2013: The 20/20 Experience – Justin Timberlake

The 20/20 Experience

Por: Renan Pereira

Sete anos após o lançamento do aclamado “FutureSex/LoveSounds”, Justin Timberlake está, finalmente, de volta à música. É normal que em sete anos muita coisa mude, e com os rumos da música pop e a própria vida particular de Timberlake não seria diferente. Hoje, a música norte-americana respira com prazer os ares do novo R&B, muito devido à popularização do gênero realizada pelo próprio Timberlake e seu eterno produtor, Timbaland, durante os idos de 2006. Mas, se naquela época, Timberlake estava preocupado em seduzir suas ouvintes, em canções seminais de forte apelo sexual, hoje o cara parece estar muito mais comportado… Afinal, acabara de casar-se com a atriz Jessica Biel.

Além disso, os arranjos muitas vezes minimalistas de canções como “Sexyback” e “My Love” parecem ter abandonado as cabeças de Timberlake e Timbaland. “The 20/20 Experience” é um disco diferente, rodeado por arranjos ricos e luxuosos, além de, liricamente, apresentar os anseios de um Justin Timberlake casado e experiente.

Mas isso não significa, de jeito nenhum, que Timberlake deixou de exalar sensualidade em sua canções. Ao dar o play, e sentir “The 20/20 Experience” inciar sua saga, percebemos que, ao investir em tradicionalismos do R&B, o músico consegue soar romântico como nunca. Na primeira faixa, “Pusher Love Girl”, que se inicia com um luxuoso espetáculo de violinos, e marcha competentemente através de uma concepção clássica do R&B, Justin Timberlake compara o amor de sua companheira à capacidade narcótica de substâncias como heroína, cocaína e nicotina. Mas, apesar da canção se aventurar (assim como a grande parte do disco) por sonoridades antigas da música negra norte-americana, ainda há espaço para o novo… ao inserir, na conclusão da faixa, batidas futurísticas de hip hop, Timbaland repõe Timberlake no grupo dos expoentes do novo R&B, ao lado de nomes como Miguel, Kanye West e Frank Ocean.

O grande single “Suit & Tie” também é um misto das antigas e novas texturas do R&B. Inicia-se enevoada pelas batidas sempre competentes de Timbaland, para depois se tornar um números mais contagiantes de todo o catálogo de canções de Timberlake, em que o artista contempla, com maestria, um dos momentos mais brilhantes de sua carreira – provando que, durante os anos que esteve em hiato, continuou a evoluir como músico; se portando ritmicamente entre Marvin Gaye e Michael Jackson, Timberlake e seu produtor mostram que toda a espera por um novo trabalho, enfim, valeu a pena. Destacáveis também são a participação do rapper Jay-Z e o vídeo-clip assinado pelo produtor hollywoodiano David Fincher, que já havia trabalhado com Timberlake no filme “A Rede Social”.

A terceira, “Don’t Hold the Wall”, despeja ineditismo na música de Timberlake. Primeiro, pelos fantásticos e complexos arranjos vocais que envolvem seu início, revivendo as glórias do movimento doo-wop em uma performance que não fica devendo em nada aos Tempations. Depois, pela produção misteriosa e moderna de Timbaland, com batidas inusuais, um ritmo dançante futurístico e arranjos que pendem à música alternativa, praticamente descolando de Timberlake o rótulo de “comercial”.

Como uma faixa intitulada “Strawberry Bublegum” poderia não soar melosa? O fato é que a canção, que parece ter sido dedicada à Sra. Timberlake, Jessica Biel, é uma explosão doce ao melhor estilo “Bubbaloo”. Mais contida, menos aventureira, é uma das faixas menos atraentes do disco, em que a produção de Timbaland mostra-se comum, e a performance de Timberlake, apesar de competente, pende mais a um pop normalzinho, ao nível de tantos artistas comerciais por aí… Há de se destacar, porém, a boa carga dinâmica imposta pela canção, que insiste, pelo menos, em “não ficar na mesma”.

“Tunnel Vision”, porém, faz com que o nível de grandiosidade volte rapidamente a envolver a musicalidade do álbum. Costurada com contornos épicos, jorrando novidade e dinamismo do início ao fim, faz Timberlake se superar ao encarar com coragem a complexidade. Arranjos sensacionais, batidas energéticas e uma modernidade constante fazem a canção partir do mesmo ponto em que a famigerada “What Goes Around… Comes Around” havia parado – marcando, enfim, a tal “evolução” que se pede no trabalho que sucede um disco de massivo sucesso.

Outro meio termo entre o moderno e o antigo, “Spaecship Coupe” deixa claro o porquê dos elogios de Timberlake à música de Kanye West: de forma até mesmo involuntária, há uma visível reciprocidade de influências. Ou seja, do mesmo modo que Timberlake veio a influenciar, através de seu R&B de “FutureSex/LoveSounds”, o Kanye West de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, o West de “808s & Heartbraker” e de seu já citado sucessor parecem ter inspirado constantemente Timberlake na construção de “The 20/20 Experience”. Não que o novo disco soe copiativo, e nem que isso signifique uma tentativa de “imitação mútua”… Prince e Michael Jackson, por exemplo, sempre trocavam influências lá na década de oitenta, e ninguém nega que esse fato teve uma importância significativa para a construção das maiores glórias do pop daquela época.

Produzida como se tivesse sido concebida em um show de “JT and the Tennessee Kids”, a sétima, “That Girl”, é um número glorioso de um R&B pra lá de clássico, aterrissando no que foi feito lá nos anos setenta. O fato é que “The 20/20 Experience”, assim como “4”, o último álbum de Beyoncé, parecem querer andar na contramão dos lançamentos atuais da música pop, que buscam, acima de tudo, um resultado rápido e de fácil comerciabilidade. Investindo no passado (mas sem se esquecer do presente), tanto Timberlake quanto Beyoncé dão uma aula a essa moçadinha nova de como puxar as tradições sem deixar de soar atraente, mostrando que a tentativa desesperada de soar pop, de ver sua música rapidamente circulando em rádios e canais de música espalhados pelo globo, só faz a grande maioria das abordagens atuais soarem descartáveis. A qualidade da música, afinal, está acima de qualquer apelo, e é muito bom ver gente grande da música pop investindo na evolução de seu som.

Extremamente dançante, e flertando com ritmos africanos, “Let the Groove In” pode até soar estranha em um primeiro momento, mas após o ouvinte entender a proposta da faixa ela pode pintar, facilmente, entre suas canções preferidas do disco. É, afinal, uma música para dançar de forma frenética, investindo na qualidade rítmica, com Timberlake se postando como um mestre de espetáculo.

Canção mais comercial do disco, mas também uma das mais agradáveis, “Mirros” é uma explosão de arranjos magníficos e versos grudentos. Ficando no meio termo de “Cry Me a River” (música do primeiro álbum de Timberlake, “Justifield”) e a baladona “November Rain”, do Guns N’ Roses, escancara o Justin Timberlake mais melódico de todo o disco, disparando flechas de amor em sua esposa, em meio a uma atmosférica épica de guitarras, violinos e sintetizadores construída por Timbaland.

Primorosamente produzida, a faixa final, “Blue Ocean Floor”, é um espetáculo harmônico, uma canção que prega surpresas ao ouvinte ainda acostumado com o Justin Timberlake do ‘NSync, de “Justifield” ou até mesmo de “FutureSex/LoveSounds”. Enquanto na boy-band, e em seu primeiro disco solo, o artista buscava se impregnar no mainstream através de músicas de fácil apelo, e em seu segundo álbum procurou construir o trabalho mais sensual (e sexual) do seu tempo, agora podemos vê-lo a investir em canções de apelo mais sério. A dolorosa faixa final parece ser, enfim, o ponto crucial deste aspecto, em que tudo, desde a voz até a sobreposição de camadas, trabalha para criar (de forma certeira) uma bela atmosfera melancólica, onde nenhum traço de adolescência pode ser encontrado; afinal, mais do que crescido, agora Timberlake já é um homem casado, muito bem-resolvido, já avançando na casa dos trinta anos… Como se espera, o cara continua crescendo.

Menos inovador, mas mais consistente que seu antecessor, “The 20/20 Experience” continua a elevar Justin Timberlake rumo ao topo da pirâmide do pop. É, afinal, um disco construído com um capricho invejável, contendo uma maravilhosa dezena de longas canções que, à primeira vista, até parecem ser pretensiosas em demasia… Mas não, Timberlake não quer megalomania. Passando longe do pop fútil de artistas como Lady Gaga, Rihanna, a Madonna atual e seu xará Justin Bieber, ele trabalha com sinceridade em canções que, prioritariamente, não foram feitas para simplesmente aparecer em rádios ou canais de música. Muito mais do que candidatas a single, as faixas de “The 20/20 Experience” trabalham para formar uma unidade, para construir um grande disco, enquanto injetam qualidade e evolução à carreira de seu criador.

Já projetando um futuro próximo, Timberlake prometeu, ainda para esse ano, “a segunda parte de ‘The 20/20 Experience'” – o que, na realidade, ainda não sabemos do que se trata. O fato é que, se for como a primeira, seu público já pode ir comemorando, pois experimentará, assim como agora já têm experimentado, a audição de uma das melhores abordagens da música pop nos últimos tempos: um passeio rico e agradável pela história do R&B, com pitadinhas certeiras de modernidade.

NOTA: 8,6

Track List:

01. Pusher Love Girl (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [08:02]

02. Suit & Tie (Timberlake/Mosley/Carter/Fauntleroy/Stubbs/Wilson/Still) [05:26]

03. Don’t Hold the Wall (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [07:10]

04. Strawberry Bubblegum (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [07:59]

05. Tunnel Vision (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [06:46]

06. Spaceship Coupe (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [07:17]

07. That Girl (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy/Williams) [04:47]

08. Let the Groove Get In (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [07:11]

09. Mirrors (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [08:05]

10. Blue Ocean Floor (Timberlake/Mosley/Harmon/Fauntleroy) [07:19]

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