2013: Random Access Memories – Daft Punk

Random Access Memories

Por: Renan Pereira

Os robôs mais famosos da música mundial voltaram, mas mais humanos do que nunca. Se o último álbum de estúdio deles, “Human After All”, de 2005, discutia o processo de humanização das máquinas, relembrando as ideias de inteligência artificial plantadas por Isaac Asimov, parece que agora, oito anos depois, este processo acabou atingindo, enfim, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo.

“Random Access Memories”, com isso, acaba sendo um álbum surpreendente. Não por reinventar a roda, ou por ser superior a tudo o que o duo francês já realizou… Na verdade, nem um, nem o outro. Apesar das vozes robóticas continuarem, aqui ou acolá, permeando a música do Daft Punk, para que o ouvinte entenda o disco, é necessário, primeiramente, desprender-se do som que havia construído até agora a carreira dos caras. Não que a música eletrônica tenha sido abandonada, ou que o Daft Punk tenha se vendido ou se alterado de forma irresponsável – nunca espere isso de Bangalter e Homem-Christo, músicos extremamente profissionais e que aceitam viver o papel de cardeais da música eletrônica atual. O Daft Punk continua a ser o Daft Punk, só que agora mais sutil e intimista.

Os fãs que queriam um novo “Discovery” têm olhado torto para o novo álbum, o que é, na verdade, mais do que normal: afinal, “Random Access Memories” não é nada do que eles esperavam. De forma surpreendente, Bangalter e Homem-Christo voltaram seus olhares metálicos para o passado, encontrando na música de trinta, quarenta anos atrás, o cenário perfeito para a humanização do projeto. Isso, em um primeiro momento, com a mais errônea das visões, pode até soar copioso e aproveitador, até porque eles sempre foram responsáveis pela evolução da música eletrônica, e não pela volta ao passado…

Mas quem disse que visitar ideias passadas significa, necessariamente, ser retrógrado? De jeito nenhum! Embora alguns projetos – mais recentemente o The Strokes – tenham alocado seus trabalhos em ideias antigas e finjam fazer parte daquela época (criando registros datados que pouco combinam com os dias de hoje), a utilização das ideias passadas, quando bem pensadas, acabam se mostrando altamente satisfatórias; e assim é, felizmente, com “Random Access Memories”. Apesar de estarem recordando as antigas glórias da dance music, Bangalter e Homem-Christo utilizam essa base empoeirada para trazer um toque mais sensível à música eletrônica atual.

Provas disso já estão presentes na primeira faixa do registro, “Give Life Back to Music”, que pelo título já procura defender o retorno da música disco para humanizar os rumos atuais das pistas de dança: uma pitada de “política” à música do Daft Punk. Mas questões filosóficas a parte, o álbum não poderia começar melhor, com uma faixa dançante, competente tanto na melodia quanto no ritmo, repleta de grooves inteligentes… Sim, ainda são vozes robóticas, mas cantando música de ser humano.

E o que dizer de “The Game of Love”? Canção romântica, algo que ninguém imaginava que o Daft Punk seria capaz de fazer algum dia. Mas se fosse apenas uma canção de amor não surpreenderia tanto assim; o fato que mais causa espanto é que, no fim das contas, se caracteriza por ser uma canção carregada de puro sentimento, nada robótica: uma baladona arrebatadora, uma daquelas músicas de fim de baile de cortar o coração. Definitivamente, os rumos do projeto são outros.

A terceira, “Giorgio by Moroder”, é uma faixa crucial, uma das mais importantes do álbum e de toda a ideia por ele plantada. Se trata, afinal, de uma grande ode à dance music, homenageando e ao mesmo tempo contando com a colaboração (e com um discurso) de Giorgio Moroder, produtor italiano que é considerado um dos principais nomes da história da música de pista… Em uma fala que faz pensar, e inclusive dá uma espécie de lição a muitos produtores de hoje em dia, Giorgio diz: “assim que você liberta sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. Musicalmente, a canção lida basicamente com a evolução da dance music, iniciando-se simples, brincando com o funk, crescendo aos poucos para chegar, finalmente, a uma grandiosa atmosfera de sintetizadores, permeada por energéticas linhas de baixo e bateria.

Depois de um início fantástico, “Random Access Memories” acaba experimentando concepções que não estão no mesmo nível das melhores faixas do registro, e por isso soam deslocadas, distantes da proposta central… Assim são a melancólica “Within”, que soa legal mas sem empolgar, e a oitentista “Instant Crush”, que além de contar com a colaboração de Julian Casablancas, poderia muito bem ter sido lançada em “Comedown Machine”.

No momento setentista mais claro do álbum, “Lose Yourself to Dance” se caracteriza, como seu próprio título transparece, com um número pensado exclusivamente para a dança; bebendo da disco music, e se amarrando a conceitos pop através da presença de Pharrell Williams, soa como uma deliciosa e divertida audição. A seguinte, “Touch”, é uma canção sensível, agradável, que traz na colaboração do veterano Paul Williams um ponto altamente positivo.

A altamente pop “Get Lucky” é o grande single do álbum, trazendo Pharrell Williams no vocais e um espetáculo de Nile Rodgers na guitarra. “Beyond” tem um início surpreendente, magnífico, com uma verdadeira explosão de sintetizadores a brincar com a música erudita; mas o que temos, no fim, é mais uma canção rodeada pela música setentista, repleta de grooves e até de certa calmaria… Esqueça as apostas frenéticas que não deixam o ouvinte sequer respirar, porque agora o sentimento e a melodia parecem ter muito mais valor ao Daft Punk.

“Motherboard” é uma aposta que busca um caminho mais lisérgico, e que acaba se caracterizando por ser uma canção mal resolvida, ficando muito abaixo das melhores de “Random Access Memories” – mas, como o processo de humanização parece ter atingido com tudo Bangalter e Homem-Christo, cabe dizer que “errar é humano”. Contando com a co-autoria do produtor norte-americano Todd Edwards, “Fragments of Love” é mais um daqueles números extremamente agradáveis apresentados pelo álbum, uma música deliciosa para dançar, relaxar, ouvir no carro, na caminhada… enfim, um deleite para caixas de som e fones de ouvido.

Das parcerias realizadas pelo Daft Punk em “Random Access Memories”, nenhuma soa tão curiosa e interessante quanto a realizada com Noah Lennox (Panda Bear), líder do Animal Collective, na décima-segunda faixa do registro, “Doin’ It Right”, uma memorável canção que faz com que as velharias do álbum alcancem, sem foçar a barra, as concepções mais atuais da música eletrônica – em um verdadeiro misto de sentimento e modernidade, sem descambar para ideias impessoais.

Mas o mais impressionante acaba ficando para o fim… “Contact” já pode ser considerada um clássico da música eletrônica. Mesclando as memórias setentistas e oitentistas de Bangelter e Homem-Christo com o fundo robótico de “Discovery”, a faixa final é um turbilhão avassalador, energético e emocional, que parte do passado para construir o futuro e elevar a mente dos ouvintes a uma outra dimensão. Sem dúvida, uma perfeita canção de encerramento, que acaba deixando o ouvinte com a melhor das impressões.

No livro “I, Robot”, de 1950, Isaac Asimov apresentou as chamadas Três Leis da Robótica. A primeira dessas leis diz que “um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal”… Ora, ora, mas o que são canções como “The Game of Love” e “Within”, senão grandes exploradoras das mazelas da alma humana? Já a Segunda Lei da Robótica fala que “um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei”. Pois bem, enquanto muitos fãs ortodoxos do Daft Punk esperavam um novo “Discovery”, o que Bangalter e Homem-Christo fizeram? Sim, não ligaram a potenciais “ordens”, e simplesmente fizeram o que queriam fazer.

“Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis”, diz a Terceira Lei. O que “Random Access Memories” deixa claro, por outro lado, é o desejo do Daft Punk de se libertar do passado robótico, abandonar sua existência como máquina… Uma experiência que, no fim das contas, acaba dando muito certo, resultando na convincente humanização de um dos melhores projetos musicais dos últimos tempos.

NOTA: 8,2

Track List:

01. Give Life Back to Music (Bangalter/Homem-Christo/Jackson Jr./Rodgers) [04:34]

02. The Game of Love (Bangalter/Homem-Christo) [05:21]

03. Giorgio by Moroder (Bangalter/Homem-Christo/Moroder) [09:04]

04. Within (Bangalter/Homem-Christo/Gonzales) [03:48]

05. Instant Crush (Bangalter/Homem-Christo/Casablancas) [05:37]

06. Lose Yourself to Dance (Bangalter/Homem-Christo/Rodgers/Pharrell Williams) [04:34]

07. Touch (Bangalter/Homem-Christo/Caswell/Paul Williams) [08:18]

08. Get Lucky (Bangalter/Homem-Christo/Rodgers/Pharrell Williams) [06:07]

09. Beyond (Bangalter/Homem-Christo/Caswell/Paul Williams) [04:50]

10. Motherboard (Bangalter/Homem-Christo) [05:41]

11. Fragments of Time (Bangalter/Homem-Christo/Todd Imperatrice) [04:39]

12. Doin’ It Right (Bangalter/Homem-Christo/Lennox) [04:11]

13. Contact (Bangalter/Homem-Christo/Quême/Porter/Mitchell/Braithwaite) [06:21]

Anúncios

Uma opinião sobre “2013: Random Access Memories – Daft Punk”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s