2008: Fleet Foxes – Fleet Foxes

Fleet Foxes (2008)

Por: Renan Pereira

Conferir a estreia do Fleet Foxes é ter a experiência de abandonar todo esse cenário contemporâneo que está a nossa volta, e viajar no tempo e no espaço. Não uma viagem de quilômetros por algumas horas, mas uma profunda viagem na história, atravessando os séculos. Afinal de contas, a banda da cidade de Seattle pareceu ter a intenção de recriar, em seu primeiro álbum, cenários rurais bucólicos e acolhedores da Idade Média. Sim, a capa do disco não é uma pintura medieval por acaso… A todo momento, as canções acabam criando em nossa mente a imagem de ambientes situados nos velhos contos de fadas ou em algum livro de George R. R. Martin.

Tal associação com os tempos medievais, aliás, não ocorre por acaso. Mesmo obtendo um resultado que não se desgruda das concepções atuais, o Fleet Foxes retirou da música barroca muitos dos elementos que construíram a sua estreia. A presença de alguns instrumentos rústicos rapidamente liga a sonoridade do disco ao universo folk, enquanto os vocais perfazem belíssimas harmonias eclesiásticas, dando ao registro uma áurea praticamente sagrada, como se tivesse sido gravado em algum antigo mosteiro europeu.

Mas está nos anos sessenta a grande inspiração do disco, embora isso não fique muito claro em uma primeira abordagem. “Pet Sounds” parece ser o ponto de partida da sonoridade do Fleet Foxes, como se a música da jovem banda representasse uma abordagem rural da atmosfera litorânea dos Beach Boys. Robin Pecknold, líder do Fleet Foxes, não é um novo Brian Wilson, mas é perceptível sua busca por um resultado que se aproxima dos mais conceituais discos da banda californiana; desde o tratamento dos vocais, buscando sempre um resultado harmonioso, passando pela produção que enfatiza as atmosferas sonoras, e chegando na forma como as faixas se sucedem (tentando estabelecer uma obra artística, acima de tudo), o disco de estreia da banda de Seattle tenta exacerbar a primavera utilizando a mesma base barroca que os Beach Boys utilizavam para musicar o verão.

Com isso, o que temos em mãos é um registro acolhedor, em que o ouvinte é transferido para um cenário de clima ameno, onde observa a banda a disparar suas belas composições em meio a campos e florestas selvagens, na companhia de pássaros, lebres e esquilos. Mas não podemos nos enganar, pois atrás da faceta bucólica do disco podem se encontrar concepções tristes – e aí está mais uma grande ligação da capa com a música do álbum. Perguntado sobre isso, Robin Pecknold explicou que “quando você vê a pintura pela primeira vez, ela é muito bucólica, mas ao chegar o olhar mais para perto, há coisas muito estranhas acontecendo”. “Você percebe que a cena é um estranho caos”, notou o líder da banda. Pois bem, é nesta tônica, do confronto do visivelmente bucólico com o sentimentalmente caótico, em que o disco detém o seu conceito, fazendo o ouvinte se surpreender continuamente.

Não poderia existir uma abertura melhor para este álbum que “Sun It Rises”, já alocando perfeitamente o ouvinte no cenário musical do Fleet Foxes ao falar do nascer do sol com muita delicadeza, em meio a uma deliciosa instrumentação folk. Alguns dizem que “White Winter Himnal” fala sobre a morte, outros que se trata de uma visão infantil da Revolução Francesa, mas o fato é que, independente de seu significado misterioso, se trata de uma fantástica canção que, amparada por arranjos vocais harmoniosos e uma melodia penetrante, faz o ouvinte se desligar e viajar em sua magnífica beleza.

A terceira, “Ragged Wood”, mergulha com tudo no country alternativo, mas sem abandonar os aspectos fundamentais que adornam o álbum: belas harmonias, as entonações vocálicas doloridas de Pecknold, um cenário primaveril e os tão citados elementos barrocos, que aparecem, nesta faixa, em um primoroso arranjo de cordas… Aliás, apesar do maior destaque dado aos vocais, não dá para deixar de lado o capricho dado pela banda à execução dos instrumentos; do início ao fim do disco, o que ouvimos é um imenso cuidado na alocação dos sons, como se tudo tivesse sido obtido após muito planejamento – o que só contribui para dar toques magistrais ao registro. De todas as belas composições do álbum, “Tiger Mountain Peasant Song” é um destaque, uma música extremamente tocante, em que o vocal de Pecknold encontra todos os êxitos possíveis, seja no âmbito técnico ou emotivo.

Com uma letra extremamente simplória, “Quiet Houses” se pauta nos arranjos, inserindo bonitas harmonias vocais em um instrumental que, no início, se divide entre o indie e a música country, mas que em seu desfecho acaba se caracterizando como o momento do álbum em que as influências dos Beach Boys se mostram mais claras. Escancarando mais um grande acerto melódico e harmônico, “He Doesn’t Know Why” deixa bem claro que a banda, mesmo investindo em ideias antigas, não se desgarra das concepções contemporâneas do indie rock. Já “Heard Them Stirring” é mais um momento para contemplar o cenário medieval perfeitamente bordado pela sonoridade do disco.

Revisitando de forma épica os anos sessenta, “Your Protector” soa como uma versão atual da sonoridade que marcou com brilhantismo o trabalho de Simon & Garfunkel e tantos outros grandes nomes da música folk. Muito bonita, a nona faixa, “Meadowlarks”, soa como mais uma canção para pura contemplação, cantando sobre pássaros, no mais puro dos cenários, enquanto “Blue Ridge Mountains” leva o ouvinte a passear, sob a luz da lua, por montanhas de picos azuis, campos esverdeados e florestas trêmulas. A faixa final é arrebatadora “Oliver James”, sentimento puro, somente voz e violão… Um espetáculo, uma canção extremamente bonita. Assim, aliás, como todo o disco é.

Segunda-feira, trânsito, poluição, escritório, burocracia, juros, impostos… Ouvir à estreia do Fleet Foxes é se desgarrar de todo esse ambiente cinza e hostil que o próprio homem construiu para experimentar as mais belas harmonias em meio à natureza. É deitar sobre a grama verde de um campo selvagem, observar o voo dos pássaros e ouvir o bater da água de um riacho nas pedras esverdeadas de musgo… É sentir o ar puro no rosto, o orvalho de uma amena manhã nos pés descalços, a fria chuva que molha a alma, vivendo o que deve ser vivido e esquecendo o que deveria ser esquecido.

NOTA: 9,2

Track List: (todas as faixas compostas por Robin Pecknold)

01. Sun It Rises [03:14]

02. White Winter Hymnal [02:27]

03. Ragged Wood [05:07]

04. Tiger Mountain Peasant Song [03:28]

05. Quiet Houses [03:32]

06. He Doesn’t Know Why [03:20]

07. Heard Them Stirring [03:02]

08. Your Protector [04:09]

09. Meadowlarks [03:11]

10. Blue Ridge Mountains [04:25]

11. Oliver James [03:23]

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