2013: Comedown Machine – The Strokes

Comedown Machine

Por: Renan Pereira

Não há como querer um novo “Is This It”. Os tempos são outros, e até mesmo os integrantes do The Strokes querem algo diferente na carreira. O que é bom, pois por mais épica que a estreia da banda tenha sido, simplesmente manter a sonoridade que a aclamou seria, muito mais do que preguiça, um sinal de que o grupo havia parado no tempo. Por isso, é muito positivo ver Julian Casablancas tentando achar um novo rumo para a música dos Strokes.

Essa busca começou ainda em 2006. Com o lançamento de “First Impressions of the Earth”, a banda anunciava o desgarramento das abordagens que fizeram dos dois primeiros álbuns do grupo clássicos imediatos do indie rock. Só que as ideias mostraram-se ainda pouco amadurecidas, e como resultado, o disco mostrou-se inconsistente, muito aquém da qualidade de seus antecessores. Deste ponto, até 2009, a banda não lançou mais nada, e muito se perguntou se ela ainda continuaria em atividade. A resposta só viria quando, em janeiro de 2009, Casablancas declarou que estava começando a escrever um novo material; o resultado, porém, só pôde ser verificado em 2011, com o lançamento de “Angels”.

Enquanto todo mundo esperava um grande retorno dos Strokes, o que acabou se percebendo, infelizmente, foi que a banda estava chata como nunca. Os rumos do novo caminho sonoro da ainda não estavam claros, e atirando para todos os lados, o conjunto construiu, mais do que um resultado decepcionante, um disco que nem parecia vir de um grupo outrora considerado como o mais promissor do rock. Os flertes com a música oitentista haviam se intensificado, e Julian Casablancas parecia perdido em suas obsessões.

Agora, temos em mãos o quinto álbum do quinteto, que desde seu título promete ser constituído por uma volta ao tempo. O fato é que, embora nem tudo esteja completamente resolvido, a banda parece ter encontrado finalmente um caminho… Se no início da década passada os Strokes queriam ser os expoentes do rock do novo século, agora eles parecem se sentir muito mais à vontade investindo em uma sonoridade retrógrada, fortemente inspirados por ritmos genuinamente oitentistas, como o synthpop e o new wave. Se este é um bom caminho só o tempo será capaz de revelar, pois agora, em 2013, a banda ainda demonstra ser incapaz de produzir um resultado à altura do alcançado na primeira metade da década passada.

Abrindo o álbum, e já anunciando do que ele se trata, “Tap Out” é um mergulho de corpo inteiro nos anos oitenta; ao mesmo tempo em que não se mostra necessariamente ruim, a primeira faixa já pode ser considerada como uma primeira evidência de que dificilmente os Strokes voltarão a construir algo realmente grande dentro da música. Mas nem tudo que está dentro de “Comedown Machine” é, realmente, new wave; a segunda faixa, “All the Time”, tenta resgatar (e de forma errônea, diga-se de passagem) o mesmo indie rock que tornou o The Strokes um grupo famoso; o problema é que a canção soa datada, sem brilho, sem vida, muito distante da concepção pulsante das músicas presentes em “Is This It” ou “Room on Fire”.

“One Way Trigger” e “Welcome to Japan” são boas músicas, mesclando indie rock e synthpop, e mostrando que, embora distantes do brilhantismo, os Strokes ainda podem produzir canções interessantes. Um clima misterioso e uma ambientação atmosférica envolvem a quinta faixa, a dolorida “80s Comedown Machine”, que em um primeiro momento pode até soar estranha em demasia, mas audições sucessivas são capazes de torná-la, felizmente, uma canção atraente, e talvez o único momento do disco em que realmente uma evolução musical é anunciada. Já “50/50” pode até constranger os ouvintes mais descuidados, que pensam que a banda ainda é capaz de construir músicas tão joviais quanto as presentes no seminal “Is This It”; no fim, é uma faixa que só dá certeza à ideia de que o The Strokes não é mais a mesma banda, que sua pegada não é mais animadora, e que quando investe no mesmo som da década passada, só consegue passar aos ouvintes sentimentos de decadência.

A sétima, “Slow Animals”, soa realmente como um tema perfeito para uma corrida de tartarugas, mostrando-se sonolenta, arrastada, distante de qualquer resquício de intensidade; como é triste ver uma grande banda como os Strokes fazendo uma música tão ruim assim. “Partners in Crime” é legal, a única faixa do disco que pode ser descrita como “um bom indie rock”, mostrando até mesmo sinais de dinamismo, algo tão esquecido nos dois últimos lançamentos do grupo. Em contrapartida, a seguinte, “Chances”, chega a ser até irritante… Pobre do fã dos Strokes que não conhece o que os grandes grupos de synthpop realizaram lá na década de oitenta, pois é certo que, depois das falhas concepções de “Comdown Machine”, ele passará a olhar torto para o trabalho de bandas como Duran Duran, Tears for Fears e Pet Shop Boys.

“Happy Ending” é uma outra canção que, competentemente, mescla indie rock e ritmos oitentistas, soando até agradável. Já “Call It Fate, Call It Karma” é um falho número de despedida, um encerramento arrastado para um álbum que não consegue agradar como um todo. Existem alguns pontos positivos, é verdade, e é bom ver a banda finalmente se encontrando, sabendo o que fazer, relativamente se desapegando do passado… Mas se o The Strokes pode realmente construir algo consistente dentro de suas novas ideias, teremos que esperar um novo trabalho; as novas concepções de Casablancas, acredite ou não, ainda não estão totalmente prontas. Aliás, será que algum dia ainda estarão? Tomara que sim, pois ele tem um reconhecido talento como músico, e seus companheiros ainda têm muita lenha para queimar enquanto seguem os conceitos de seu líder.

“Comedown Machine” é, enfim, um disco mais consciente que “Angles”, mas nem por isso superior. Assim como seu antecessor, acerta alguns tiros no alvo, enquanto outros passam longe, não sendo capaz de elevar o nome dos Strokes novamente ao topo. A banda, aliás, continua a ser “grande” somente pelo passado que construiu, dez anos atrás… Desde de “First Impressions of the Earth” o grupo não nos apresenta um grande registro, e o que se vê atualmente, através dos dois últimos discos é, de fato, uma banda que está muito mais para “comum”.

Uma das coisas mais impressionantes quando se ouve, hoje em dia, o clássico “Is This It”, é perceber que a música do álbum continua vívida, pulsante, mesmo tanto tempo depois. Sim, querendo ou não, já fazem doze anos que a estreia do The Strokes veio à tona… O tempo passa, amigo! Pois bem, o fato é que, enquanto “Is This It” continua com cara de novo, “Comedown Machine”, mesmo pouquinho tempo depois de ser lançado, já tem cara de álbum velho. O que não é nada surpreendente, pois ao investir em referências antigas da música (seja o synthpop, o new wave, ou até mesmo o indie rock do início da década passada), o The Strokes parece não estar mais preocupado em soar atual.

NOTA: 5,6

Track List:

01. Tap Out [03:42]

02. All the Time [03:01]

03. One Way Trigger [04:02]

04. Welcome to Japan [03:50]

05. 80s Comedown Machine [04:58]

06. 50/50 [02:43]

07. Slow Animals [04:20]

08. Partners in Crime [03:21]

09. Chances [03:36]

10. Happy Ending [02:52]

11. Call It Fate, Call It Karma [03:24]

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