1975: Red Headed Stranger – Willie Nelson

Por: Renan Pereira

Um homem, apaixonado pela sua esposa, suspeita que ela a esteja o traindo… e quando, enfim, os indícios se confirmam, assassina ela e o amante. Pode até parecer estranho, mas este duplo assassinato constrói o que é, para muitos, o melhor disco da história do country norte-americano. Mais do que isso, “Red Headed Stranger” faz nossas percepções se alterarem, saírem do lugar-comum das opiniões fáceis e imediatas, narrando de forma brilhante a saga do assassino, isentando-o de maiores culpas. Afinal, Willie Nelson escancara os sentimentos do personagem, tornando-o mais um produto de seus descaminhos do que um simples fora-da-lei.

Uma estória cantada, “Red Headed Stranger” não contém apenas músicas: suas faixas são como capítulos de um daqueles bons livros de amor e tragédia. No primeiro ato, em que nosso personagem (o “Stranger”) começa a suspeitar da fidelidade de sua companheira, ainda há espaço para amor; “Time of the Preacher”, faixa que abre o disco, construindo a introdução da saga, mostra o personagem ainda apaixonado pela esposa, esperando, no fundo, que suas suspeitas não venham a ser comprovadas.

A instrumentação simples da primeira faixa é uma constante dentro do disco. Considerada, em um primeiro momento, limitada pela gravadora, acerta por ser justamente econômica. Em uma época em que se buscava, na música country, a criação de arranjos ricos, mesclando os elementos antigos com a complexidade do rock daqueles anos, Willie Nelson bateu o pé em prol da simplicidade, acertando de forma magnífica em sua escolha: a trinca formada por violão, bateria e piano dá maior carga sentimental ao disco, destacando, inclusive, as emotivas interpretações vocais de Willie Nelson.

Para tanto, o músico utilizou o controle criativo dado a ele pela Columbia Records, fazendo exatamente o que queria fazer sem intervenções de terceiros. A construção do disco, aliás, é até certo ponto incomum, principalmente ao levarmos em consideração apenas a música country. Afinal, a divisão das faixas não significa, necessariamente, uma separação. As canções se unem, se confundem, terminam para depois retornar em uma nova abordagem, com um outro pensamento ou apresentando um novo detalhe.

O título do segundo capítulo já deixa claro sobre o que ele se trata: “I Couldn’t Believe It Was True” mostra, afinal, que as suspeitas do Stranger tinham fundamento. Em um retorno breve da melodia da primeira faixa, “Time of the Preacher Theme” mostra a fúria do esposo traído, dizendo que tudo estava acabado e que a matança iria começar. Pois bem, ela realmente começa na quarta faixa, um medley de “Blue Rock Montana”, onde o crime realmente acontece, com uma breve introdução da faixa-título, que retrata a dor do personagem após o crime cometido. Tudo, é claro, com uma interpretação impecável por parte de Nelson, espalhando sentimento a todo momento… “Eles morreram com um sorriso no rosto”, canta o músico.

Em fuga, o assassino lamenta a perda de sua esposa; para contar esta parte da estória, Willie Nelson utilizou, de maneira muito inteligente, uma canção antiga, lá dos anos quarenta, de autoria de Fred Rose; “Blue Eyes Crying in the Rain” é muito mais do que o maior hit da carreira de Nelson, mas a perfeita demonstração de culpa e tristeza. A sexta faixa, que dá título ao trabalho, narra mais um crime cometido pelo Stranger: ele assassina uma mulher que, segundo suas suspeitas, estava tentando roubar seu cavalo (que pertencera à esposa). Em um retorno meteórico de “Time of the Preacher Theme”, Willie Nelson canta: “quando você pensa que tudo acabou, está apenas começando”.

Stranger vai viajando para o sul, e a instrumental “Just As I Am” parece enfatizar a solidão do personagem. Em “Denver”, porém, sua vida começa a mudar, quando volta a se sentir livre para amar, se apaixonando por uma mulher que ele havia conhecido em um bar daquela cidade… “Eles dançaram com um sorriso no rosto”, agora canta Nelson.

As duas faixas subsequentes, instrumentais, mostram uma visível mudança de humor dentro da estória. A latina “O’er the Waves”, do mexicano Juventino Rosas, também conhecida como “Sobre las Olas”, mostra um momento de calmaria no sul dos Estados Unidos, enquanto a alegre “Down Yonder”, uma música lá do início dos anos vinte, deixa claro que a felicidade voltava a brilhar na vida do assassino. Seu desejo de redenção, inclusive, é cantando por Nelson na belíssima “Can I Sleep in Your Arms?”. Já “Remeber Me” marca, de uma vez por todas, o fim do sofrimento do Stranger, com ele se desapegando das lembranças do passado.

A estória tem seu fim em “Hands on the Wheel”, com um Strager já idoso, acompanhado por uma criança (que se acredita ser seu neto) e pelo seu segundo amor. O ouvinte pode aprovar ou não este desfecho, mas fica claro, desde o início, de que Willie Nelson sempre esteve ao lado do personagem que criou. Não é muito raro, contudo, ver o público também simpatizando com o assassino… Até porque, em muitos casos, os anti-heróis são muito mais interessantes que os heróis bonzinhos e insossos.

O disco termina com a instrumental “Bandera”, uma maravilhosa trilha final, deixando o ouvinte a pensar sobre a situação em que o Stranger se meteu… Culpado ou inocente? Malvado ou infeliz? O que não deixa nenhuma dúvida, porém, é a extrema qualidade do disco: conceitual, “Red Headed Stranger” ultrapassou os limites da música country, formando uma estória forte, envolvente e inteligente, que entrou para a história e se tornou, com o passar dos anos, um registro fundamental, refletindo os descaminhos humanos e as redenções vitoriosas, a intrigar o público quanto ao crime e à justiça… Poucas vezes, enfim, a música soou tão profunda, inteligente e intrigante quanto nesta formidável obra artística de Willie Nelson.

NOTA: 9,8

Track List:

01. Time of the Preacher (Nelson) [02:26]

02. I Couldn’t Believe It Was True (Arnold/Fowler) [01:32]

03. Time of the Preacher Theme (Nelson) [01:13]

04. Blue Rock Montana (Nelson) | Red Headed Stranger (Stutz/Lindeman) [01:36]

05. Blue Eyes Crying in the Rain (Rose) [02:21]

06. Red Headed Stranger (Stutz/Lindeman) [04:00]

07. Time of the Preacher Theme (Nelson) [00:25]

08. Just As I Am (Elliott/Bradbury) [01:45]

09. Denver (Nelson) [00:53]

10. O’er the Waves (Rosas/Nelson) [00:47]

11. Down Yonder (Gilbert) [01:56]

12. Can I Sleep in Your Arms (Cochran) [05:24]

13. Remember Me (Wiseman) [02:52]

14. Hands on the Wheel (Callery) [04:22]

15. Bandera (Nelson) [02:19]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s