e modelo Nina Hagen; após ele elogiar uma das jaquetas de Hagen, ela simplesmente revolveu presenteá-lo com aquele exemplar, explicando que “se você tem um armário cheio de roupas e tenta mantê-las, sua vida se tornará muito pequena. Mas se você tiver um armário cheio e alguém vê algo que gosta, dê a ele e seu mundo será um lugar melhor”. A partir daquele momento, Kiedis começou a seguir tal ideia, que, segundo ele, foi fundamental para o fim de seus vícios: “quando eu comecei a frequentar encontros de auto-ajuda para viciados, um dos princípios que aprendi foi que o caminho para manter sua própria sobriedade é compartilhá-la com algum outro alcoólatra. Quando você descarrega essa energia, uma nova começa a fluir”, explica o vocalista.

A décima é a faixa título, contendo um brilhante trabalho de guitarra e tratando, mais uma vez, de temas sexuais. Eis que segue, então, a espetacular “Under the Bridge”, uma verdeira obra-prima do rock alternativo dos anos noventa: intimista, explorando nuances e texturas totalmente inéditas para a música pop ao realizar o perfeito casamento entre o crescimento melódico e rítmico, a canção trata, com versos pensativos e atmosféricos, do passado lisérgico de Kiedis, medindo o impacto que seu vício em drogas havia causado em sua vida. Fundamental, a décima-primeira faixa de “Blood Sugar Sex Magik” condensou com maestria os sentimentos que permeavam os atos de Kiedis naquela época, e talvez até por isso tenha se tornado uma espécie de hino, que passou a frequentar, com o tempo, diversas listas de “melhores canções de rock de todos os tempos”.

Ao dizer que seu lugar está na esquina da civilização, em um mundo em que ele não pode ser encontrado, Kiedis parece defender o uso de alucinógenos; mas, na realidade, o foco de “Naked in the Rain” está no detrimento da fé na raça humana, ao rotular a sociedade como “perda de tempo”. Que a carreira do RHCP está recheada de referências à Califórnia não é segredo para ninguém; mas, em “Apache Rose Peacock”, a banda ruma seus olhares para leste e acaba dedicando a décima-terceira faixa à cidade de New Orleans – e como não poderia deixar de ser, utiliza bases da música negra norte-americana para falar de uma metrópole com grande população afrodescendente. De uma discussão entre Rubin e Kiedis, na qual o produtor tentava encorajar o vocalista a escrever uma canção sobre carros e mulheres, surgiu “The Greeting Song”, uma canção irônica e veloz em que a atuação instrumental forma um verdadeiro espaço para contemplação.

Em um disco tão dinâmico, há também espaço para tristeza? Pois bem, embora seja uma canção de ritmo dançante, e com pesados riffs de guitarra, a base lírica de “My Lovely Man” reflete a dor pela partida de uma pessoa querida… Seria esta o guitarrista Hillel Slovak? Uma espécie de alter-ego de Anthony Kiedis é o tema de uma das mais incríveis canções já compostas pelo Red Hot Chili Peppers: “Sir Psyco Sexy” é fantástica, ousada, atraente, criativa e inovadora, uma canção duradoura que comprime todos os êxitos alcançados pela banda em “Blood Sugar Sex Magik” em apenas uma faixa… Um número perfeito para encerrar o disco, se ainda não houvesse a bem-humorada regravação de “They’re Red Hot”, um velho blues, lá da década de trinta, de autoria de Robert Johnson.

Um álbum extenso (com dezessete faixas, e mais de setenta minutos de duração) merece um texto extenso. E olha que esta resenha poderia até ser alongada, se fossem dados todos os adjetivos possíveis a este grande disco. Pois, por mais que se fale (ou se escreva), sempre parecem faltar palavras para descrever com perfeição um trabalho tão grandioso. Afinal, ao conferir este maravilhoso conjunto de dezessete canções, não fica difícil perceber o porquê do Red Hot Chili Peppers ter se tornado uma banda gigantesca, praticamente uma entidade dentro do rock alternativo norte-americano. Eis aqui, enfim, o melhor trabalho dos caras: um dos discos fundamentais da década de noventa.

NOTA: 9,6

Track List: (todas as faixas creditadas a Red Hot Chili Peppers, exceto a última)

01. The Power of Equality [04:03]

02. If You Have to Ask [03:37]

03. Breaking the Girl [04:55]

04. Funky Monks [05:23]

05. Suck My Kiss [03:37]

06. I Could Have Lied [04:04]

07. Mellowship Slinky in B Major [04:00]

08. The Righteous & the Wicked [04:08]

09. Give It Away [04:43]

10. Blood Sugar Sex Magik [04:31]

11. Under the Bridge [04:24]

12. Naked in the Rain [04:26]

13. Apache Rose Peacock [04:42]

14. The Greeting Song [03:13]

15. My Lovely Man [04:39]

16. Sir Psycho Sexy [08:17]

17. They’re Red Hot (Robert Johnson) [01:12]

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