2013: The Next Day – David Bowie

Por: Renan Pereira

Embora não precise provar mais nada pra ninguém desde os anos setenta, quando construiu alguns dos melhores trabalhos da história do rock, David Bowie necessitava voltar a ativa – afinal, o mundo ainda precisa do Camaleão. Além disso, é muito estranho ver um dos nomes mais irrequietos da música mundial entocado durante tanto tempo, como se fosse um urso em pleno inverno: desde 2003 Bowie não nos presenteava com um novo exemplar de estúdio.

Mas o fato é que a hora chegou, e enfim podemos nos deliciar com um novo álbum de Bowie, independente de quanto tempo ele tenha demorado. “The Next Day” é um ótimo trabalho de retorno, conciso e consistente, que mostra que o veterano músico inglês ainda tem muita lenha para queimar.

Aliás, do nosso ilustre time de veteranos não temos nada do que reclamar. Nos últimos tempos, os velhos nomes da música parecem ter recuperado a ânsia em construir grandes trabalhos, deixando claro o que é de conhecimento geral, mas muito jovens insistem em ignorar: na música, como em diversas outras áreas, idade não é documento. E é muito bom ver o grande Bowie acompanhando essa maré, criando um grande álbum e seguindo, quanto à qualidade, outros velhos nomes que têm voltado a se destacar nos últimos anos, como Paul Simon, Leonard Cohen, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Até porque, em “The Next Day”, Bowie recupera muitas das características fundamentais de sua música, fazendo-a soar dinâmica e camaleônica como no ápice de sua carreira. Não, “The Next Day” não está no mesmo patamar dos históricos registros de Bowie lançados lá na década de setenta, mas volta a apresentar suas diferentes facetas com uma consistência não observada nos últimos discos do músico. Em “The Next Day”, afinal, a música de Bowie volta a soar grandiosa, impregnante, tornando o álbum o melhor registro de estúdio do inglês desde o famigerado “Let’s Dance”, de 1983.

O engraçado, porém, é ver o disco se iniciar de maneira bastante tímida, parecendo preparar o ouvinte para mais um trabalho ao nível de “Heaten” e “Reality” – o que, de jeito nenhum, significa má qualidade, mas também não mostra nada de tão grandioso. A primeira faixa, que também dá título ao álbum, até é um pop-rock legal, agradável, mas também se mostra comum demais; ironicamente, é a canção mais fraca do disco. Já a segunda, “Dirty Boys”, mostra que, finalmente, Bowie está de volta aos seus melhores dias; a canção, embebida por ótimos arranjos de metais, apresenta um androgenismo característico dos trabalhos setentistas do inglês, soando complexa e fugindo do óbvio.

Embora o disco, como um tudo, contenha um conjunto de ótimas canções, “(The Stars) Are Out Tonight” é, indubitavelmente, um grande destaque sobre as demais músicas; afinal de contas, a terceira faixa (e segundo single do álbum) é magistral, vívida, pulsante e certeiramente sentimental, com uma qualidade envolvente capaz de reviver as maiores glórias da carreira de Bowie. “Love Is Lost” também é impecável, um rock com roupagem séria (e até mesmo tensa), envolvido por riffs impregnantes e detendo uma inteligente letra. O primeiro single do disco, “Where Are We Now?”, está mais para reflexiva, e por isso é tão serena e nostálgica; seus quatro minutos de duração perfazem, provavelmente, o instante mais íntimo do álbum, em que Bowie relembra, com uma saudade evidente, o tempo em que morou em Berlim.

O sentimento inserido em “Valentine’s Day” é, por coincidência ou não, apaixonante; sua letra é deliciosa, sua melodia é confortante, e  seu instrumental contém os mais emotivos (e bonitos) riffs de guitarra de todo o álbum, em um momento de “puro feeling”. Em uma sucessão que reitera quão camaleônico Bowie é capaz de ser, o músico sai do romantismo absoluto para o androgenismo experimental de “If You Can See Me”, uma música perfeitamente produzida que remete aos trabalhos mais complexos do veterano; se trata, afinal, de uma canção altamente dinâmica, com os vocais constantemente a se desencontrar e se encontrar novamente com o ritmo enérgico. Outra ótima faixa, “I’d Rather Be High” tem um uma melodia que, apesar de calma, prende o ouvinte a todo instante; sua capacidade lírica também é elogiável, bem como seu refrão grudento e os backing-vocals que o envolvem.

Única faixa do álbum que traz flertes com a música eletrônica, “Boss of Me” é um pop rock com a cara dos anos noventa, talvez recordando um pouco do que Bowie fez naquela década; se trata, pra variar, de mais uma música de alta qualidade, atestando o êxito do disco não somente em mostrar um David Bowie de volta à velha forma, mas principalmente quanto à grande consistência de seu conjunto de canções. “Dancing Out in Space” é, como seu título pode deixar transparecer, uma canção animada, amparada por mais uma deliciosa construção melódica, mantendo o instrumental praticamente constante ao mesmo tempo em que dinamiza o vocal.

Também é ótimo ver como “The Next Day” consegue surpreender. Embora apresente pouca novidade, acrescentando quase nada de novo à carreira de Bowie, o registro é uma sucessão incrível de acertos – algo que, no fundo, poucos esperavam. Em suma, “The Next Day” é um disco que surpreende pela alta qualidade de suas faixas, mostrando um David Bowie afiado como há muito tempo não se via. “How Does the Grass Grow?”, a canção mais dinâmica do disco, é capaz de deixar os ouvintes boquiabertos com tamanha complexidade; com um ritmo enlouquecedor e sensacionais arranjos vocais, poderia, muito bem, se encontrar entre as mais empolgantes composições de Bowie em todos os tempos. Já “(You Will) Set the World on Fire” parece ter saído dos anos oitenta, trazendo para 2013 o rock dançante de “Let’s Dance”.

A penúltima, “You Feel So Lonely You Could Die”, é uma balada melodramática, uma faixa que, apesar de não estar no mesmo nível dos melhores momentos do disco, mostra-se altamente válida. Fechando o álbum com mais um pouquinho de “Berlin Trilogy”, a forte “Heat” volta a relembrar a estadia de Bowie na capital alemã durante o finalzinho dos anos setenta, onde ele construiu, com a ajuda do produtor Brian Eno, sua sequência mais complexa de álbuns; a capa de “The Next Day”, aliás, revive a imagem do segundo destes discos, o clássico “Heroes”.

Revirando sua carreira e revivendo suas glórias, Bowie acabou voltando com um álbum que está a altura do artista que o criou. Em “The Next Day”, afinal, David Bowie é simplesmente David Bowie, o velho e bom camaleão do rock – o que, no fim das contas, já basta para se atestar a grande qualidade do disco.

NOTA: 8,7

Track List: (todas as faixas compostas apenas por David Bowie, exceto a 9 e a 11)

01. The Next Day [03:27]

02. Dirty Boys [02:58]

03. The Stars (Are Out Tonight) [03:56]

04. Love Is Lost [03:57]

05. Where Are We Now? [04:08]

06. Valentine’s Day [03:01]

07. If You Can See Me [03:15]

08. I’d Rather Be High [03:53]

09. Boss of Me (Bowie/Leonard) [04:09]

10. Dancing Out in Space [03:24]

11. How Does the Grass Grow? (Bowie/Lordan) [04:33]

12. (You Will) Set the World on Fire [03:30]

13. You Feel So Lonely You Could Die [04:41]

14. Heat [04:25]

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