1968: Gilberto Gil – Gilberto Gil

Por: Renan Pereira

Um dos artistas mais importantes da música brasileira em todos os tempos, Gilberto Gil foi, durante a sombria época da ditadura militar, muito mais do que um simples compositor engajado politicamente. Postando-se como líder de uma nova geração de músicos, Gil foi, a partir da segunda metade da década de sessenta, uma espécie de “presidente” do último movimento realmente revolucionário da nossa música. O tropicalismo foi, além de um ótimo mecanismo político, que funcionou como um grito juvenil anti-regime, uma vertente musical altamente inventiva, mesclando as tradições brasileiras com ideais vanguardistas originários no primeiro mundo.

Gilberto Gil nasceu em Salvador, mas ainda muito criança mudou-se, com a família, para a pequena cidade de Ituaçu, que na época não passava de um lugarejo com cerca de oitocentos habitantes. Lá, Gil teve seu primeiro contato com a música, numa época em que os acordes do baião de Luiz Gonzaga formavam a maior identidade sonora do Nordeste. Aos oito anos, mudou-se novamente para a capital baiana, onde começou a frequentar uma academia de acordeon; mas foi no secundário, quando ganhou de sua mãe um violão, que Gilberto Gil realmente nasceria como músico, altamente influenciado pelo também baiano João Gilberto.

Na época da faculdade, quando cursava administração, um encontro não mudaria somente a vida de Gilberto Gil, mas como os próprios rumos da música brasileira. Naquela época, acabara conhecendo os eternos amigos Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé; juntos, fizeram parte de espetáculos semi-amadores de vanguarda no teatro Vila Velha. Provavelmente, nem eles imaginavam que este encontro formaria o supra-sumo da “nova” MPB, mas é fato que, naquele instante, estavam sendo semeadas as bases do movimento tropicalista.

Vivendo na capital paulista desde 1965 (onde, inclusive, exerceu sua graduação de administrador de empresas no grupo Gessy Lever), Gil começou, aos poucos, a se tornar figura carimbada nos grandes festivais de música – que, naquela época, se responsabilizavam por revelar os novos nomes do cancioneiro popular. A primeira participação de Gil em um destes eventos havia ocorrido ainda em 1965, onde interpretou, no “V Festival da Balança” – promovido pelo Diretório Acadêmico João Mendes Jr. da Faculdade de Direito da Mackenzie – a canção “Iemanjá”. Organizado pelo estudante Manoel Poladian, que mais tarde se tornaria produtor musical, o evento foi registrado em disco pela gravadora RCA, e apresentou ao público, muito mais do que um ainda discreto Gilberto Gil, o brilhantismo vocal de Maria Bethânia em seu primeiro grande sucesso, “Carcará”.

Em maio de 1967, Gil teve, finalmente, a oportunidade de lançar seu primeiro LP, o regular “Louvação”; produzido por João Mello, e contando com os sempre acertados arranjos de Dory Caymmi, o álbum acabou se caracterizando como uma reprodução das raízes de Gil, contendo baião, bossa-nova, samba e a música romântica dos anos cinquenta, mais conhecida como “balada”.

Embora seu primeiro disco tenha chamado atenção, Gilberto Gil só se tornaria uma sensação a partir de sua participação no “III Festival de Música Popular Brasileira”, produzido pela TV Record em outubro de 1967. Após ter transformado, no ano anterior, o jovem Chico Buarque em um fenômeno nacional (ao mesmo tempo em que inserira a canção “A Banda” no cerne da cultura brasileira), o festival atrairia, em sua terceira realização, uma grande quantidade de novos (e grandes) artistas, além de uma audiência espetacular para a época. Neste evento, o tropicalismo enfim mostraria suas facetas, a partir de “Alegria, Alegria”, canção de Caetano Veloso, e do primeiro grande clássico da carreira de Gil, “Domingo no Parque”, que teve em sua interpretação o apoio da banda paulista Os Mutantes.

De forma surpreendente, nem Gil e nem Caetano conseguiram conquistar o “Sabiá de Ouro”, que naquela oportunidade ficaria para Edu Lobo com sua performance de “Ponteio”. Mas, indubitavelmente, o festival acabara por inserir o nome dos baianos na cultura nacional, fazendo-os cair de forma quase imediata nas graças do grande público. Além disso, “Alegria, Alegria” se tornaria o carro-chefe do fantástico segundo álbum de Caetano, enquanto “Domingo no Parque” formaria as bases para a criação do segundo álbum de Gil, lançado em maio de 1968.

Finamente produzido pelo maestro Rogério Duprat, o disco “Gilberto Gil” acabou elevando exponencialmente a complexidade sonora do músico, que claramente evoluía a passos largos. Mergulhando sem moderação no rock psicodélico (até mesmo devido à presença dos Mutantes), o registro foi responsável por inserir as raízes nordestinas de Gil a uma sonoridade claramente inspirada ao que se fazia na Grã-Bretanha… Comparar Gil e Caetano a Lennon e McCartney pode até ter se tornado um lugar-comum para os admiradores do tropicalismo, mas não dá para negar que os discos fundamentais do movimento brasileiro constantemente se aproximam, da produção às temáticas, aos trabalhos psicodélicos do quarteto de Liverpool. Apesar de brasileiro ao extremo, o movimento tropicalista liga-se ao psicodélico até mesmo por ser cultural: enquanto álbuns como “Revolver” e “Sgt. Pepper” mergulham profundamente nas tradições britânicas, os discos tropicalistas são de uma intensa abordagem dos nossos costumes.

As realizações vanguardistas de Gil em seu segundo LP já são escancaradas pela primeira faixa, a eufórica “Frevo Rasgado”, que mesclando as tradições pernambucanas ao psicodelismo, torna-se totalmente envolvida nas sempre marcantes orquestrações de Duprat, através de um ritmo empolgante. A segunda, “Coragem pra Suportar”, além de tensa e rica, constitui o primeiro número claramente anti-regime do disco, com uma sonoridade totalmente inserida nos ideais psicodélicos. Dinâmica, pulsante e contagiante, e mostrando quão certeira foi a participação dos Mutantes no disco, “Domingou” está mais para divertimento, falando sobre um dia de folga no Rio de Janeiro.

Fantasticamente orquestrada, “Marginália II” é uma das músicas mais complexas de toda a carreira de Gil, além de ser extremamente corajosa; cutucando os militares com vara curta, sua letra chega a dizer que “aqui é o fim do mundo”, criando um contraponto entre as belezas naturais do nosso país e a dificuldade de se viver durante a ditadura. Um dos singles do álbum, a chapada “Pega a Voga, Cabeludo” contém o psicodelismo mais “viajado” do disco, mostrando com maestria a junção das doidices dos Mutantes com a alta qualidade rítmica característica da música de Gilberto Gil. Melodicamente forte, e com arranjos espetaculares, de qualidade realmente impressionante, “Ele Falava Nisso Todo Dia” mostra o triste desfecho de um jovem que se preocupava demais com o seguro de vida.

Muito agradável, mas também crítica, a sétima faixa, “Procissão”, é mais um momento para se contemplar as raízes de Gil inseridas no rock malucão dos Mutantes, em uma grande performance do guitarrista Sérgio Dias. Mostrando que a qualidade técnica alcançada por Brian Wilson nos álbuns dos Beach Boys, e por George Martin nos álbuns dos Beatles, também poderia ser obtida aqui no Brasil (apesar da dificuldade geográfica, que muitas vezes privava a música nacional dos novos equipamentos do primeiro mundo), a oitava, “Luzia Luluza”, contém uma produção magnífica, e caracteriza-se por ser um número mais sereno, que se aproxima mais da bossa-nova, apesar de conter elementos claramente psicodélicos.

“Pé da Roseira” também bebe intensamente da fonte psicodélica, se mostrando como uma abordagem tupiniquim – com um ritmo extremamente brasileiro – do rock produzido na Inglaterra naquela época; com sua estrutura melancólica, reproduzindo sentimentos de dor e solidão, pode ser considerado um dos raros (e melhores) encontros do samba com a sonoridade dos Beatles. A última, e melhor faixa do álbum, é a maravilhosa “Domingo no Parque”, uma canção rica como ela só; brincando com a língua portuguesa, com uma letra repleta de figuras de linguagem como metonímias, anáforas e quiasmos, e com uma sonoridade altamente dinâmica (às vezes festiva, contempladora ou triste), a música constrói com contornos épicos um anticlímax surpreendente, um trágico desfecho, enquanto finaliza da forma mais arrebatadora possível o grandioso segundo disco de Gil. Na versão estendida do álbum, ainda há as faixas-bônus “Barca Grande”, “A Coisa mais Linda que Existe”, “Questão de Ordem” e a maluca “A Luta Contra a Lata ou a Falência do Café”, que continuam a mostrar o resultado majestoso alcançado por Gil ao mesclar a cultura brasileira ao rock psicodélico.

Talvez tão inesperado quanto o duplo homicídio cometido por José em “Domingo no Parque”, foi o status alcançado por Gilberto Gil em seu segundo registro da carreira. Além de ter evoluído de forma gigantesca em comparação ao seu primeiro álbum, é impressionante ver como, em pouco tempo, o baiano se tornou um dos gênios da nossa música, e o grande líder daquela geração que revolucionaria a MPB. Mas, no fim das contas, aqui ainda não está o maior o clássico do tropicalismo… até porque, no mesmo ano, Gil lideraria simplesmente o mais importante registro fonográfico da história de nossa música, o disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Cicenses”.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Frevo Rasgado (Gilberto Gil/Breno Ferreira) [01:53]

02. Coragem pra Suportar (Gilberto Gil) [02:55]

03. Domingou (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:55]

04. Marginália II (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:39]

05. Pega a Voga, Cabeludo (Juan Arcon/Gilberto Gil) [04:44]

06. Ele Falava Nisso Todo Dia (Gilberto Gil) [02:33]

07. Procissão (Gilberto Gil) [02:55]

08. Luzia Luluza (Gilberto Gil) [04:03]

09. Pé da Roseira (Gilberto Gil) [03:03]

10. Domingo no Parque (Gilberto Gil) [03:46]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s