2006: Polaris – Pública

Polaris

Por: Renan Pereira

Na metade da década passada, o mundo indie se encontrava em total estado de empolgação. Enquanto na América do Norte o The Strokes cada vez mais se firmava como uma banda de sucesso, e o Arcade Fire encantava os ouvintes com seu “Funeral”, o rock britânico parecia reviver seus anos de glória com os trabalhos de bandas como Franz Ferdinand, The Libertines, Snow Patrol e Kaiser Chiefs… Ainda haveria o tão aguardado e bombástico primeiro álbum do Arctic Monkeys, enfatizando o massivo crescimento de aceitação que o indie rock experimentava naquela época.

Embora os ares de uma nova era do rock permeassem com mais força as paisagens do primeiro mundo, não dá para deixar de fora daquela atmosfera o que acontecia no Brasil – e ao contrário do que muitos pensavam, o indie rock tupiniquim não se limitava às barbas de Camelo e Amarante. Lá no sul do país a banda Pública iniciava sua jornada de estúdio em grande estilo, deixando claro que em nosso país a música indie poderia alcançar um resultado tão satisfatório quanto nas terras anglo-saxônicas do Hemisfério Norte.

Parte deste bom resultado, que é refletido no primeiro álbum da Pública, pode ser relacionado, de forma inevitável, à bagagem absorvida pelo grupo antes mesmo da gravação de seu debut: apesar de “Polaris” ter sido lançado em 2006, a banda já estava em atividade desde 2001, o que fez que praticamente fossem eliminados do registro os aspectos de insegurança e busca de personalidade que muitas vezes permeiam discos de estreia.

Utilizando tal vivência, a Pública se sentiu com totais condições de transformar suas principais referências, vindas lá do pop-rock britânico de diferentes décadas passadas, em concepções modernas, ao mesclá-las com o indie rock que fazia a cabeça de muitos mundo afora. Com isso, em “Polaris” é possível ouvir a música de bandas como The Beatles, The Kinks, The Smiths, Blur e Radiohaed, transfiguradas em um cenário ineditista, genuinamente atual, que em nenhum momento soa repetitivo ou aproveitador.

Através dos grandes riffs de guitarra de Guri Assis Brasil surge a primeira faixa, a pulsante “Nem Sinal”, que já dá todos os sinais do tipo de música que envolverá o álbum: uma proposta melódica, que reúne com maestria o rock do passado e do presente; a canção, que passeia por um cenário melancólico, através dos lirismos tristes sobre fim de relacionamento da letra de Pedro Meltz, é uma faixa de abertura impecável, já escancarando a qualidade da Pública em construir belos arranjos instrumentais. A segunda, “Precipício”, segue a mesma linha da primeira, tanto na letra quanto nos arranjos: mais um espetáculo de riffs melódicos, uma bela aula de alocação de instrumentos, e a solidão após o término de uma relação mal resolvida – só que, desta vez, mostrando pensamentos mais esperançosos, e até alguma ideia de superação.

Entregando-se aos riffs energéticos que o Franz Ferdinand havia apresentado em seu disco de estreia, a Pública constrói, em “Tempo”, mais uma faixa altamente atrativa, onde mais uma letra competente e uma melodia impregnante se fazem presentes. Já “Bicicleta” parece querer romper a proposta das três primeiras canções do disco, buscando algo maior através de flertes com o psicodelismo; ruma, durante seus quatro minutos, por uma via sinuosa, onde as paisagens mudam constantemente, recordando com maestria (e com alguns alucinógenos) os tempos de passeio sobre duas rodas, e criando, dessa forma, um delicioso número nostálgico. A faixa-título aposta em uma sonoridade mais sombria, através de uma pesada linha de baixo; apesar da guitarra guiar o instrumental (assim como em todas as outras faixas do disco), não há como não destacar o ótimo trabalho do tecladista João Amaro, sempre dando um tempero atraente, um algo a mais às canções.

“Lugar Qualquer” tem uma linha de baixo extremamente melódica, na qual o responsável pelo instrumento, Guilherme Almeida, parece querer recordar, a todo momento, o trabalho realizado por Paul McCartney a frente dos Beatles; pra variar, temos aqui mais uma bela canção, que através de arranjos cativantes e de mais uma competente exploração do tema “solidão”, continua a dar ao disco contornos altamente assertivos. Tido como um clássico para os corações solitários, o grande single do álbum, “Long Plays”, é uma daquelas músicas que, mesmo pensada para atingir o grande público, não deixa de se amarrar ao restante do álbum, ajudando a construir a ideia do disco como uma unidade, e não apenas como um mero conjunto de canções… é, enfim, o número que melhor condensa a musicalidade de “Polaris”, sendo, portanto, a canção perfeita para quem se depara com a banda pela primeira vez.

“Tuas Fotos” é uma faixa semi-acústica que, ao explorar as emoções do personagem ao pensar nas fotos do antigo amor, acaba construindo um número voltado às lembranças, tendo como atrativos mais uma letra caprichada e mais um conjunto impecável de arranjos. Com uma linha de baixo pulsante, “Das Falsas Intenções” carrega um sentimento praticamente de imploração, com o personagem vagando pelo desespero, desejando uma mudança; até por isso, a atmosfera da canção mostra-se propositalmente densa, mergulhando fundo na tristeza da solidão.

Uma das grandes qualidades demonstradas pela Pública é saber medir suas canções, nunca as deixando se descontrolar, estabelecendo, dessa forma, um rumo quase metódico, mas que em nenhum momento deixa transparecer sinais de inaturalidade – talvez o controle, afinal, seja o que há de mais natural na sonoridade da banda. Mas o fato é que, ao estabelecer suas canções dentro de um “padrão métrico”, a Pública faz com que “Polaris” nunca atinja um resultado maior ou menor do que se propôs… Em suma, o disco é consciente, sem exagerar ou cair no marasmo. E assim é a penúltima faixa, a bonita “Sobre a Estrada”, que apresenta (pra variar) mais um show de instrumentação.

“Raymond” é a última e mais longa faixa do álbum, com mais de seis minutos de duração; se trata de um grande número dolorido, que flerta com o psicodelismo enquanto despeja versos sofridos, lidando com arranjos instrumentais altamente dinâmicos. Aliás, é o próprio dinamismo uma das grandes surpresas do disco, uma qualidade que fez “Polaris” soar atraente a todo instante, embora se entregue basicamente ao mesmo tema em todas as suas onze faixas. São canções doloridas, compostas por um coração partido, inundado pela solidão, mas que, tratadas com talento e muito conhecimento musical, ganham uma atratividade envolvente.

“Polaris” é, no fim das contas, um marco. Não apenas por ser um dos melhores trabalhos já lançados por uma banda gaúcha, ou por ter sido um dos mais caprichados álbuns de indie rock de sua época. O disco, além de ser um contraponto a tudo que se fazia no Brasil naqueles anos (com a influência do Los Hermanos gerando propostas absurdamente repetitivas, ou que procuravam se desgrudar das concepções assertivas da música britânica), é a pedra fundamental de uma carreira altamente consistente, de qualidade inegável. Seus sucessores, “Como num Filme sem um Fim”, de 2009, e “Canções de Guerra”, de 2011, acabaram mostrando, afinal, que os êxitos da Pública em seu disco de estreia não eram um simples fogo de palha; se tratava, na verdade, do nascimento de uma das melhores discografias dos últimos tempos da música brasileira.

NOTA: 8,6

Track List:

01. Nem Sinal [03:17]

02. Precipício [03:12]

03. Tempo [03:43]

04. Bicicleta [04:07]

05. Polaris [03:49]

06. Lugar Qualquer [03:52]

07. Long Plays [03:34]

08. Tuas Fotos [03:36]

09. Das Falsas Intenções [02:52]

10. Sobre a Estrada [03:10]

11. Raymond [06:16]

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