2013: Amok – Atoms for Peace

Por: Renan Pereira

Ao se analisar a obra criada pelo irrequieto Thom Yorke, o tempo passa a ser uma variável essencial. Afinal, não foram poucas as vezes em que o líder do Radiohead exigiu de seus seguidores um exercício quase bovino de ruminação: seguidas e seguidas audições em um bom intervalo de tempo sempre foram, desde o início da década passada, necessárias para entender os anseios do músico inglês. Ainda bem que, com a sucessão de “mastigadas”, podemos contemplar com totalidade as ideias inventivas do produtor, um dos nomes mais importantes e mais cultuados da música nas duas últimas décadas.

Se até “Kid A”, considerado o clássico dos clássicos da “fase eletrônica” do Radiohead, foi mal interpretado por alguns setores da crítica na época de seu lançamento, por que “Amok”, primeiro álbum do Atoms for Peace, deveria ser unânime? Há quem diga que Thom Yorke estacionou, que seu projeto paralelo não mostra a mesma faceta inventiva dos últimos trabalhos do Radiohead, e que tudo soa muito parecido ao que foi desenvolvido em “The Eraser”, primeiro álbum solo de Yorke, e “The King of Limbs”, último álbum lançado pelo Radiohead, em fevereiro do ano retrasado. Porém, muitos esquecem do bendito tempo, a variável que estabelece que a aceitação às criações de Yorke são diretamente proporcionais ao movimento dos ponteiros do relógio.

Criado no ano de 2009 para uma série de espetáculos ao-vivo, o Atoms for Peace parece ser mais do que simplesmente um projeto paralelo; relativamente preso, obrigado a levar em consideração as ideias de seus companheiros no Radiohead, Yorke precisava de um espaço novo, onde, na companhia de grandes músicos subordinados a suas “ordens”, pudesse botar sua cachola para funcionar e fazer tudo o que desejasse, sem se preocupar com terceiros. Talvez seus novos companheiros de banda – o baixista Flea (Red Hot Chili Peppers), o baterista Joey Waronker (Beck, R.E.M.) e o percussionista brasileiro Mauro Refosco – não sejam simples “empregados”, e até tenham certa parcela de criação na obra; mas o que fica bem claro em “Amok” é a interação constante dos ideais mais íntimos de Yorke com a produção sempre caprichada do velho conhecido Nigel Godrich.

Navegando por belas texturas, o disco soa intenso, cuidadoso, e nem parece ter saído de poucas jams realizadas entre Yorke e seus colegas. Harmonicamente bonito, “Amok” marcha durante quase quarenta e cinco minutos por um cenário sereno, pacífico, com suas nove faixas formando o que parece ser o mais silencioso conjunto de canções de Yorke. As composições são certeiras, em poucas oportunidades mostrando-se realmente redundantes, e embora não formem um trabalho tão inventivo quanto “In Rainbows”, constroem um registro competente, mirando a contemplação. Não há, é verdade, muita novidade para impressionar os ouvintes, que encontrarão camadas sonoras profundamente inspiradas no que foi produzido nos últimos anos, não significando, porém, um suposto “mais do mesmo”. Thom Yorke é um artista íntegro, inquieto, cada vez menos interessado em grandes resultados comerciais; lembremo-nos de sua veia experimental, que nunca procurou simplesmente agradar seus seguidores para alcançar fácil aclamação.

A primeira faixa é a belíssima “Before Your Very Eyes…”, um início arrebatador, mergulhado em texturas eletrônicas que hipnotizam, contendo uma admirável e confortante performance vocal. A voz de Yorke, aliás, é especialmente trabalhada pela produção, soando às vezes fantasmagórica, assustadoramente robótica, inserida nas canções a fim de não se destacar aos demais instrumentos – procurando soar como apenas mais uma camada de um rico cenário sonoro. As aproximações ao krautrock sempre foram constantes nas produções de Godrich, e como “Amok” é uma daquelas obras características do produtor, tais elementos inspirados na música experimental alemã da década de setenta se fazem presentes; isso é vastamente observado na segunda faixa, a ótima “Default”, em que não apenas os sintetizadores e a camada vocal, mas principalmente o trabalho de percussão, formam uma grande performance, tratando com muito capricho uma suave melodia. “Ingenue” é uma música complexa, com uma construção eletrônica impecável, mas que em uma primeira contemplação pode soar desencontrada; no entanto, a tal “ruminação” ajuda a tornar a faixa uma das mais atraentes do álbum, ganhando aceitabilidade à medida em que o tempo passa e as audições se sucedem.

Sendo ritmicamente constante, sem grandes quebras, e contendo uma construção energética de batidas, “Dropped” acaba se caracterizando por ser um dos números de aceitação mais fácil dentro do disco, soando agradável desde a primeira audição. “Unless” se inicia parecida à terceira faixa, mas acaba experimentando um crescimento rítmico assustador, embebida por ótimas batidas eletrônicas minimalistas; não se pode deixar de ser dado um grande destaque, porém, a mais uma fantástica atuação do percussionista Mauro Refosco, elevando constantemente o nível hipnótico da canção.

Para quem admira as linhas de baixo de Flea, talvez esteja na sexta faixa, a pulsante “Stuck Together Pieces”, o melhor momento para contemplar a participação do músico no projeto; mesclando o rock e o eletrônico, colando sons de camadas em camadas de forma progressiva, a canção marcha por cinco minutos e meio que parecem até durar mais, devido ao baixo dinamismo apresentado tanto pela melodia quanto pelo ritmo. As vocalizações assombrosas de Thom Yorke em “Judge, Jury and Executioner” pregam uma boa peça nos ouvintes, que ao invés de uma faixa tensa, experimentarão o momento mais dançante do álbum, com o vocalista claramente se inspirando no R&B contemporâneo de Justin Timberlake. Refosco injeta, através de sua percussão, um pouco de ritmo genuinamente brasileiro na penúltima faixa, “Reverse Running”, que mescla sentimentos de tranquilidade (através dos riffs de guitarra) a uma rara concepção de tensão, criada por Godrich através de ruídos esquizofrênicos.

Com “Amok” chegando ao seu fim, atestando-se a boa qualidade de seu conjunto de canções, torna-se cada vez mais aproveitador ou raivoso subjugar a qualidade do disco. Tudo bem, o Atoms for Peace não é o projeto mais experimental do mundo, mas esperar que Thom Yorke reinvente a roda a cada novo lançamento é querer demais de um cara que já fez muito. Ele mesmo já andou dizendo que “Amok” não foi concebido para soar como um álbum de banda, mas sim como uma colaboração momentânea dele com alguns amigos; e a verdade acaba sendo que, sob este âmbito “colaborativo”, com status de supergrupo, poucos projetos conseguiram alcançar um resultado tão interessante quanto este em questão.

A faixa-título, que encerra o álbum, acaba nos reservando a construção eletrônica mais “colorida” de todo o disco; apesar de não compreender o número mais constante do registro, “Amok” acaba fazendo com que o álbum homônimo se encerre de maneira tão convincente quanto havia se iniciado. Eis, indubitavelmente, um grande trabalho, que apesar de cometer alguns equívocos, com algumas pequenas falhas de produção (basicamente, um instrumento ou um ruído mal alocado aqui ou acolá), cumpre muito bem o seu papel. Pode até ser, em alguns momentos, gélido em demasia, desprovido de grandes sentimentos, e sua sonoridade pode até não ser das mais geniais, tratando-se de Thom Yorke; mas “Amok” marca, sem dúvida, a carreira de todos os artistas que ajudaram a construí-lo, caracterizando-se como um grande ato: um ótimo encontro de grandes músicos.

É provável que o Atoms for Peace nem vá mais para frente, e que este acabe sendo o único lançamento do supergrupo. Também é provável que mesmo com o passar dos anos “Amok” não se torne uma unanimidade, muito menos um clássico. Mas é certo que, daqui algum tempo, muitos dos que hoje criticam o trabalho passarão a olhá-lo de forma mais pacífica e carinhosa… Afinal, Thom Yorke parece constantemente acertar em suas previsões, sabendo sempre o que agradará seu público no futuro, manuseando a tão falada “passagem do tempo” com maestria.

NOTA: 8,0

Track List:

01. Before Your Very Eyes… [05:47]

02. Default [05:15]

03. Ingenue [04:30]

04. Dropped [04:57]

05. Unless [04:40]

06. Stuck Together Pieces [05:28]

07. Judge, Jury and Executioner [03:28]

08. Reverse Running [05:06]

09. Amok [05:24]

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