2013: Welcome Oblivion – How to Destroy Angels

Depois de se tornar um dos músicos mais influentes da duas últimas décadas, Trent Reznor decidiu encerrar as atividades de seu premiado grupo Nine Inch Nails para adentrar na década atual com um novo projeto. Tendo como colaboradores sua esposa, a cantora Mariqueen Maandig, o diretor artístico Rob Sheridan e o produtor Atticus Ross (que juntamente com Reznor havia faturado uma estatueta do Oscar pela trilha sonora do filme “A Rede Social”), o pai do rock industrial se mostra totalmente à vontade para continuar sua carreira inventiva, agora partindo com tudo para a música eletrônica. Não espere o ouvinte, no How to Destroy Angels, a mesma sonoridade que levou Trent Reznor a ser aclamado por diversos setores da indústria musical; o novo projeto é, claramente, a tentativa do músico em ir além, em continuar com suas experimentações ao mesmo tempo em que se desfaz dos laços do passado. “Welcome Obvilion”, primeiro registro de longa duração do novo projeto, é a contestação definitiva de que as texturas construídas pelo Nine Inch Nails ficaram para trás.

Aparentemente mais cooperativo do que fora o Nine Inch Nails, o How to Destroy Angels é detentor de uma musicalidade etérea, envolvida constantemente pelos vocais sussurrados de Maandig. A proposta do grupo, tão ou até mais sombria que a atmosfera criada por Reznor em mais de vinte anos a frente do NIN, praticamente desconsidera o ritmo, procurando desenvolver, ao longo das treze faixas de “Welcome Oblivion”, uma sonoridade centrada na climatização. Este é um disco, porém, que passa longe das ideias atmosféricas plantadas pelo dream pop, pois tenta desenvolver, a todo momento, uma sonoridade que se afasta do óbvio – tanto das antigas ideias do NIN, quanto do mainstream atual.

Experimentando como nunca, Trent Reznor nos apresenta um registro que, por incrível que pareça, parece constantemente querer afugentar os ouvintes. Se há muita gente que considerava as propostas do Nine Inch Nails no mínimo estranhas, até mesmo os seguidores do antigo projeto de Reznor considerarão “Welcome Oblivion” um trabalho andrógeno. Não restam dúvidas quanto à coragem de Reznor, que se desapega de um passado glorioso a fim de continuar a experimentar livremente, sem cabrestos impostos por público ou crítica. O que não se sabe, porém, é se alguém realmente estará disposto a seguir a carreira do novo grupo do produtor, que através de sua aceitabilidade difícil, se mostra de comerciabilidade ínfima até mesmo para os acostumados com as “estranhezas” de Reznor.

“Welcome Oblivion” se incia com “The Wake-Up”, que embora tenha uma construção eletrônica interessante, passa sem dar motivos para sua existência. A segunda, “Keep It Together”, é uma canção claramente melhor resolvida que a primeira, desenvolvendo uma aposta em que o ritmo distante, o vocal marcante e a melodia macabra trabalham com primor para construir uma atmosfera tensa e obscura. Tomada pelas quebras de ritmo que acompanharam o NIN em toda sua carreira, “And the Sky Began to Scream” soa como uma concepção moderna (e acertada) das antigas ideias de Reznor; além disso, a faixa é notável por mostrar o quanto o vocal de Mariqueen Maandig pode ser competente, embora ela apenas sussurre os versos.

Apesar de ser notavelmente bem produzida, a faixa título peca quanto à falta de dinamismo, ficando na mesma durante toda sua duração. A quinta, “Ice Age”, tem no seu início o que parecia anunciar a melhor faixa do disco, mas também erra feio ao parar na mesma aposta melódica e rítmica, sendo, basicamente, um remoer dos mesmos elementos em sua totalidade; por mais que seja um dos músicos mais inquietos de sua geração, Trent Reznor dá sinais de que sua criatividade vem se minguando, ao se entregar a certas mesmices preguiçosas que pouco acrescentarão a sua carreira. Mas, felizmente, ele ainda é capaz de criar alguns números atraentes, como bem mostra a canção “On the Wing”.

Faixa mais encantadora do disco, a andrógena “Too Late, All Gone” representa com maestria o poder dos cenários pesados construídos pelo grupo, que embora tensos, são constantemente alentados por belas e competentes melodias. Únicas faixas do álbum que se aproximam de algo que possa ser dito “pop”, “How Long?” e “Strings and Attractors” se mostram muito boas, convencendo do início ao fim através de uma produção primorosa, recheada pela voz sensualizada de Maandig. Já a décima, “We Fade Away”, é uma canção que tenta soar grandiosa, épica até em demasia, mas se perde em seu andamento rítmico pouco atraente.

O último bloco de canções do disco é iniciado pela insuportável “Recursive Self-Improvement”, que não faz nada mais do que encher linguiça por longos seis minutos e meio. Sim, “Welcome Oblivion” comete erros, tem algumas faixas claramente mal trabalhadas, mas nem por isso é um registro que pode ser desconsiderado; embora Trent Reznor não seja mais o mesmo músico dos velhos tempos, ele ainda se mantem como um dos nomes mais importantes da cena mundial, um produtor que a música necessita para continuar a evoluir através das experimentações. Apesar de não ser uma das melhores composições de Reznor, muito longe disso, “The Loop Closes” pode ser a prova que faltava para o ouvinte perceber que ainda há um futuro promissor para a carreira do criador do Nine Inch Nails. A enjoativa “Hallowed Ground” pode até não encerrar o álbum muito bem, mas sua produção é claramente caprichada.

No fim, o que se percebe é que o registro, mesmo constantemente tentando fugir das obviedades, acaba caindo naquela situação comum e corriqueira dos álbuns de música; afinal de contas, não são poucos os discos que, assim como “Welcome Oblivion”, são capazes de cometer erros e acertos dentro de um mesmo cenário e de uma mesma ideia central. O grande álbum de estreia do How to Destroy Angels é até conciso, não se perde em seus conceitos, conseguindo passar com firmeza os ideais propostos pelo projeto; mas não é, em contraponto, um trabalho muito consistente, dando algumas escorregadas consideráveis, outrora até imagináveis para um músico do porte de Trent Reznor.

Experimental como nunca e musicalmente polêmico como sempre, o cara da música industrial está de volta. O ouvinte pode amá-lo ou odiá-lo, só não pode negar a importância deste retorno; Trent Reznor pode até errar, pode até não ter a mesma capacidade criativa de outrora, mas continua a ser um dos músicos mais irrequietos do globo. Coragem ele tem de sobra, capacidade também, e mesmo que agrade a poucos, inclusive correndo um grande risco de ser mal recebido pelos antigos seguidores do NIN, Reznor faz no primeiro álbum do How to Destroy Angels sua abertura definitiva para o século XXI. Afinal, inteligentemente, ele parece fazer de tudo para se desapegar das texturas noventistas, abraçando o futuro a fim de se manter como um artista atual.

NOTA: 6,8

Track List:

01. The Wake-Up [01:42]

02. Keep it Together [04:27]

03. And the Sky Began to Scream [03:57]

04. Ice Age [06:52]

05. Welcome Oblivion [03:57]

06. On the Wing [04:52]

07. Too Late, All Gone [06:15]

08. How Long? [03:53]

09. Strings and Attractors [04:28]

10. We Fade Away [06:41]

11. Recursive Self-Improvement [06:28]

12. The Loop Closes [04:50]

13. Hallowed Ground  [07:19]

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