2013: Silence Yourself – Savages

Silence Yourself

Por: Renan Pereira

Selvagens: não apenas a tradução literal do nome da banda, mas do que, de fato, ela é a formada. A primeira impressão, porém, é que o ouvinte acabará embarcando em mais um disco simplesmente melancólico, refletindo as dores e os descaminhos amarosos de jovens garotas. Mas, para início de conversa, o público que não se deixe enganar: as expressões sisudas e de quase contemplação das integrantes da banda na capa do disco não são nada mais que o ponto de partida para um registro raivoso e barulhento, apesar do título do álbum anunciar um suposto “silenciamento”.

Mas algumas coisas realmente são o que parecem. Veja as cores da capa do álbum (ou a falta delas) e já se tornará claro em que tipo de ambiente a sonoridade do registro se aloca. Pois bem, “Silence Yourself” parece realmente ter saído das mais profundas sombras de um cenário enevoado, em que as mágoas femininas se transformam em versos ásperos, vocais estridentes e ruídos agressivos. Portanto, esqueça-se do tal “sexo frágil”, e acompanhe o quanto as mulheres podem ser fortes e combativas – ou até mesmo selvagens.

O que Jehnny Beth e suas companheiras querem passar é, enfim, aquela ideia do “cansei de ser boazinha”. Relacionamentos vêm e vão, o tempo passa e as mágoas só se acumulam, e a decepção com o sexo masculino acaba chegando em um ponto em que a tolerância se desfaz, abrindo espaço para uma tristeza ríspida e o total desapego de qualquer docilidade. É como se as garotas quisessem se libertar, afirmar sua coragem e mostrar quão hostil o universo pode ser, em uma atitude que se desprende da vaidade e parte para o ataque, perfazendo um conjunto de faixas que parecem submeter o machismo a verdadeiros chutes nas partes baixas.

O primeiro desses “golpes baixos” é “Shut Up”, que surge em meio a ruídos e muita sujeira, enfatizando o lado obscuro que será explorado por todo o registro; com uma pesadíssima linha de baixo, a canção se apoia em um instrumental característico do pós-punk, revivendo características de bandas alternativas da década de oitenta para envolver os versos cheios de atitude de Jehnny Beth. Barulhenta, “I Am Here” contém uma grande quantidade de riffs raivosos, que se impregnam nos ouvidos quase de forma abrupta, forçada, trabalhando para injetar ainda mais agressividade à sonoridade da banda. Da mesma forma é “City’s Full”, dando fortes “porradas sonoras” em mais uma base instrumental pra lá de abrasiva.

Mas, por mais que a intensidade do instrumental perfeitamente atmosférico seja um grande ponto positivo do disco, delineando as ideias e esclarecendo o seu propósito, não há como tirar de Beth os grandes méritos “conceituais” do registro: as letras da vocalista são o que constroem a personalidade do grupo, transformando essas garotas aparentemente inofensivas em seres de selvageria inegável. Provas disso estão por todo o álbum; muito embora o conjunto de faixas mostre nos riffs sujos de Gemma Thompson e nas linhas de baixo de Ayse Hassan um padrão sonoro imensamente atrativo, está nos versos de Jehnny Beth a real força que faz de “Silence Yourself” um registro de destaque. A quarta faixa, a fortíssima “Strife”, é inclusive uma boa prova dessa ideia.

Segue a igualmente ruidosa “Waiting for a Sign”, mantendo o álbum em seu devido patamar: muito barulho e sujeira em uma musicalidade tradicionalmente pós-punk, enquanto Beth dispara suas raivas através de versos estrondosos. Mas a sexta faixa, “Dead Nature”, é número curioso, totalmente inesperado, em que os ruídos de guitarra constroem mais um número ambientado nas sombras, mas especialmente silencioso, carregado de mistério; é como se as garotas, perfazendo um instrumental pra lá de tenebroso, quisessem assustar os seus ouvintes. Mas, no fim das contas, o que temos é apenas uma introdução para a sétima e mais poderosa canção do registro; “She Will” é primorosa, passeando de Joy Division a PJ Harvey com uma qualidade assombrosa. Aliás, fazer sua música soar inédita mesmo se amarrando a ideias do passado é uma das grandes virtudes deste álbum.

Investindo na qualidade rítmica, com uma colossal de linha de baixo, “No Face” é mais um número formidável, afirmando quão consistente o álbum pode ser – conseguindo atrair do início ao fim. Porém, deve ser observado que, na reta final de “Silence Yourself”, as composições parecem deixar de soar como um grito liberativo, deixando-se envolver pelo caos enquanto começam a clamar por um desfecho sentimental… E aí mora, enfim, o significado do título do trabalho, que em um primeiro momento havia soado tão estranho: amparada pelo texto na capa do disco, a ideia que se prega é desconstruir, para que depois tudo seja colocado devidamente em seu lugar, e, no fim, resignar-se ao silêncio. É como em uma discussão, onde primeiramente os defeitos são reclamados, tenta-se chegar a uma solução, e depois o que resta é apenas lidar com o resultado final.

A pulsante “Hit Me” é uma concepção clara desse aspecto caótico, soando intensa e sofrida, almejando algo que parece ainda não estar ao alcance. A penúltima, “Husbands”, pode ser descrita como o perfeito entrosamento entre as integrantes, em que todas parecem dar o máximo de si, e em igual proporção, para criar um primoroso número post-punk; é, enfim, a música que melhor reúne a sonoridade característica da banda, com Fay Milton espancando a bateria, Ayse Hassan construindo extraordinárias bases de baixo, Gemma Thompson invadindo nossos ouvidos com uma raivosa construção de riffs e Jehnny Beth gritando seus versos rispidamente magoados. Já a última, “Marshal Dear”, é a melhor forma possível de finalizar um registro deste porte emocional, buscando e alcançando, através de sua atmosfera gótica, o desfecho conceitual do disco; com fantásticos arranjos, mesclando o barulho com o silêncio, é uma concepção final não apenas da musicalidade do álbum, mas também da filosofia pregada pela banda… No finalzinho, um solo de clarinete com o acompanhamento de um piano mostra a conclusão das abordagens sujas e, enfim, o silêncio.

“Silence Yourself”, e até mesmo este texto, poderiam muito bem ser mal interpretados por alguns… Feminista? Ah, longe, muito longe disso. É fato que Jehnny Beth e sua trupe atacam o sexo oposto, mas o que faria uma banda de homens, nesse caso, senão a mesma coisa? Distantes de qualquer aspecto que poderia tornar sua música fechada apenas ao público feminino mais desiludido, as Savages acabaram construindo algo muito maior que um simples capítulo da famigerada “guerra dos sexos”. A música das garotas é abrangente, atacando as dores e pregando sua filosofia de desconstrução de forma a atingir o mais variado grupo de ouvintes. Afinal de contas, Beth, Thompson, Hassan e Milton não são simples exemplares do sexo feminino: mais do que mulheres, elas são selvagens.

Mas se fosse apenas consistente em seu conceito, “Silence Yourself” não acabaria se tornando um álbum de destaque. Para servir de base para suas ideias, o registro acaba revivendo, de forma competente, os elementos do antigo post-punk, tão esquecido nos dias de hoje, a praticamente revisitar as glórias de grandes grupos como Wire e Joy Division – mas aplicando tais elementos, felizmente, no mundo atual.

Com isso, as Savages conseguem fazer de seu primeiro disco um trabalho extremamente convincente, em que os ruídos e os versos se completam, trazendo aos dias de hoje um pouco da agressividade há muito perdida pela maioria das bandas de rock. Curiosamente, pode-se concluir que coube a quatro mulheres fabricar um dos álbuns mais “machos” dos últimos tempos.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Shut Up [04:48]

02. I Am Here [03:20]

03. City’s Full [03:27]

04. Strife [03:57]

05. Waiting for a Sign [05:25]

06. Dead Nature [02:06]

07. She Will [03:27]

08. No Face [03:35]

09. Hit Me [01:41]

10. Husbands [02:50]

11. Marshal Dear [04:03]

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