2013: Wakin on a Pretty Daze – Kurt Vile

Wakin on a Pretty Daze

Por: Renan Pereira

Inspirar-se não deve ser sinônimo de copiar, e Kurt Vile demonstra saber muito bem disso. Embora revisitando concepções gloriosas que construíram boa parte do rock setentista, o músico da Filadélfia constrói, em “Wakin on a Pretty Daze”, seu quinto álbum em carreira-solo, um resultado que não foge do atual. Embalado por canções confortantes, verdadeiras poesias musicadas, o artista nos entrega um dos mais bonitos álbuns da atualidade, fazendo sua carreira crescer ao deixar sua música fluir janela a fora, abandonando o cenário caseiro que se estabelecera em seus lançamentos anteriores para alcançar as paisagens urbanas de sua cidade natal.

A intenção de Vile de fazer a sua música alcançar maiores dimensões é altamente perceptível, seja pela grande duração de algumas faixas ou pelos arranjos caprichados que as constroem, lidando constantemente com o psicodelismo. Porém, mesmo soando maior, a música de Vile não abandona a sutileza e a simplicidade que têm sido as tônicas de sua carreira, seja em seus trabalhos-solo ou em suas colaborações com a banda The War on Drugs; em suma, as concepções megalomaníacas passam longe de sua mente, e o que ele parece anunciar, ao abandonar o conforto íntimo de seu quarto, é a chegada da primavera e os sentimentos de revitalização que ela carrega consigo.

Pois bem, a tal “caminhada primaveril” de Kurt Vile se inicia com a “quase faixa-título” do trabalho, a belíssima e hipnotizante “Wakin on a Pretty Day”, magistral em todos seus nove minutos e meio, bordando paisagens sonoras acolhedoras através de uma estupenda qualidade de arranjos. Riffs impregnantes constroem a faixa seguinte, a igualmente ótima “KV Crimes”, que se mostra fortemente influenciada pelo rock com pitadas country de Neil Young – mas sem soar simplesmente copiosa; como já dito anteriormente, esta não é a intenção de Kurt Vile, que utiliza suas influências de maneira certeira, revisitando o que há de melhor na música de seus ídolos para construir um trabalho que reflete, a todo momento, os tempos atuais. Se as provas dessa ideia ainda mostravam-se discretas, “Was All Talk” chega para injetar ineditismo e intensidade às camadas sonoras propostas pelo músico, utilizando pequenos toques eletrônicos e flertando constantemente com o psicodelismo – e provando, enfim, que Kurt Vile quer soar atual.

“Girl Called Alex” é uma daquelas canções que prendem o ouvinte, fazendo-o desligar-se de tudo que acontece a sua volta para somente prestar atenção à musica; repleta de psicodelismo, com belíssimos arranjos e uma qualidade hipnótica surpreendente, não dá para não considerá-la como um das melhores faixas do disco. Se há alguma canção de “Wakin on a Pretty Daze” que pode ser dita como “pop”, esta é a quinta faixa, a pulsante “Never Run Away”, que apesar de ser mais direta, de aceitabilidade imediata, mantém em um nível bem alto a qualidade de arranjos do álbum.

Liricamente, o disco nos leva ao interior do artista que o criou, um homem de atitudes sutis e que, por trás de sua vasta cabeleira, idealiza seu crescimento humano enquanto enfrenta os desafios de ser quem ele é: um músico e um jovem pai de família. Traços desse pensamento podem ser facilmente encontrados em “Pure Rain”, uma bela música que fala sobre a solidão enquanto revisita os êxitos do folk-rock setentista. Com contornos emotivos, a sétima faixa, “Too Hard”, é centrada na busca de Vile em superar as dificuldades que o atingem, e embora se caracterize como uma música triste, não abandona as paisagens “ensolaradas”, mantendo-se nos mesmos cenários amenos e bucólicos visitados por todo o disco; tocante e grandiosa, acolhedora e confortante apesar de melancólica, é, indubitavelmente, uma canção primorosa, que faz Kurt Vile alcançar o que parecem ser, até o dias de hoje, as maiores glórias de sua carreira.

“Shame Chamber” é outra ótima canção que faz o ouvinte viajar através de certeiros arranjos que, de propósito, recriam a atmosfera de um dia ensolarado na Filadélfia, envolvidos por riffs de grande beleza e um dinamismo surpreendente, que praticamente se opõe à musicalidade muitas vezes simples e constante do folk-rock. Concretizando o grande acerto do disco ao flertar com o psicodelismo, “Snowflakes are Dancing”, a faixa mais curta do álbum, é mais um momento para contemplação, enquanto “Air Bud” pretende levar o ouvinte a uma aventura maior com seus elementos claramente alucinógenos.

A música de Kurt Vile é tão cativante que, depois de começarmos a ouvir “Wakin on a Pretty Daze”, realmente não queremos parar de passear pelas ruas da Filadélfia. O músico, este magrelo e cabeludo rapaz que nos entrega um consistente conjunto de belas composições, mostra ser, enfim, uma ótima companhia de viagem, um cara de papo agradável e franco que deseja criar praticamente um vínculo de amizade com o seu público. Portanto, não é muito legal termos em “Goldtone” já o desfecho do álbum, mas, ao mesmo tempo, sua duração (que ultrapassa os dez minutos) faz com que a audição da última faixa acabe sendo um reconforto – afinal, ainda há um bom tempo para contemplar a música de “Wakin on a Pretty Daze”. E quando a faixa final enfim se encerra, é provável que o ouvinte ainda utilize o grande poder que tem em mãos (o de novamente dar o play) para recomeçar do início o agradável passeio proposto pelo disco.

Em seu melhor momento da carreira, Kurt Vile faz com que sua música atinja grandes resultados mesmo lidando basicamente com a simplicidade. O disco não tenta, em nenhum momento, soar épico, e através de sua sonoridade bucólica praticamente se resigna às honras – afinal, apenas passeia pelos cenários da primavera, discutindo temas cotidianos… Mas aí mora a surpresa. Enquanto muitos artistas buscam se destacar através de concepções faraônicas, e geralmente erram por não ter a condição de criar algo tão grandioso, Vile utiliza toques sutis para construir um trabalho sofisticado, que através de canções acolhedoras faz sua carreira atingir um nível cada vez mais elevado. Se “Smoke Ring for My Halo”, seu trabalho anterior, já havia sido aclamado por muitos setores da crítica, não será muita surpresa se vermos, no final de 2013, “Wakin on a Pretty Daze” em diversas listas de “melhores álbuns do ano”.

NOTA: 8,6

Track List:

01. Wakin on a Pretty Day [09:31]

02. KV Crimes [03:57]

03. Was All Talk [07:42]

04. Girl Called Alex [06:20]

05. Never Run Away [03:25]

06. Pure Pain [05:09]

07. Too Hard [08:04]

08. Shame Chamber [04:47]

09. Snowflakes Are Dancing [03:23]

10. Air Bud [06:30]

11. Goldtone [10:26]

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