2013: Tudo Começou Aqui – Ana Larousse

Tudo Começou Aqui

Por: Renan Pereira

Sentimento do início ao fim. São composições íntimas, que jorram delicadeza e talento, que constroem o primeiro álbum da curitibana Ana Larousse. Ambientado nos cenários da chamada “nova MPB”, o registro é uma deliciosa audição de temas que desafiam os jovens do nosso tempo; a solidão, a saudade, a tristeza da partida e até mesmo o bucólico cotidiano são peças-chave do conjunto de canções apresentado pela cantora, obtido em grande parte durante os cinco anos em que ela morou na França, e basicamente refletindo suas experiências de vida.

Com produção assinada pelo músico Rodrigo Lemos (A Banda Mais Bonita da Cidade/Lemoskine), o álbum brinca com o ouvinte ao mesclar números simplórios com outros que tendem ao épico, sendo que, nesta dualidade, mora o que poderia ser a grande escorregada da estreia de Larousse, mas que acabou se concretizando como o grande acerto do disco. Fugindo do lugar-comum, não é raro perceber no registro certos toques da música grandiosa de grupos como Beach Boys e Pink Floyd, bandas extremamente cultuadas em terras tupiniquins, mas que encontram nos receios dos músicos daqui um obstáculo para inspirar a MPB. Em um momento em que querer fazer algo de proporções épicas dentro da música indie acabou se tornando, no senso-comum, algo de mau agouro, Lemos e Larousse não escondem suas referências e preenchem “Tudo Começou Aqui” com alguns números primorosos, injetando a força do rock clássico nas concepções íntimas, caseiras, que parecem ter saído do quarto da compositora.

A faixa inicial é um número poderoso de refino e sensibilidade: “Vai Menina”, a mais forte composição de Larousse em seu primeiro álbum, é uma canção extremamente tocante, espalhando sentimento enquanto se envolve em um cenário melancólico, acentuado pelo capricho dado pela produção ao instrumental rico e dinâmico; se no início a canção parece ter sido obtida a partir de uma daquelas delicadas caixinhas de música com bailarina, seu desfecho apresenta o instante de maior pretensão do disco, ao alcançar a grandeza do rock progressivo. Também muito sensível, a segunda faixa, “Café a Dois”, trata com poesia e romantismo um simples e cotidiano café da manhã; ambientada em arranjos acústicos, a música trabalha para dar propositalmente um maior destaque à voz suave de Larousse.

Percorrendo cada vez mais o íntimo da compositora, o álbum chega em “Teresinha”, que invade os retratos de família de Larousse ao homenagear a sua avó; não por acaso, é uma canção repleta de sentimento saudosista, procurando reviver tanto na letra quanto no instrumental cenários do passado da cantora. A jovial “Menino Maroto”, escrita em um momento de saudade do amigo Leo Fressato, é uma das canções mais animadas do disco, com uma estrutura que brinca constantemente com o psicodelismo, trazendo para o indie rock atual alguns dos êxitos d’Os Mutantes.

Pulsante e veloz como o movimento do ponteiro dos segundos de um relógio, “Olha o Tempo” é uma faixa pra lá de interessante, contendo uma estrutura instrumental pouco convencional e muito dinâmica, que chega a lembrar, em alguns momentos, até mesmo o Los Hermanos de “Bloco do Eu Sozinho”; mas, apesar da base “alegrinha”, a canção não deixa de ter o toque de uma delicada reflexão: “E o tempo não passou, quem passa é a gente, sem sequer notar…”, canta Ana Larousse.

A sexta faixa, “Meu Momento Bang-bang”, com letra em inglês, é a maior aproximação de Larousse à música folk, se inspirando tanto em nomes antigos do estrangeiro, como Simon & Garfunkel, como em jovens artistas da música brasileira, como Mallu Magalhães. Liricamente bela e sentimentalmente melancólica, “A Menina que Apagou” foi gravada durante uma tempestade, na casa da avó de Larousse, que já apareceu na telinha do You Tube servindo de cenário para o famoso clipe de “Oração”. Se aproximando mais da MPB tradicional, “A Desenhista” é mais uma bonita composição, envolvida por belas vocalizações e mais um competente arranjo acústico.

Composta por Leo Fressato, velho amigo e colaborador de Larousse, “Algo como essa Canção” se diferencia das demais canções do álbum por se mostrar desprovida da melancolia que dá as caras durante (quase) todo o registro; não é uma música ruim, longe disso, mas visivelmente se distancia do “propósito” estabelecido no disco, ficando um pouco deslocada. Alocada coerentemente para fechar o álbum, “A Paz do Fim”, através de mais uma ótima concepção acústica de arranjos, arrebata o ouvinte ao envolver toda a sutileza e a delicadeza de “Tudo Começou Aqui”… No desfecho, o lado épico do registro volta a dar suas caras, mas dessa vez se embalando nos efeitos dos canadenses do Arcade Fire. Ainda há a faixa escondida, “Valentine et la Chanson D’hiver”, levando charme e melancolia francesa aos últimos instantes do álbum.

Apesar de trazer a ótima Ana Larousse como personagem principal, cabe uma grande menção ao produtor do disco; é impressionante como Rodrigo Lemos conseguiu fazer do registro uma obra atemporal tão abrangente, passando pelo rock clássico, pelo indie, pelo folk e pelo pop, sem nunca abandonar o ambiente caseiro que aconchega o ouvinte. Tudo no álbum, desde o mais pequeno ruído, parece trabalhar propositalmente para construir o resultado final desejado, tanto que até os trovões acidentais de “A Menina que Apagou” parecem ter sido meticulosamente pensados pelo produtor.

Concretizando-se como um belo conjunto de sensíveis canções, “Tudo Começou Aqui” acaba se mostrando, enfim, um ótimo registro de estreia, unindo tudo o que Ana Larousse fizera nos últimos anos e a levaram a ser considerada um dos nomes mais promissores da MPB. E embora o disco não seja, como um todo, um registro necessariamente surpreendente, prende o ouvinte do início ao fim, com muito talento e muita sutileza ao tratar de sentimentos íntimos. Afinal de contas, Larousse não se apega apenas ao introspectivo, e faz com que suas composições não se tornem “tão sobre si própria” que não atinjam os ouvintes… Ela sabe como, mesmo apenas prendendo-se às suas experiências de vida, fazer com o seu público se torne parte integrante do registro, a partilhar com ela suas aflições.

NOTA: 8,0

Track List: (todas as faixas compostas por Ana Larousse, exceto a 9)

01. Vai Menina [06:08]

02. Café a Dois [04:04]

03. Teresinha [03:46]

04. Menino Maroto [04:13]

05. Olha o Tempo [04:08]

06. Meu Momento Bang-bang [03:12]

07. A Menina que Apagou [03:31]

08. A Desenhista [03:57]

09. Algo como essa Canção (Leo Fressato) [03:17]

10. A Paz do Fim [08:04]

Download

Anúncios

Uma opinião sobre “2013: Tudo Começou Aqui – Ana Larousse”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s