2013: Yeezus – Kanye West

Yeezus

Por: Renan Pereira

Dono de uma das mais competentes e inventivas discografias dos últimos tempos, Kanye West cada vez mais se destaca como uma das mentes mais privilegiadas da música atual, produzindo discos com maestria e se postando como um dos melhores rappers da história. Embora sua música se agarre a exageros, sendo o músico excêntrico e polemizador, não há como negar a qualidade criativa da carreira em estúdio que ele vem construindo desde 2004: álbuns como “The College Dropout”, “Late Registration”, e “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” se comportam como verdadeiros clássicos modernos, e não apenas do hip-hop, mas da música mundial em geral.

“Yeezus”, o sexto álbum solo do artista, pode não ser o melhor, mas é o mais surpreendente exemplar de seu catálogo até agora. Algo que poderia ser até considerado normal para um músico que trata de construir um universo único em cada álbum, explorando suas ideias efervescentes ao costurar com capricho uma colcha de referências retalhadas, sendo influenciado e influenciando diversos artistas. Mas, ao conferir os primeiros segundos do novo álbum, percebe-se nitidamente que o cara tratou de se superar como nunca; “Yeezus” tenta reconstruir a imagem de West ao desconstruir tudo o que ele havia feito até agora, fazendo com que ele renasça quando alguns esperavam, erroneamente, uma continuação do que havia sido apresentado em “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”.

As batidas sintéticas da primeira faixa, “On Sight”, já procuram dar o tom da sonoridade do disco, um legítimo álbum futurista e experimental, utilizando (e criando) o que há de mais atual na cena atual do hip-hop. Embora, em um primeiro momento, o cenário possa ser relacionado ao que se desenvolvera em 2007, no álbum “Graduation”, aos poucos o ouvinte vai sendo levado a uma atmosfera ineditista, se afastando da “pessoa Kanye West” para ser envolvido pelo universo que rodeia o compositor. Algo curioso, ao percebemos que “Yeezus” se trata de um disco mais “solitário”, com menos participações… Talvez Kanye West esteja vivendo um processo de mudanças, tanto pessoais quanto artísticas, e anseie desgarrar-se (mas não por completo) da imagem egocêntrica que construiu.

Fica claro que temos em mãos o registro mais “atmosférico” de Kanye West, propositalmente tenso e denso, soando intrigante em suas concepções caóticas e desconstrutoras. A já falada primeira faixa é um primeiro aspecto desta ideia, parecendo combater de forma raivosa os cenários que o próprio West construíra anteriormente. A segunda, “Black Skinhead”, enfatiza os propósitos do álbum, soando acelerada e envolvente, com um paredão sonoro brilhantemente produzido para os marcantes versos de West serem atirados sem parcimônia. Na produção, aliás, sempre esteve um dos grandes méritos da carreira do rapper, e em “Yeezus” isso não poderia ser diferente: é como se tudo fosse construído com despretensão e megalomania ao mesmo tempo.

Considerado por alguns como uma espécie de “deus” da música negra norte-americana, Kanye West veste o rótulo e brinca com as divindades, tanto no próprio título do álbum quanto na terceira faixa, “I Am a God”, um número de ousadia absurda, que conta com a participação de Justin Vernon (Bon Iver) e procura alocar West em um nicho intocável; com uma letra que parece elevar, a todo momento, o já gigantesco ego do rapper, a faixa até se distancia da proposta geral de “Yeezus”, mas mostra que o músico não deixou de ser o Kanye West que já conhecíamos, intrigador e polêmico. Ele é, afinal, uma presença mais do que necessária no mundo pop atual, tocando nas feridas que poucos tem coragem de tocar, se caracterizando como um contraponto de toda a insossa melação do mundo da música… Não que ele tenha sido muito educado com a “princesinha” Taylor Swift, mas é louvável que alguém queira acabar com essa mesmice que nos rodeia.

“Yeezus” não é somente um disco em que todas as faixas soam bem resolvidas, mas que trabalha para surpreender o ouvinte a todo momento: inicia-se ótimo, e a cada segundo vai ficando ainda melhor. “New Slaves” envolve nossos ouvidos com naturalidade, com sua sonoridade moderna mas de rápida aceitação, contendo um sampler final que explode de forma majestosa e faz a faixa se elevar ao épico. O desgarramento das antigas concepções ficam claras como nunca em “Hold My Liquor”, jogando o rap das décadas de oitenta e noventa para escanteio ao flertar com a música eletrônica atual, desacelerando o ritmo e beirando o novo R&B… Sim, West pode até ser o artista que mais influencia na música atual, mas mesmo assim ele não deixa de ser influenciado por novos nomes, como Frank Ocean e Kid Cudi. Sua música, apesar de exagerada e relativamente experimental, não deixa de ser destinada ao grande público, e por isso tais “atualidades” não são apenas bem-vindas, mas essenciais.

A sexta faixa, “I’m in It”, é provavelmente a canção mais dinâmica do disco, procurando não permanecer no mesmo lugar mesmo no mais curto intervalo de tempo; é o caos e a raiva de “Yeezus” fazendo com que o disco atinja os ouvintes com verdadeiras esbofetadas sonoras, com uma ideia até mesmo desesperada de fazer Kanye West “morrer e ressuscitar”, procurando tornar o artista o verdadeiro messias da música negra norte-americana. A seguinte, “Blood on the Leaves”, até poderia ser considerada o ponto máximo do disco, se este fosse possível de ser encontrado (com tanta consistência, apontar a melhor faixa seria muita pretensão); o fato é que aqui temos o ápice emotivo de “Yeezus”, com o brilho de seu fantástico sampler inicial e o turbilhão sonoro e sentimental que o segue.

Em “Guilt Trip”, Kanye West se encosta nas composições atuais (mas agarradas a velharias) de Justin Timberlake, construindo uma música que até pode ser chamada de pop, mas que em nenhum momento se afasta dos propósitos do disco… Aliás, que propósitos são esses? Inquieto e constantemente fugindo do óbvio, “Yeezus” pode até ser uma genuína obra de West, exagerada e egocêntrica, mas talvez a sua maior qualidade esteja na grande capacidade de surpreender; não por ser de uma novidade extrema, mas por mostrar que um álbum pode ser construído com capricho e cuidado mesmo em meio a uma atmosfera caótica. Aqui, temos um West incerto, sofrendo verdadeiras alucinações, mas manuseando sua instabilidade de forma magistral, mantendo-a em um intervalo definido, sabendo limitá-la mesmo em meio a tanta grandiosidade. Ele se define, mas é, ao mesmo tempo, um artista difícil de definir – e talvez por isso seja considerado genial.

“Send It Up” é altamente energética, com batidas sensacionais, sabendo manejar o sintético de maneira tão majestosa que o faz soar deliciosamente natural; pois é, Kanye West parece realmente ser o cara dos discos perfeitamente produzidos, ainda mais quando conta com a colaboração de nomes como Daft Punk e Rick Rubin. Para encerrar, a apoteótica “Bound 2” almeja o futuro ao mesmo tempo em que revive canções antigas, concluindo perfeitamente a ideia do álbum, incerto e instável, e mesmo assim absurdamente consistente. Sem dúvida, não apenas mais um mais um exemplar da discografia de Kanye West, mas um novo clássico que o artista oferece à música mundial.

Transfigurando-se em uma santidade, ou até mesmo em uma espécie de semi-deus, West volta a causar polêmica, é claro. Mas se o público praticamente o ascendeu aos céus, o que há de errado em comprar a ideia? Mais uma vez, o compositor esbanja talento e pretensão, quebrando limites e ousando enfrentar as mesmices do mundo, questionando o que é considerado bonito ou politicamente correto. De fato, mais uma vez, Kanye West está de parabéns. Há quem o ama e quem o odeia, mas só um tolo poderia questionar quão fundamental é a presença dele no universo pop atual.

NOTA: 9,0

Track List:

01. On Sight [02:36]

02. Black Skinhead [03:08]

03. I Am a God [03:51]

04. New Slaves [04:16]

05. Hold My Liquor [05:26]

06. I’m in It [03:54]

07. Blood on the Leaves [06:00]

08. Guilt Trip [04:03]

09. Send It Up [02:58]

10. Bound 2 [03:49]

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