1985: O Concreto Já Rachou – Plebe Rude

O Concreto Já Rachou

Por: Renan Pereira

Não só a situação política contraditória e as desigualdades sociais deram origem ao crítico rock de Brasília. Deve-se também levar em consideração que, lá no início dos anos oitenta, a capital federal não era uma cidade muito atraente para os jovens; poucas oportunidades de lazer e o convívio constante com os ares da política fizeram nascer uma geração pouco festeira e otimista, mas extremamente preocupada com os rumos que o nosso país tomava. Pode-se dizer, desse modo, que o rock de Brasília está para os anos oitenta assim como o movimento punk da Inglaterra está para os anos setenta, tanto na identidade sonora simples e jovial, quanto na veia crítica que permeava as composições.

Não é muito difícil perceber, contudo, o porquê das abordagens políticas realizadas pelas bandas oitentistas. Em 1985, por exemplo, ano de lançamento de “O Concreto Já Rachou”, a política do nosso país era um cenário de completa incerteza. No executivo, José Sarney, um antigo aliado dos militares, comandava a política do país em sua redemocratização. O povo estava feliz pelo retorno da liberdade política, mas ao mesmo tempo enfrentava tempos economicamente difíceis, já começando a experimentar um panorama trágico de inflação alta. Poucos aspectos deste cenário eram realmente animadores, e quem vivia naquela época (principalmente nas classes de menor poder aquisitivo) deveria se apegar unicamente à esperança de experimentar dias mais justos em nosso país. Era necessário, em todas as áreas, um pensamento social mais crítico, e o rock de Brasília, e especialmente a banda Plebe Rude, fizeram a sua parte.

Falando em Plebe Rude, é o bom o ouvinte, primeiramente, se desapegar da provável ligação sonora da banda com o punk setentista. A amarração está apenas no conceito crítico, e talvez no visual “The Clash” dos integrantes. Por mais que, na época, o grupo se auto-rotulasse “punk”, a viagem sonora proposta pelos brasilienses não passa muito perto do cru e agressivo, se estabelecendo, na verdade, dentro do movimento new-wave que tomava conta do cenário internacional. A musicalidade, portanto, até tem certo nível comercial, mas nada que faça o tom crítico do álbum desbotar; muito pelo contrário, a Plebe Rude soube muito bem como se situar no panorama da época, aproveitando tudo o que estava sendo feito para construir uma identidade segura.

Como o disco retrata a época contraditória em que foi concebido, não é muito surpreendente ver a banda utilizar de luxo para falar sobre a falta de dinheiro. Pois bem, é com um violino triste que “Até Quando Esperar” se inicia, abrindo o álbum da melhor maneira possível; afinal de contas, esta é um canção formidável, instrumentalmente forte e criticamente impecável, simbolizando a diminuição da esperança à medida em que a desigualdade só se agravava… Só Deus poderia ajudar? A pobreza e a riqueza voltam a andar juntas (ou a se desencontrar, ao mesmo tempo) no sucinto solo de violino; como na sociedade brasileira, um breve esplendor em meio a tanta indigência.

A segunda faixa, “Proteção”, discute, em meio a uma instrumentação econômica, a funcionalidade do setor de segurança: será que a repressão havia realmente cessado? “Me proteger do quê?”, canta Phillipe Seabra, em tom de indignação… enfim, eis mais uma ótima canção de protesto. “Johnny Vai à Guerra” ataca as forças armadas, e aquela promessa de “vida de emoções e aventuras”, frase forte em apelo mas vazia em conceito; guerrear, seja lá contra quem, acabou se tornando algo divertido?

Embora o álbum seja um produto da já longínqua década de oitenta, não há como não traçar um paralelo a partir dele à atual condição da nossa sociedade. “Minha Renda”, por exemplo, parece ser o recado mais certeiro para aqueles artistas, bandas e gravadoras que utilizam a música para simplesmente lucrar, deixando a arte de lado; a canção elucida, com primor, a situação mutuamente aproveitadora em que artistas e contratantes acabam se metendo, em que utilizam melodias fáceis e propostas de qualidade propositalmente diminuída para alcançar um público maleável e despreocupado. A curiosidade, nesta faixa, fica por parte da brincadeira feita pela Plebe Rude com Herbert Viana, líder dos Paralamas do Sucesso e produtor de “O Concreto Já Rachou”.

O único momento em que o álbum realmente deixa sua qualidade decair está presente na quinta faixa, “Sexo e Karatê”; não pela proposta visivelmente mais divertida que, possivelmente, critica a produção cinematográfica da época, mas por conter a única letra não muito bem resolvida do disco. No fim, é o instrumental forte que acaba salvando a faixa, que se não está no mesmo nível das demais, também não rebaixa a música da Plebe Rude a níveis necessariamente baixos.

É a sexta faixa, “Seu Jogo”, que contém a qualidade lírica mais impressionante do disco; sua letra é construída por um conjunto formidável de versos elaborados, que controvertem (embora não muito claramente) a vida errante de um jovem recém chegado à idade adulta, comparando suas decisões à movimentação de peças em um tabuleiro. A sétima e última faixa do álbum (isso mesmo, você não leu errado, são apenas sete faixas) é a sensacional “Brasília”, que reflete os descaminhos da capital nacional e a rotina sem-graça dos membros da banda (e de todos os brasilienses) em sua terra natal… É engraçado pensar que, em um dia, a cidade planejada por Lúcio Costa, hoje marcada pela incompetência dos três poderes, “sede” da roubalheira e da injustiça, já foi chamada de “Capital da Esperança”.

Mas, espera aí, por que um disco com apenas sete faixas? A explicação é simples: naquela época, lançar mini LP’s para testar a capacidade comercial de novas bandas era uma prática comum por parte das gravadoras – em suma, caso o trabalho não fosse muito bem aceito pelo público, o prejuízo não seria muito grande. Caso a aposta da gravadora desse certo, e o público aceitasse de bom grado a sonoridade do novo grupo, aí sim ele teria o direito de gravar um disco maior. E foi isso que felizmente aconteceu com a Plebe Rude, que em 1987, lançaria “Nunca Fomos tão Brasileiros”, um álbum com onze faixas.

Mas como pode um disco com apenas sete faixas, com pouco mais de vinte minutos de duração, se portar entre os maiores clássicos do rock brasileiro? Simplesmente, porque ele é arrebatador, constituído por inteligentes letras, fortes instrumentais, belas melodias… Além disso, é muito bem politizado, criticando, no momento certo e do modo certo, o que deveria ser criticado – tendo sido criado, aliás, em uma época em que pensamentos mais críticos sobre o futuro da nossa pátria se mostravam altamente necessários. Enfim, é um álbum que, do início ao fim, a todo instante, soa intenso, memorável, marcando uma importante página do rock nacional.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Até Quando Esperar (Seabra/André X/Gutje) [04:28]

02. Proteção (Seabra) [02:09]

03. Johnny Vai à Guerra (Outra Vez) (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [03:30]

04. Minha Renda (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [02:37]

05. Sexo e Karatê (André X/Bilaphra) [02:01]

06. Seu Jogo (Pretorius/Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [03:59]

07. Brasília (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [02:48]

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