1992: Slanted and Enchanted – Pavement

Slanted and Enchanted

Por: Renan Pereira

Com guitarras sujas, uma produção barata e canções extremamente divertidas, os californianos do Pavement criaram um dos registros mais influentes dos anos noventa – e logo em seu trabalho de estreia. “Slanted and Enchanted”, apesar de ser detentor de uma sonoridade que, em uma primeira abordagem, parece ter sido “jogada” sem maiores cuidados, acabou apresentando um dos mais excitantes ambientes sonoros daqueles anos. É verdade, porém, que não é uma audição muito fácil para quem não conhece a banda, ou até mesmo só ouviu “Crooked Rain, Crooked Rain”, disco mais conhecido dos caras…

Na realidade, à primeira vista, nem dá pra entender muito bem o porquê do álbum ter se tornado um clássico. Belas melodias, riffs impregnantes? Sim, eles estão aqui, mas inúmeros registros durante a história da música popular soaram lindos, maravilhosos, e nem por isso entraram para a história. Pois bem, “Slanted and Enchanted” passa longe da “magnificência sonora”, suja terrenos polidos do início ao fim, e aí está justamente o acerto que o elevou à clássico. Ainda não entendeu? É normal, vamos com calma… É provável que, com meia-dúzia de audições atentas (porém despreocupadas, sem procurar evidências épicas), o ouvinte já esteja a par dos motivos que levaram a estreia do Pavement a se tornar um lugar-comum no universo cult.

A banda formou-se nos últimos suspiros dos anos oitenta, visivelmente inspirada nos grupos que formavam, naquela época, a nata do rock alternativo underground, como Sonic Youth, The Fall e The Replacements. Do estúdio caseiro do baterista Gary Young ecoaram os primeiros ruídos do Pavement, sendo que, posteriormente, as baquetas acabaram sendo destinadas a Jason Turner; mas os desentendimentos constantes do novo baterista com o líder do grupo, Stephen Malkmus, acabaram levando ao retorno de Young, que, no fim das contas, acabou contribuindo de forma gigantesca para a construção da sonoridade que envolveria o primeiro registro do conjunto.

Gary Young era doidão. Durante a turnê do primeiro álbum, não era raro vê-lo distribuindo para o público, na entrada dos locais de show, “brindes” como couve e purê de batatas, caindo de bêbado em cima do próprio equipamento ou saindo correndo pelo palco enquanto a banda tocava. Não à toa, seu comportamento excêntrico acabou chamando a atenção, mas o resultado final não poderia ser diferente: no fim da turnê, acabou sendo substituído por Steve West. Isso acarretou em um upgrade de seriedade à banda, que em seu segundo álbum, mostraria-se bem mais comportada; mas isso é assunto para outra oportunidade, pois agora é a “bagunça” de “Slanted and Enchanted” que dá as caras por aqui.

O álbum inicia-se com a impecável “Summer Babe (Winter Version)”, postando-se memorável e imponente do início ao fim, já demostrando um fantástico acerto melódico e uma produção incomum para a época, soando como se a gravação tivesse sido concebida em uma garagem qualquer; não é por menos que Stephen Malkmus é considerado um dos inovadores da música lo-fi. Na segunda faixa, dividida por “Trigger Cut” e “Wounded-Kite at :17”, a guitarra de Malkmus continua a se aventurar brilhantemente por um cenário caseiro, totalmente noventista, perfazendo instrumentais poderosos em bases melódicas excelentes. Na potente “No Life Singed Her”, uma sujeira que em nada fica devendo ao The Jesus and Mary Chain faz o álbum continuar a soar surpreendente, deixando o ouvinte boquiaberto ao apresentar uma das bases sonoras mais dinâmicas e genuínas de sua época.

É impressionante como Stephen Malkmus e seus companheiros arquitetaram, em cada momento do disco, uma nova sonoridade, que embora embalada pelo cenário pós-punk da segunda metade dos anos oitenta, conseguiu constantemente soar inédita. Considerado por muitos como um importantíssimo marco do rock, “Slanted and Enchanted” finalizou a edificação das bases da música lo-fi, e elevou o indie rock a um nível não visto anteriormente, mostrando para o público recém chegado ao rock alternativo que nem só de grunge vivia o underground. A sucessão de faixas do álbum, enfim, fez nascer uma nova ideia, e inspirou uma grande leva de novos artistas; sem “Slanted and Enchanted”, é provável que bandas como Neutral Milk Hotel e Modest Mouse não tivessem a oportunidade de lançar, no final dos anos noventa, os maiores clássicos da música caseira.

A quarta, “In the Mouth a Desert”, é uma clara absorção dos sentimentos emitidos pelo lendário “Loveless”, do My Bloody Valentine, confrontando beleza e sujeira a todo momento; o início calmo, com riffs tradicionais do indie rock, só serve para enganar brevemente o público, que acabará experimentando, na verdade, a audição de mais uma ótima canção de potência inegável. “Conduit for Sale!” é, em quase sua totalidade, apenas falada, e quando isso não acontece, é um vocal berrado que se impregna em nossos ouvidos, espalhando sujeira sem moderação em uma atmosfera totalmente alternativa. Mas sem engana muito quem pensa que “Slanted and Enchanted” é apenas riffs sujos e músicas pesadas: a qualidade de arranjos demonstrada pelo Pavement em seu debut poucas vezes foi alcançada dentro do indie rock.

Seguem, então, as breves “Zürich Is Stained” e “Chesley’s Little Wrists”, ambas com menos de dois minutos, durando pouco mas deixando suas marcas dentro do registro; a primeira, por apresentar uma sonoridade semi-acústica que parece já anunciar o caminho que a banda tomaria em seu próximo álbum, e a segunda por se caracterizar como o momento mais “alucinógeno” do disco, em que os riffs percorrem um terreno ondulatório na mais chapada concepção sonora de “Slanted and Enchanted”. “Loretta’s Scars” contém um ritmo pulsante e, pra variar, mais uma grande melodia, se portando de forma magistral em arranjos atmosféricos. “Here” é acústica, calma, um raro número sereno do álbum, escancarando que a banda podia ser brilhante não apenas nas abordagens cruas, e enfatizando, enfim, o dinamismo do trabalho. Além de tudo o que o Pavement criou em seu disco parece ter sido lançado na hora exata, oferecendo grandes novidades para aquela explosão alternativa do início da década de noventa, tudo o que a banda fez foi bem feito, não deixando dúvidas sobre a grande consistência de sua estreia.

A décima é “Two States”, uma música que, casando perfeitamente ritmo e melodia (sobre mais uma base suja), mostra que até em números mais dançantes o Pavement poderia ser competente. Já “Perfume-V” é nervosa, impregnante, um desafio para ouvidos despreparados, alocando-se em uma cenário hermético, e mais uma vez lembrando o noise-pop que o The Jesus and Mary Chain havia criado, lá na metade dos anos oitenta, em seu igualmente marcante debut, o clássico “Psychocandy”. Talvez inspirado pelos riffs atmosféricos que Kevin Shields disparava naquela época, Stephen Malkmus decidiu, felizmente, aventurar-se constantemente; e na que é, provavelmente, a mais excitante dessas aventuras, sua guitarra constrói os psicodélicos arranjos da fenomenal “Fame Throwa”.

Outra qualidade marcante de “Slanted and Enchanted” é a sua capacidade de surpreender do início ao fim. Tanto que o disco, mesmo não sendo dos mais curtos, tendo catorze faixas, consegue prender o ouvinte da introdução da primeira canção ao seu último barulho, sempre trazendo alguma novidade. Tanto que a é penúltima faixa, “Jackals, False Grails: The Lonesome Era”, que apresenta os mais incríveis arranjos do álbum, podendo até mesmo ser comparada, tanto em complexidade quanto no conceito, à famigerada “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles. A última, “Our Singer”, é uma corrente, que parece amarrar o desfecho de “Slanted and Enchanted” ao início de “Crooked Rain, Crooked Rain”, que seria lançado dois anos mais tarde.

Inovador, surpreendente, consistente… “Slanted and Enchanted” pode ser qualificado, com certeza, com todo os adjetivos já colocados neste texto. Mas talvez o mais legal de tudo é ver como o Pavement conseguiu um grande resultado sem deixar a diversão de lado. “Slanted and Enchanted” é, enfim, um disco divertido, que não se esquece de que a música popular deve ser a união da arte com o entretenimento… Tudo soa vívido, sincero, fruto de um trabalho honesto e que, devido à sua grande qualidade, acabou marcando a sua época. Ainda restam dúvidas de que este é um grande clássico do rock?

NOTA: 9,8

Track List: (todas as faixas compostas por Stephen Malkmus, exceto a 10)

01. Summer Babe (Winter Version) [03:16]

02. Trigger Cut/Wounded-Kite at :17 [03:16]

03. No Life Singed Her [02:09]

04. In the Mouth a Desert [03:52]

05. Conduit for Sale! [02:52]

06. Zürich Is Stained [01:41]

07. Chesley’s Little Wrists [01:16]

08. Loretta’s Scars [02:55]

09. Here [03:56]

10. Two States (Scott Kannberg) [01:47]

11. Perfume-V [02:09]

12. Fame Throwa [03:22]

13. Jackals, False Grails: The Lonesome Era [03:21]

14. Our Singer [03:09]

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