2013: 13 – Black Sabbath

13

Por: Renan Pereira

No início da década de setenta, algo diferente acontecia na música mundial. As cores e a proclamação alucinógena do rock psicodélico perdiam cada vez mais o seu espaço, com o fim dos Beatles e a mudança de direção sonora de muitas bandas clássicas, que voltavam o seu olhar novamente para o blues. Mais do que isso, pode-se dizer que as trevas começaram a tomar conta do rock… Os naquele tempo jovens Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward acabaram criando, através de uma concepção mais atmosférica (e sombria) do blues rock que estava na moda, o que acabou se chamando de heavy metal.

Hoje, em 2013, já fazem quarenta e três anos da estreia em estúdio do Black Sabbath. Nesse tempo todo, obviamente, muita coisa mudou: inclusive o heavy metal não é mais o mesmo. Mas, independente das novas concepções que surgiram nesses anos, tudo que se fez (e se faz) no metal acaba se ligando, de propósito ou involuntariamente, às propostas esculpidas pelo Sabbath em seus primeiros discos. Atualmente, pode-se falar de guerras, morte, loucura, terras medievais ou até conflitos amorosos, mas tudo que é feito no gênero mais pesado na música, e em todos seus sub-gêneros, deve-se à coragem e ao espírito revolucionário que Iommi, Osbourne, Butler e Ward tiveram muito tempo atrás.

Mas, esse mesmo tempo que acabou tornando a formação original do Black Sabbath um conjunto praticamente intocável, também andou prestando serviços negativos aos criadores do heavy metal. Em 1978, cada vez mais afundado nas drogas, e amplamente atingido por um progressivo desgaste com seus companheiros, Ozzy Osbourne acabou sendo demitido do grupo. E embora Ronnie James Dio, um dos melhores vocalistas da história, tenha o substituído, ficava claro que o Sabbath estava sem a sua tão conhecida voz; Ozzy nunca foi um vocalista tecnicamente brilhante como Dio, mas é um intérprete único, o vocalista perfeito para as propostas sombrias do grupo. Logo depois Ward também deixaria a banda e, aos poucos, o Black Sabbath passava a enfrentar um claro processo de declínio.

A banda se arrastava pela segunda metade da década de oitenta, e alcançava o fundo do poço com seus fraquíssimos álbuns noventistas. Provas de que a ideia inicial havia se perdido, e que as antigas concepções ainda se mostravam superiores a tudo o que Black Sabbath estava fazendo. Por isso, uma boa dose de proveitosas conversas foi necessária, e finalmente, a formação original da banda pôde se encontrar novamente – mas apenas nos palcos. Um novo álbum de inéditas com Osbourne, Iommi, Butler e Ward começara a ser planejado em 2001, mas o vocalista ainda parecia muito preocupado com sua carreira solo, e o projeto acabou sendo pausado por um longo tempo… Até que em 2012, finalmente, o tão aguardado novo trabalho foi anunciado.

A ausência de Bill Ward, à primeira vista, pode até ser tratada como um contraponto ao “retorno”. Sim, um integrante original da banda não está presente em “13”, mas… e daí? Embora o baterista tenha seus méritos na construção do Black Sabbath, os três principais membros estão presentes, e o próprio disco trata de dar as provas desta ideia; Ozzy, Tony e Geezer formam um trio mágico, capaz de trazer aos dias de hoje a mesma sonoridade dos velhos tempos. Na bateria, Brad Wilk, do Rage Against the Machine, mostra saber controlar as baquetas muito bem, fazendo tudo certinho e não “metendo o bedelho” no velho e bom blues distorcido que tornou o Sabbath um dos maiores grupos da história.

Sim, a ideia de restabelecer a sonoridade dos primeiros discos da banda foi cumprida – e deu certo. A faixa de abertura, “End of Beginning”, trata de sanar a sede de todos que esperavam o som das antigas. Lá está Tony Iommi, que sempre foi (e sempre será) o grande líder, a figura central da banda, disparando com maestria seus riffs pesados, arrastados, e fazendo propositalmente com que o ouvinte ligue a primeira faixa de “13” à primeira de “Black Sabbath”, canção que dá título à banda e ao seu primeiro disco. Ozzy também se faz presente de corpo e alma, transformando, através de seu vocal inconfundível, versos obscuros em o que pode ser considerado como uma verdadeira narração de um conto de terror.

A produção do disco ficou a cargo do premiado Rick Rubin – e, no fim das contas, muitos dos acertos de “13” devem-se ao produtor. Em suma, o cara fez milagre. Não é segredo para ninguém que Iommi, Osbourne e Butler estão velhos e com suas capacidades diminuídas. Tony inclusive trata de um linfoma, e Ozzy, bem… todo mundo sabe como a saúde do Madman acabou sendo prejudicada pelo uso massivo de ácidos de todas as espécies. Mas, felizmente, Rubin soube muito bem como tirar suco de laranjas velhas, fazendo com que os problemas dos integrantes passem despercebidos no disco. É claro que a energia não é mais a mesma, mas o resultado alcançado pela banda sem dúvida surpreende; no fundo, poucos esperavam por algo tão bom.

A segunda faixa, “God Is Dead?”, é uma música forte que em um primeiro momento parece soar comum, mas cresce a cada audição. Aqui, cabe uma menção ao grande trabalho de Gezzer Butler, já que não pode ser cometido o erro de dar destaque apenas às atuações de Osbourne e Iommi. O baixista sempre deu uma gigantesca contribuição para a construção do som do Sabbath, e em “13” não poderia ser diferente; sua atuação é marcante, com seu estilo inconfundível de tocar, espancando o instrumento.

Mas o álbum gira em torno dos riffs de Tony Iommi, e “Loner” mostra quão incrível o guitarrista ainda pode ser; somente pessoas diferenciadas são capazes de fazer o que ele faz, de criar como ele criou. Mas o Sabbath de agora não é o mesmo grupo do início dos anos setenta, e isso acaba ficando claro quando a banda reconhece suas limitações atuais. Ao contrário dos áureos tempos, o Sabbath não se propõe a revolucionar, modificar constantemente seu som para acompanhar as evoluções do metal: “13” é basicamente o som dos primeiros álbuns da banda, sem mais nem menos. Há até uma busca constante de amarrar as atuais composições a clássicas canções do grupo, como acontece com “Zeitgeist”, uma irmã mais nova de “Planet Caravan”. Proposta aproveitadora? Sim, se o disco não propusesse justamente um retorno às velhas ideias, e não se comportasse como o último álbum do conjunto. “13” é um disco para celebrar os últimos suspiros de uma grande banda, e não pode ser caracterizado como um mero exemplar da gigantesca discografia do grupo.

Seguem “Age of Reason”, a melhor música do disco, e “Live Forever”, com Black Sabbath continuando a ser Black Sabbath… O som que todo mundo conhece, o som que levou tantas pessoas a se apaixonarem pelo gênero que a própria banda arquitetou: nada de novo, mas de qualidade inegável. “Damaged Soul” é uma daquelas músicas capazes de prender o ouvinte por um bom tempo, exigindo dele constantes (e excitantes) audições; de fato, a sétima faixa poderia até fazer parte de algum dos melhores discos da banda.

O desfecho do álbum, e provavelmente da carreira em estúdio da banda, se dá com a ótima “Dear Father”, longa e impegnante, sombria ao máximo, dinâmica, enfim… Black Sabbath em estado puro. No final, os mesmos trovões que balançaram os alicerces da primeira faixa do primeiro disco do grupo dão um claro sinal de que um ciclo se encerra. Muito obrigado, Black Sabbath. Até quem não é fanático por heavy metal deve agradecer a imensa contribuição que você deu para a música.

E aqui, provavelmente, despede-se uma das mais importantes bandas da história…

NOTA: 7,3

Track List:

01. End of the Beginning [08:05]

02. God Is Dead? [08:52]

03. Loner [04:59]

04. Zeitgeist [04:37]

05. Age of Reason [07:01]

06. Live Forever [04:46]

07. Damaged Soul [07:51]

08. Dear Father [07:20]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s