1963: The Freewheelin’ Bob Dylan – Bob Dylan

The Freewheelin' Bob Dylan

Por: Renan Pereira

Bob Dylan já havia lançado seu primeiro álbum em 1962, mas foi com os primeiros acordes de “Blowin’ in the Wind” que um dos maiores gênios da história da música nascia. Afinal de contas, enquanto o primeiro álbum do compositor era apenas um conjunto de regravações de clássicos diversos da música folk, “The Freewheelin’ Bob Dylan”, o segundo exemplar de sua discografia, é um disco clássico, um grande marco da música mundial; não por ser esteticamente inovador, ou por trazer grandes revoluções, mas por dar luz a um artista genial, uma das mentes mais brilhantes da história da música, que viria a influenciar milhares de artistas. Pode-se dizer que, depois de Bob Dylan, a música popular nunca mais foi a mesma.

Isso porque Dylan rompeu as barreiras da música folk. Embora tenha ganhado mais notoriedade à medida em que Dylan se tornava uma lenda, o segundo álbum do músico, desde seu lançamento, foi marcado pelo grande impacto cultural por ele causado. Afinal, embora Elvis Presley, Louis Armstrong e Hank Williams fossem uma unanimidade, nenhum deles, apesar de eternamente conhecidos como marcos da cultura dos Estados Unidos, foi capaz de envolver os sentimentos dos norte-americanos na música com tamanha acertabilidade quanto Bob Dylan – querendo ou não, ele mostrou cantar, melhor do que ninguém, os anseios e descaminhos da terra do Tio Sam.

Provas dessa ideia estão contidas em muitas das canções do disco. Temas envolvendo a luta pelos direitos civis, o medo de uma guerra nuclear e os obstáculos enfrentados por um jovem adulto, não por menos, acabaram atingindo o público em cheio; eram canções que representavam, em acordes e versos, os pensamentos e os gritos de uma geração. Por isso, aos 22 anos, Bob Dylan deixava de ser apenas mais um intérprete de música folk, e se tornava um dos sujeitos mais importantes dos Estados Unidos da América… Ele se postava, indubitavelmente, como a jovem voz de uma geração que precisava de uma voz.

O que dizer de “Blowin’ in the Wind”, uma das mais belas e importantes composições da história? Concebida com maestria, a canção de protesto mais famosa de todos os tempos encaminha aos ouvintes um inteligentíssimo conjunto de questões retóricas, marcando com força a posição de Bob Dylan sobre temas como guerra, paz e liberdade. A resposta, porém, fica justamente no ar: ela é tão simples que está na frente do seu nariz, ou é tão tão inatingível quanto o vento? Falando sobre a composição, Dylan disse que “não há muito o que pode ser dito sobre essa canção, senão que a resposta está flutuando pelo vento. Não está em nenhum livro, filme, programa de TV ou grupo de discussão. Cara, é no vento – e ela está soprando no vento. Muitas pessoas estão me dizendo qual é a resposta, mas eu não acredito nisso”.

Ao contrário da primeira faixa do disco, uma famigerada canção política, “Girl from the North Country” é uma sensível música de amor, possivelmente inspirada na namorada de Dylan na época, Suze Rotolo, e incluindo elementos da música britânica tradicional. Fala-se que a canção começou a ser escrita durante a primeira viagem de Dylan à Inglaterra, em dezembro de 1962; da Inglaterra ele foi para a Itália, a fim de encontrar Suze, cujos estudos haviam causado várias feridas no relacionamento do casal. Sem o conhecimento de Dylan, Rotolo já havia retornado para os Estados Unidos, e aí, inspirado pelo aparente fim de seu relacionamento, foi que ele terminou a canção. Após voltar para casa em meados de janeiro, Dylan finalmente se reconciliou com Rotolo. Suze Rotolo é a mulher que aparece na capa do álbum, andando de braço dado com Dylan pela Jones Street, não muito longe do apartamento em que juntos moravam.

Bob Dylan retorna com tudo aos temas políticos em “Masters of War”, uma canção densa em que seus versos se concentram nos rumos da Guerra Fria, bem como no medo geral da realização de uma guerra nuclear; é tida como uma canção pacífica, anti-guerra, levando aos ouvintes um pouco do olhar dos governantes sobre os descaminhos da indústria armamentística. Como fundo melódico, Dylan utilizou as bases de uma antiga canção, “Nottamun Town”, mas nada que diminua o êxito alcançado pelo músico; no universo folk, naquela época, reviver antigas melodias era algo relativamente comum entre os compositores, até porque o destaque maior ficava para as letras.

Suze Rotolo foi, sem dúvida, uma pessoa extremamente importante para Dylan. Ela aparece na capa do disco, inspirou a segunda faixa, e também a quarta, “Down the Highway”, mas não só isso: é impressionante o quanto os problemas no relacionamento dela com Dylan realmente derrubavam o compositor. O fato é que, com a alma machucada, o músico acabou criando em “Down the Highway” dos números mais tristes de todo seu gigantesco catálogo de canções, disparando com maestria versos doloridos em uma base melódica tradicional do blues.

A quinta faixa, “Bob Dylan’s Blues”, trata das mazelas da sociedade de forma inteligente, sem soar oportunista ou de forma demasiadamente direta. Aliás, como “The Frewheelin'” é um disco altamente político, cabe uma observação: falar sobre o tema, embora muitos pensem ao contrário, não requer apenas informação; é necessário saber como falar. Às vezes, ao expormos nossas convicções de modo radical, podemos afastar as sempre bem-vindas opiniões de terceiros, pois, como Raul já dizia, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Política é, obviamente, um tema que deve ser discutido, mas com sabedoria. Por isso, muitas vezes, quem se embrenha na música pelo tema “política” costuma colher opiniões contrárias… De fato, não foram poucos os artistas que se perderam ao tentar falar sobre o assunto. Mas, felizmente, isso não se aplica a Dylan: um mestre das palavras, o músico soube muito bem como mostrar de maneira concisa suas opiniões fortes e, ao mesmo tempo, ser praticamente uma unanimidade. Fosse republicano ou democrata, todos pareciam admirar a música e as ideias do compositor.

O escritor Ian MacDonald chamou “A Hard Rain’s a-Gonna Fail” de uma das mais idiossincráticas músicas de protesto de todos os tempos – e quando pesquisamos e descobrimos que “idiossincrático” significa “peculiar e pessoal, muito íntimo e que só a própria pessoa entenderia”, só nos resta concordar. Abrindo a segunda parte do disco, “Don’t Think Twice, It’s All Right” se mostra como mais uma canção que reitera a solidão em que Dylan se encontrava enquanto seu relacionamento com Suze Rotolo parecia mal-resolvido. Já “Bob Dylan’s Dream” representa, segundo o biógrafo Robert Shelton, a perda da inocência de Dylan durante sua adolescência em Hibbing, Minnesota. Visivelmente, um momento do disco que mergulha profundamente na alma de Bob Dylan, com uma trinca de canções íntimas – ou, como aprendemos, idiossincráticas.

“Oxford Town” defende o movimento pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos, ao dar versos e acordes a uma das mais comentadas notícias daquela época: a matrícula do estudante negro James Meredith na Universidade do Mississippi. A longa “Talkin’ World War III Blues”, que como seu título pode transparecer, fala da apreensão pela possível realização de uma nova grande guerra, antecede as duas competentes regravações do disco: as antigas “Corrina, Corrina” e “Honey, Just Allow Me One More Chance”.

É falando sobre a liberdade, com “I Shall Be Free”, que o disco se encerra. É impressionante como Dylan, em treze canções, conseguiu captar com perfeição os anseios dos jovens adultos daquela época, cantando, até mesmo nas regravações, o momento de um país que se transformava. E, realmente, muitas das transformações que ocorreram nos anos sessenta, não só nos Estados Unidos, mas no mundo todo, deveram-se à música e, consequentemente, à influência de Bob Dylan; ele, indubitavelmente, teve uma presença enfática em todas as transformações culturais que revolucionariam o mundo nos anos que se seguiriam.

O fato é que toda a magia e a genialidade presentes em “The Freewheelin’ Bob Dylan” acabaram capturando uma grande leva de ouvintes fanáticos, a se incluir os Beatles. John Lennon, certo dia, lembrou que foi em 1964, em Paris, que ele teve o primeiro contato com a música de Dylan, após Paul McCartney ter conseguido adquirir “The Freewheelin'” a partir de um DJ local. “Por três semanas nós não paramos de ouví-lo”, conta ele. Em 1965, o quarteto de Liverpool lançaria “Rubber Soul”, uma das maiores obras da música, coincidentemente (ou não) tendo visível inspiração na música folk de Bob Dylan.

NOTA: 9,7

Track List: (todas as canções creditadas apenas a Bob Dylan, exceto a 11 e a 12)

01. Blowin’ in the Wind [02:48]

02. Girl from the North County [03:22]

03. Masters of War [04:34]

04. Down the Highway [03:27]

05. Bob Dylan’s Blues [02:23]

06. A Hard Rain’s a-Gonna Fail [06:55]

07. Don’t Think Twice, It’s All Right [03:40]

08. Bob Dylan’s Dream [05:03]

09. Oxford Town [01:50]

10. Talkin’ World War III Blues [06:28]

11. Corrina, Corrina (Tradicional) [02:44]

12. Honey, Just Allow Me One More Chance (Dylan/Thomas) [02:01]

13. I Shall Be Free [04:49]

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