1993: Pablo Honey – Radiohead

Por: Renan Pereira

É muitas vezes estreita a relação entre os instrumentos musicais e os bancos escolares. Enquanto atormentados pelo estudo de fórmulas matemáticas, conceitos físicos, estruturas químicas e assim por diante, os alunos parecem se sentir muito bem se refugiando em certos grupinhos onde há o partilhamento dos mesmos ideais; independente do lugar, sempre há a turma dos patricinhas, o bando dos fortões, a trupe dos esportistas, o grupo dos nerds… e, é claro, o pessoal que se reúne por ter o mesmo gosto musical. Muitas das bandas que vieram a alcançar um papel altamente relevante durante a história da música acabaram surgindo do coleguismo escolar, em meio a toda aquela atmosfera de cadernos, quadros-negros, professores, provas, trabalhos e namoricos. Assim mesmo aconteceu com o Radiohead, banda formada durante a segunda metade dos anos oitenta em uma escola para meninos de Abingdon, Inglaterra.

Thom Yorke e Colin Greenwood estavam no mesmo ano, enquanto Ed O’Brien e Phil Selway estavam uma série acima, e Jonny Greenwood dois anos atrás que seu irmão. Os cinco formaram, em 1985, uma banda chamada “On a Fryday”, nome em referência ao dia em que eles se reuniam na sala de música do colégio para ensaiar. Realizaram seu primeiro show em uma taverna local no ano de 1986, e embora, no ano seguinte, todos membros (exceto Jonny Greenwood) tivessem deixado Abingdon para frequentar a universidade, a banda continuou a ensaiar seguidamente nos fins de semana e feriados. Em 1991, quando todos os membros (exceto Jonny) já haviam completado seu grau universitário, iniciaram uma rotina de shows e gravações de fitas-demo, logo chamando a atenção de vários produtores; a partir daí, não demorou muito para a banda assinar um grande contrato com o selo Parlophone, da EMI, alterando aí seu nome para “Radiohead”. Após a gravação do EP “Drill”, o grupo então finalmente partiria para a gravação de seu primeiro álbum de estúdio.

Com a explosão do rock alternativo ao redor do globo, muita coisa acontecia na música no início do ano de 1993, tanto que “Pablo Honey”, primeiro álbum do Radiohead, foi lançado sem que muita gente percebesse. O disco só realmente ganharia uma relativa importância com o sucesso do single “Creep”, primeiro clássico da banda, que não só abriu portas para o grupo em sua terra natal como tornou o Radiohead um nome conhecido no outro lado do Atlântico.

“Creep” foi extremamente importante, é fato, pois muito do que a banda viria a fazer nos próximos anos só foi possível com o status alcançado pelo single (afinal de contas, ele levou o nome do grupo ao público que, posteriormente, viria a conferir o Radiohead a se tornar uma lenda). Mas, no fim, a música acabara por criar uma sombra em cima de todas as outras faixas que preencheram “Pablo Honey”, tornando o primeiro disco da banda, para a crítica, nada além de “um conjunto de composições a rodear a grande música do álbum”. Felizmente, com o passar dos anos, enquanto o Radiohead se tornava um lugar-comum para quem se dizia “entendedor do rock alternativo”, o interesse do público por “Pablo Honey” acabou crescendo a passos largos, tornando o registro não somente um acontecimento importante por ser o primeiro álbum de Thom Yorke e sua trupe, mas uma audição praticamente obrigatória para quem deseja, em algum momento de sua vida, se auto-intitular “fã da banda”.

“Pablo Honey” reflete tudo o que o quinteto havia feito desde seus primeiros anos, quando ainda precisava das sextas-feiras e da sala de música do colégio para realizar sua música. Totalmente inserido nos sentimentos que permeavam o início dos anos noventa, o disco reflete os rumos que o rock tomava naquele tempo, fazendo intenso uso das ideias plantadas pelas bandas alternativas que, na onda do Nirvana, alcançavam o mainstream. Por mais que passe longe de ser o maior momento de criatividade da banda, “Pablo Honey” não deixa de ser um bom álbum, uma boa pedida para quem deseja conferir, em apenas um trabalho, muitos dos anseios dos músicos que começavam a sua carreira na primeira metade dos anos noventa, influenciados por “Nevermind”, “Loveless”, “Ten” e demais registros que marcaram profundamente a música alternativa.

É dentro do peso das guitarras de “You” que o disco se inicia, mostrando um Radiohead muito mais raivoso em comparação aos seus trabalhos posteriores; é uma ótima faixa de abertura, mesclando competentemente as guitarras sujas com a melancolia característica do rock alternativo noventista. A famosíssima “Creep” é a segunda faixa, uma canção que, apesar de suas claras pretensões comerciais, não deixa de ser caracterizada como uma das melhores performances da banda em seu primeiro disco; talvez ela tenha sofrido até um pouco de preconceito, por ter significado para muita gente, naquela época, e de forma totalmente errônea, praticamente o álbum em sua totalidade. A forte “How Do You?”, apesar de não ser lá muito criativa, é um bom exemplo dos anseios juvenis da banda em seu primeiro álbum; é um dos momentos mais pesados do Radiohead, e a máxima aproximação da banda ao grunge… Sim, Thom Yorke foi mais um dos trocentos músicos que, em meio à subida da música underground ao mainstream, se inspiraram constantemente na obra assinada por Kurt Cobain.

“Stop Whispering” é uma balada agradável, mostrando que o vocal de Thom Yorke, apesar de ainda distante de seus melhores momentos, já era capaz de se destacar positivamente. O instrumental acústico de “Thinking About You” atrai, tornando a quinta faixa do disco um número válido, apesar de sua letra claramente pouco amadurecida. Aliás, não espere o ouvinte em “Pablo Honey” a mesma capacidade lírica demonstrada pela banda nos lançamentos posteriores; a todo momento, o disco soa juvenil, passeando por temas e sentimentos adolescentes, em um cenário bastante longínquo da concepção totalmente madura de trabalhos como “The Bends”, “OK Computer” e “Kid A”.

“Anyone Can Play Guitar” é uma faixa propositalmente envolvida por arranjos sujos, procurando alocar o Radiohead dentro de toda aquela explosão alternativa que acontecia em 1993. Em “Ripcord”, podemos novamente contemplar a grande inspiração que o Nirvana foi para o Radiohead em seus primeiros anos, enquanto a calma “Vegetable” acaba pendendo para um instrumental mais ligado ao pop-rock, soando largamente acessível ao grande público. Construída acima de arranjos muito inteligentes, a nona faixa, “Prove Yourself”, acaba se destacando como um dos melhores números do disco, e deixando claro que, em um futuro próximo, a banda, mais amadurecida, poderia vir a se infiltrar entre as melhores do mundo (o que, de fato, viria a ocorrer).

Por mais que o disco cometa lapsos, principalmente por investir no lugar-comum que começava se instalar nas bandas alternativas, não há como negar que nele temos ótimas canções, um catálogo que aos poucos começa a impressionar e que levaria o público a conhecer um dos projetos musicais mais influentes de sua geração. “I Can’t”, por exemplo, é uma canção arrebatadora, contendo um dos melhores riffs iniciais de toda a lista de canções do Radiohead. Em contraponto, “Lurgee” se destaca pela fraqueza, por ser um dos momentos mais decepcionantes da banda em estúdio, mas que, no fim das contas, pouco compromete no resultado final do disco; em 1993 o Radiohead estava apenas começando, e se havia um momento em que certos erros eram até aceitáveis, estes estavam presentes no primeiro álbum de estúdio do quinteto. Álbum este que se encerra já parecendo antecipar o que surpreenderia os ouvintes dois anos mais tarde: “Blow Out”, a faixa final, soa como uma concepção inicial da sonoridade que o Radiohead exploraria com maestria no clássico “The Bends”.

A estreia do Radiohead não é, definitivamente, do mesmo primor artístico dos demais discos do grupo. É muitas vezes imaturo, escorregando em inquietações juvenis, mas o que pode se pedir, no fim, é que o ouvinte não vá atrás apenas do que a banda construiu a partir de 1995. “Pablo Honey” pode não ser uma obra incrível, mas é um disco que, mesmo vinte anos após seu lançamento, soa musicalmente vívido, exatamente como soava naquela época. É verdade que até hoje ainda é o trabalho de menor complexidade e brilhantismo do Radiohead, mas, ao levarmos em consideração a importância e a grande qualidade da banda em questão, a falta de destaque de seu primeiro álbum não chega a significar um grande demérito; muito pelo contrário, “Pablo Honey” é uma pequena estrela na discografia do Radiohead, com a inquietação de Thom Yorke a planejar, para o futuro, obras de grandeza irretocável.

NOTA: 7,2

Track List:

01. You [03:29]

02. Creep [03:56]

03. How Do You? [02:15]

04. Stop Whispering [05:16]

05. Thinking About You [02:41]

06. Anyone Can Play Guitar [03:38]

07. Ripcord [03:10]

08. Vegetable [03:13]

09. Prove Yourself [02:25]

10. I Can’t [04:13]

11. Lurgee [03:08]

12. Blow Out [04:40]

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