1983: Kill ‘Em All – Metallica

Kill 'Em All

Por: Renan Pereira

Colossal. Assim pode ser rotulada a carreira do Metallica, não só apenas uma das melhores bandas de metal, mas um dos maiores grupos de todos os tempos. Formado no ano de 1981, na cidade de Los Angeles, o conjunto nasceu a partir da vontade do baterista Lars Ulrich em formar uma banda de metal, e de sua iniciativa de colocar o desejo nas folhas de um jornal. James Hetfield acabou respondendo ao anúncio, e pouco tempo depois o grupo já era oficialmente formado. Após mais um anúncio no mesmo jornal (que dessa vez procurava um guitarrista para fazer os solos), Dave Mustaine acabou sendo recrutado. Em 1983, quando a banda já excursionava, Cliff Burton acabou ficando a cargo do baixo, e o line-up inicial foi finalmente completado.

O primeiro álbum da banda começou a ser gravado em maio de 1983, mas devido à convivência difícil com Mustaine, que abusava do uso de drogas, o início da vida em estúdio do Metallica acabou se mostrando altamente conturbado. Tanto que o guitarrista, que tanto havia colaborado com as primeiras concepções sonoras da banda, acabou sendo expulso pelos outros integrantes – que trataram de recrutar, no mesmo dia, Kirk Hammett (que tocava no Exodus) para substituí-lo. Outro problema acorreu em função do título do álbum: “Metal Up Your Ass” era o desejo inicial dos integrantes, mas a recusa da gravadora em lançar um trabalho com esse título acabou gerando um novo conflito – forçando, no fim, a alteração para “Kill ‘Em All”.

A sonoridade do disco, assim como costuma ocorrer nos primeiros álbuns de quase todos os projetos musicais, reflete os primeiros tempos da banda, escancarando-a em processo de formação. Tanto que ao contrário dos discos posteriores, construídos muitas vezes acima de conceitos complexos e concepções ambiciosas, o debut do Metallica é muito marcado pela simplicidade das ideias joviais, que acabaram inserindo uma energia inigualável à estrutura do metal; pois bem, foi mesclando ideias genuinamente norte-americanas com o som de bandas inglesas como Diamond Head, Judas Priest, Iron Maiden e Motörhead, que o Metallica, logo em seu debut, acabou se tornando o grupo mais emergente de seu gênero, e se não criou, foi o grande responsável por popularizar o que se conhece por thrash metal.

Com “Hit the Lights”, o álbum tem um início arrebatador, pesado e veloz, rodeado por uma explosão de riffs que exalam poder; a guitarra de James Hetfield conduz a canção com brilhantismo, enquanto Lars Ulrich já dava provas de que ali tocava um dos melhores bateristas de sua época. É, enfim, uma música que pode ser descrita como o perfeito casamento da técnica característica dos músicos do Metallica com a alta energia do primeiro álbum da banda, um número consistente que acabou se tornando uma espécie de “marca registrada” das primeiras ideias do grupo.

“The Four Horseman”, música cujo título faz referência aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, havia sido primeiramente composta por Mustaine, sob o nome de “The Mechanix”. Após a saída de Dave, Hetfield tratou de modificar a letra, e uma nova seção contendo um melódico solo de guitarra acabou sendo adicionada. Além de conter uma das melhores letras do primeiro álbum, a canção é uma grande demostração da qualidade de James Hetfield como vocalista, e se seu instrumental não é tão veloz quanto o da primeira faixa, trata-se de uma concepção mais dinâmica, que se aventura um pouco mais, alcançando em certo nível o hard rock da segunda metade da década de setenta.

“Motorbreath” não é uma das faixas mais atraentes de “Kill ‘Em All”, mas nem por isso deixa de ótima: contém uma introdução de bateria excelente, seus riffs são interessantes, velozes, e sua uma qualidade rítmica é impecável; ela decai, enfim, apenas nos solos de guitarra, que aqui se mostram surpreendentemente carentes de criatividade. Já a seguinte, “Jump in the Fire”, é uma das mais fortes concepções do Metallica em seus primeiros anos, lidando com uma proposta sombria que não deixa o som da banda se afastar das alegorias de outros grandes grupos do metal, como Black Sabbath e Iron Maiden.

Se Cliff Burton não falasse “bass solo, take one” no início de “(Anesthesia) – Pulling Teeth”, o ouvinte poderia muito bem pensar que se trata de um solo de guitarra… Sim, porque em um primeiro momento, até James Hetfield havia pensado dessa forma. Até por isso, apesar de ser apenas um rápido instrumental, a quinta faixa constrói um dos momentos mais surpreendentes de “Kill ‘Em All”, em que Burton, em uma performance sobre-humana, fazendo um fantástico uso de wah-wah e tapping, oferece aos ouvintes algumas notas de genialidade.

“Whiplash” é um clássico da banda, uma canção extremamente veloz, com riffs sensacionais e uma fantástica linha de bateria; se trata de um grande hino headbanger, uma explosão de adrenalina, uma das composições preferidas dos fãs. Já “Phantom Lord”, além de mais dinâmica, é mais atmosférica e sombria, uma canção que poderia muito bem fazer parte da trilha sonora de qualquer filme de terror; talvez seja a música que mais se aproxima das ambiciosas concepções sonoras dos discos posteriores, demonstrando que o Metallica poderia muito bem realizar, dentro de um futuro próximo, algumas das maiores obras da história do metal.

“No Remorse” é mais uma grande faixa, onde tudo parece estar perfeitamente alocado em seu devido lugar, e todos os instrumentos se completam; é a prova (se é que o disco ainda tinha que provar alguma coisa) da solidez das concepções da banda, embora ela fosse apenas uma estreante em estúdio, e tantas dificuldades houvesse enfrentado para a construção do seu debut. A famosíssima “Seek & Destroy” é um número de uma agressividade impregnante, com seus riffs memoráveis que atingem o nosso cérebro rumo ao êxtase; é um hino pulsante, considerado, por muitos, o ápice de “Kill ‘Em All”. E como última faixa, que tal a música que é “somente” a mais veloz do disco? Pois bem, “Metal Militia”, outra co-autoria de Dave Mustaine, é o número que o álbum precisava para se encerrar com chave de ouro: pesado, energético, técnico e empolgante.

Um grande registro de estreia, sem dúvida. Um trabalho conciso e competente, que cumpre muito bem o seu papel do início ao fim, apresentando ao mundo uma banda incrivelmente capaz; afinal, com a técnica e a adrenalina apresentadas por “Kill ‘Em All”, ficava claro que ali nascia um dos maiores expoentes do gênero. Porém, o Metallica cresceria, e não só em fama: seu disco seguinte, “Ride the Lightning”, mostraria uma banda que elevava a passos largos a complexidade de seu som, começando a lidar com temas complexos e estruturas sonoras magníficas. As rusgas com Dave Mustaine diminuiriam, as guitarras se tornariam épicas, e o baixo se tornaria parte fundamental dos paredões sonoros criados pela banda: seja em “Master of Puppets”, ainda com Cliff Burton, ou em “…And Justice for All”, com Jason Newsted. Enfim, apesar de ótimo, “Kill ‘Em All” não é o amadurecimento total do Metallica, e sequer está entre as maiores obras da banda… Mas é o importante e fundamental nascimento das ideias que tornariam o Metallica um grupo gigantesco.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Hit the Lights (Hetfield/Ulrich) [04:16]

02. The Four Horsemen (Hetfield/Ulrich/Mustaine) [07:13]

03. Motorbreath (Hetfield) [03:08]

04. Jump in the Fire (Hetfield/Ulrich/Mustaine) [04:41]

05. (Anesthesia) – Pulling Teeth (Burton) [04:15]

06. Whiplash (Hetfield/Ulrich) [04:10]

07. Phantom Lord (Hetfield/Ulrich/Mustaine) [05:02]

08. No Remorse (Hetfield/Ulrich) [06:26]

09. Seek & Destroy (Hetfield/Ulrich) [06:55]

10. Metal Militia (Hetfield/Ulrich/Mustaine) [05:09]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s