1969: Five Leaves Left – Nick Drake

Five Leaves Left

Por: Renan Pereira

Um dos personagens mais intrigantes da história da música popular. Assim pode ser rotulado o inglês Nick Drake, um artista genial e obscuro que construiu a sua carreira entre o fim dos anos sessenta e o início dos setenta, através de uma maravilhosa discografia de apenas três discos, e nada além. Sim, sua carreira oficial como músico é refletida basicamente pelos seus lançamentos de estúdio, pois ao contrário da grande maioria dos músicos que se tem notícia, Drake não era uma figura que gostava de se expor: sempre foi avesso a fotos, entrevistas e shows. No fim das contas, seu comportamento peculiar, extremamente anti-comercial, lhe rendeu um grande insucesso financeiro, sendo que, apesar de ser considerado um dos mais brilhantes compositores de sua época, morreu pobre e sem receber o devido reconhecimento.

Nick Drake era uma pessoa tão fechada que até hoje em dia, com a imensa quantidade de dados que a internet nos dispõe, não é fácil arrumar informações sobre o artista, principalmente sobre a época em que se consolidou como músico profissional: há poucas fotos, e pelo que se sabe, apenas um vídeo em que ele supostamente aparece, caminhando de costas no meio do público durante um festival de música folk. Conta-se, porém, que desde criança Drake havia sido uma pessoa fechada, e recebeu de sua mãe (que também compunha) o grande empurrão que o levou a se tornar um artista. Pessoa inteligentíssima, estou literatura inglesa na Universidade de Cambridge, e passou seis meses na Universidade de Aix-Marseille, na França. Foi nesse período em que ele começou a tocar violão e fumar maconha, sendo que seu vício em alucinógenos só veio a crescer exponencialmente, principalmente quando se tornou usuário de LSD.

Estudante pouco dedicado, Drake passava grande parte do tempo fumando enquanto ouvia e tocava música – e nesse ponto seu interesse pela música folk acabou crescendo, inspirado por nomes como Bob Dylan, Josh White e Phil Ochs. Começou a se apresentar, com outros músicos, em alguns pequenos clubes e cafés da região de Londres, e em um desses shows acabou chamando a atenção de Ashley Hutchings, que na época tocava baixo na famosa banda folk Fairport Convention. Hutchings então apresentou Drake ao jovem produtor norte-americano Joe Boyd, que viria a se tornar o grande mentor da carreira de Drake.

Com produção assinada por Boyd, o primeiro álbum de Drake, “Five Leaves Left”, começou a ser gravado em 1968, com o produtor tentando realizar algo que se aproximasse à sonoridade do primeiro álbum do canadense Leonard Cohen, procurando dar maior destaque à voz de Drake a partir de tons intimistas. Mas como Nick Drake não era uma daquelas pessoas muito fáceis, as sessões de gravação do disco mostraram-se conturbadas, com o produtor optando por água enquanto o músico queria vinho. Para amenizar a situação, um velho amigo de Drake, Robert Kirby, foi recrutado para cuidar dos arranjos do disco.

Depois de longos e difíceis meses finalmente o álbum foi finalizado. A irmã de Drake, Gabrielle (que ironicamente viria a se tornar uma atriz de relativa fama), conta que Nick “foi muito sigiloso. Eu sabia que ele estava fazendo um álbum, mas não sabia que o trabalho já estava concluído até que ele entrou no meu quarto e disse: ‘Aqui está’. Ele jogou-o sobre a cama e caminhou para fora”.

No fim das contas, todo o comportamento excêntrico de Drake acabou inserindo-se em sua música. Pessoa demasiadamente quieta, representou em sua composições muita tristeza e solidão, construindo (a partir dos três álbuns que gravou) um catálogo de canções intimistas e melancólicas. O primeiro aspecto desse conjunto é apresentado em “Time Has Told Me”, a belíssima primeira faixa de “Five Leaves Left”, uma canção forte, extremamente sentimental, em que podemos contemplar, a partir dos sentimentos de Drake e da sua grande técnica no violão, o que é apenas a primeira de suas formidáveis canções.

Como as composições de Drake são profundas, atingindo de forma certeira a alma dos ouvintes… Poética, marcante ao máximo e de uma beleza extrema, “River Man” é uma canção perfeita: os arranjos misteriosos, os tristes acordes de violão, o forte e sentimental vocal… enfim, tudo, absolutamente tudo constrói um número fantástico, uma obra artística irretocável. Se é um exercício praticamente impossível dizer qual é a melhor das composições de Drake, pode-se afirmar, pelo menos, que a segunda faixa de “Five Leaves Left” está com certeza entre as melhores.

É impressionante como Drake conseguia criar arranjos formidáveis apenas com seu violão; e é com uma técnica sobre-humana ao instrumento que ele constrói a forte “Three Hours”, uma longa canção ambientada em clima soturno, em que a percussão e o vocal assombroso de Drake espalham mistério e introspecção a todo momento. Apesar do compositor quase sempre nos atingir com números melancólicos, é provável que nenhum supere “”Way to Blue” neste aspecto; extremamente dolorida, parece navegar durante seus três minutos pelo mar formado pelas lástimas de Drake, onde os arranjos eruditos trabalham para enfatizar com exageros a atmosfera sombria da canção.

O que falar da quinta faixa, “Day Is Done”? Bem, talvez seja normal essa música causar a “mudeza” dos ouvintes… Simplesmente, porque não há palavras; é uma beleza magnífica, um sentimento à flor da pele, com arranjos extremamente tocantes, onde tudo, no fim das contas, faz com que a força das palavras se transfira para as lágrimas. ‘”Cello Song” é um número muito agradável, carregado de clima outonal, em que a carga sentimental muitas vezes dramática da música de Drake dá lugar a um cenário contemplador, com o baixo de Danny Thompson se destacando de forma até surpreendente – mas sem deixar, porém, Nick Drake em um segundo plano.

Despejando uma maravilhosa sequência de canções, Nick Drake acabou criando não apenas um consistente álbum de estreia, mas um dos mais fantásticos discos de sua época. E falando em anos sessenta, “The Thoughts of Mary Jane”, mergulhada no pop barroco, e contando com pitadas de psicodelismo, mostra-se como um belo produto de seu tempo; embora Drake fosse uma figura extremamente fechada, felizmente ele estava aberto à produção musical da época, e acabou construindo, com primor, mais uma grande canção de seu debut, retratando claramente uma viagem alucinógena. Aproximações com o jazz sempre foram constantes na música de Drake, como até melhor mostraria seu álbum seguinte, “Bryter Layter”; um exemplo deste aspecto no primeiro trabalho do músico, “Man in a Shed” é uma canção elaborada, em que novamente a capacidade de atingir o íntimo dos ouvintes se mostra impecável.

Com uma incrível sucessão de belíssimas faixas, “Five Leaves Left” acaba se consolidando, enfim, como uma obra-prima. É terrivelmente frustrante, portanto, ver como um clássico deste tamanho acabou sendo desconsiderado pelo público sessentista. Sim, Nick Drake e seu comportamento fechado contribuíram para o insucesso comercial do álbum, mas aqui talvez caiba uma questão: ele precisava se expor para fazer sucesso, ou a sua música em si já bastava para ele se tornar um dos nomes mais aclamados de seu tempo? Se as coisas fossem mais justas, sem dúvida a segunda opção seria a correta… Mas, como já diz o velho ditado, “a justiça tarda mas não falha”: felizmente, hoje em dia, Nick Drake se tornou um nome conhecido. E, em um momento profético, ele parecia já adivinhar que o reconhecimento à sua música só viria depois da morte: em “Fruit Tree”, ele canta que “eles vão parar e olhar quando você for embora”.

“Saturday Sun” é um número mais tranquilo, coberto pelas folhas secas do outono, mas nem por isso menos reflexivo. Profundas, as composições de Drake sempre acabam investigando as mazelas da alma, as dores do coração, e embora retratem sua personalidade dramática, perfazem uma grande viagem pela busca do sentido da humanidade. Amparado por sua música, Drake acima de tudo questionava a vida, enquanto tentava aprender a viver.

Uma alma conturbada, uma pessoa de poucos gestos e de pensamentos muitas vezes pessimistas, Nick Drake não demoraria a abandonar o mundo que tanto o perturbou: afundado nas drogas, ele acabaria morrendo no final de 1974, com apenas 26 anos de idade. Um fato anunciado, algo que até o próprio Drake acabou buscando… E uma perda lastimável. Mas, no fim das contas, enquanto um jovem solitário falecia, um “novo” gênio da música nascia. Que bom que a música deste fantástico artista, mesmo que tardiamente, acabou se tornando conhecida e idolatrada. Nick Drake acabou não precisando mais do nosso mundo, mas o nosso mundo ainda precisa da música de Nick Drake.

NOTA: 9,8

Track List:

01. Time Has Told Me [04:27]

02. River Man [04:21]

03. Three Hours [06:16]

04. Way to Blue [03:11]

05. Day Is Done [02:29]

06. ‘Celo Song [04:49]

07. The Thoughts of Mary Jane [03:22]

08. Man in a Shed [03:55]

09. Fruit Tree [04:50]

10. Saturday Sun [04:03]

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6 opiniões sobre “1969: Five Leaves Left – Nick Drake”

  1. Tive contato com esse álbum do Nick Drake recentemente, após ler sua crítica. Uma personagem realmente intrigante. Álbum muito belo, apesar de bastante triste. Lembrou um pouco o “Forever Changes” do Love que você certamente deve conhecer. Uma boa descoberta musical e mais uma excelente crítica! Parabéns!

  2. Excelente crítica e reflexão em relação a esse artista tão ilustre e genial que, em sua época, infelizmente foi ignorado Nick Drake. Estou começando ouvir e estudar sua obra que já me encanta e que me identifico muito.

    OBS: Existe um pequeno erro no segundo tópico do texto: “Pessoa inteligentíssima, ‘estou’ literatura inglesa na Universidade de Cambridge…”.

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